8 de jan. de 2026

Nós e a geografia que nos deram

Intervalo
 
Por Milton Rezende
 
“Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino
Que envelheceu, um dia, de repente!”
(Mário Quintana)
 
Tenho quarenta e cinco anos
e já neste meu último aniversário
foi levantada a hipótese irreversível
do envelhecimento antes da morte,
mas nunca sabemos o que virá primeiro.
 
Seja como for o assunto é desagradável.
 
Imaginei-me de carteirinha sexagenária,
entrando pela porta da frente dos ônibus
e viajando de graça pelo país dos meus netos.
 
Logo adiante eu precisaria sacar um dinheiro
no banco e haveria um guichê específico
esperando a minha dificuldade de caminhar.
 
Soube também que eu poderei requerer
um acréscimo no valor da aposentadoria,
para gastar com hospitais, médicos e remédios.
 
Seja como for o assunto é desagradável.
 
A minha vontade é rasgar
o estatuto do idoso
e voltar a ser criança.
 
Do livro Uma Escada que Deságua no Silêncio.
 
 

Nós e a geografia que nos deram
 
Somos como pássaros
extraídos de um livro
de ficção antes de lê-lo,                                                                           
e, portanto, não sabemos
representar bem os papéis
que nos são atribuídos.
 
Somos personagens assustadas
e não temos pátria afetiva.
Assim que pudermos vamos saindo
e a gaiola de nossa existência
coletiva deverá ficar vazia,
sem merecer sequer um poema.
 
Do livro Inventário de Sombras.

 
Milton Rezende, poeta e escritor, nasceu em Ervália (MG), em 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF, depois morou e trabalhou em Varginha (MG). Funcionário público aposentado, morou em Campinas (SP), Ervália (MG) e retornou a Campinas (SP). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de quinze livros publicados e quatro e-books. Tem um site e um blog. 

Fortuna crítica: “Tempo de Poesia: Intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende”, de Maria José Rezende Campos (Penalux, 2015).

6 de jan. de 2026

Cinco livros metaficcionais que você precisa ler!

Por Allyne Fiorentino e Sinvaldo Júnior 


Você sabe o que é metaficção? 

Trata-se de uma técnica narrativa, ou escolha estilística, em que uma obra de ficção se torna autoconsciente – mas como assim? –, chamando a atenção para sua própria natureza de artefato fictício (é bom sublinhar essa expressão), questionando a relação entre realidade e ficção. 

A obra, assim, revela seus próprios mecanismos de construção, tanto em personagens que sabem que estão em uma história (Paul Auster faz muito isso!) quanto em autores que escrevem sobre o processo de escrita e o explica (vide Machado de Assis). 

A metaficção não é recente! 

Embora bastante explorado na pós-modernidade, esse recurso é muito antigo! No século XVII, El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha (Dom Quixote), por exemplo, além de ser considerado como o primeiro romance moderno, também é um dos primeiros que se utiliza da técnica metaficcional, sendo considerado extremamente inovador para a época.

Machado de Assis, no século XIX, explorou bastante os recursos dessa técnica narrativa. Mas, sobretudo no século XX, a metaficção alcançou níveis nunca antes alcançados (adoramos esses termos!) com o espanhol Unamuno, o italiano Pirandello e o argentino Borges, entre outros. Jorge Luis Borges e Luigi Pirandello são mestres em questionar as fronteiras entre realidade, autoria e ficção. Enquanto o escritor argentino utiliza a metaficção para explorar labirintos intelectuais e filosóficos, o italiano a utiliza para desmascarar a identidade humana e os mecanismos do teatro. 

Metaficção é o mesmo que autoficção? 

Nãããão. Na nossa visão, obras metaficcionais são mais inventivas, mais criativas e confundem – de verdade – ficção e realidade, colocando às vezes os autores como personagens em situações absurdas e fantásticas. É uma brincadeira literária. A autoficção está mais para um recurso de autobiografia declaradamente ficcional, já que toda obra, seja ela biográfica ou autobiográfica, também tem sua parcela de "ficção", visto que trata-se de verosimilhança que passa pelo crivo subjetivo do autor/a (mas isso é assunto para outra hora).

Vamos à lista e já avisamos (contém spoilers!)

1 - Névoa – Miguel de Unamuno 

Já no início da obra, há um prefácio escrito por um homem que, depois, descobrimos ser um dos seus personagens. Após o prefácio, o autor (Unamuno) responde ao seu personagem com um pós-prefácio. Louco, né? 

Nesta "nivola" (termo criado pelo autor), no meio da história o protagonista Augusto Pérez descobre que é um personagem de ficção. Ele decide confrontar seu criador, o próprio Unamuno, em seu escritório em Salamanca, para discutir seu destino e o fato de não querer morrer. 

A obra quebra a barreira entre autor e personagem, questionando quem tem mais “realidade” (o criador mortal ou a criatura literária eterna?) e evidencia a dicotomia confusa entre o mundo real e o mundo ficcional.


 

Borges não escrevia romances, mas seus contos (em coletâneas como Ficções e O Aleph) são exemplos puros de metaficção no século XX. Em algumas narrativas, inclusive, Borges é o próprio narrador e personagem, confundindo as diferenças entre personagem/narrador/autor.

 

  • “Pierre Menard, autor do Quixote”: Trata-se de um falso ensaio literário que narra a história de um homem que decide reescrever o Dom Quixote de Cervantes, palavra por palavra. Borges discute como o significado de um texto muda dependendo do contexto e de quem o lê, transformando o ato de ler em um ato de criação. Aqui também há a intertextualidade com a própria metaficção contida em Dom Quixote.
  • “O jardim dos caminhos que se bifurcam”: O conto é um livro-labirinto onde todas as possibilidades de uma história acontecem simultaneamente. É uma ficção que comenta sobre a estrutura de todas as ficções e sobre o tempo como um livro infinito. 
  • “As ruínas circulares”: Um homem sonha com outro homem até torná-lo real, apenas para descobrir, no final, que ele próprio é um sonho de outra pessoa. É uma metáfora para o autor que cria personagens, mas que também é “criado” pela tradição literária.

Borges, ao refletir sobre a natureza da ficção, convida o leitor a refletir sobre a própria natureza da realidade. Também explora, por meio dessa técnica/escolha, a condição humana em vários aspectos, sobretudo em questões relacionadas à passagem do tempo, de uma forma extremamente inovadora. E por falar em inovador...


3 - Seis personagens à procura de um autor – Luigi Pirandello 

Pirandello é aquele cara que revolucionou o drama moderno ao romper a ilusão do palco, criando o que chamam de metateatro. 

Essa obra é o exemplo máximo de metaficção no teatro. É uma brincadeira. É uma loucura. E é muito divertido! No meio de um ensaio de uma peça de Pirandello, seis pessoas entram no palco alegando ser personagens inacabados de uma história nunca escrita. Eles exigem que os atores reais encenem a tragédia deles. 

A obra discute a si mesma, expondo suas características e funcionamento; os personagens sabem que fazem parte de uma história e interagem diretamente com o público, lembrando-o da artificialidade da obra e “quebrando a quarta parede” (expressão da moda usada para qualquer coisa nesse sentido).


 

Publicado em 1979, é uma das obras mais emblemáticas das últimas décadas: é um labirinto sobre a arte de ler e escrever, funcionando como uma reflexão profunda sobre a natureza da literatura. 

Se um viajante numa noite de inverno coloca o leitor real no papel de personagem, dissolvendo a fronteira entre o mundo real e o ficcional. Ademais, o livro discute abertamente os mecanismos da narrativa, as expectativas de quem lê e as frustrações de quem escreve. Através do personagem Silas Flannery (um autor em crise), Calvino questiona se o autor é realmente o “dono” da obra ou apenas um canal para tradições literárias.


5 - Ensaios sobre a total libertação – Rogers Silva 

Longe de nós querer comparar Borges, Unamuno, Calvino e Pirandello com nosso amigo Rogers! Mas, para destoar dessa lista de clássicos dos clássicos, escolhemos colocar um livro recém publicado e que encaixa perfeitamente no conceito de metaficção. Duvida? 

O primeiro conto do livro, “Drummond no Orkut”, começa com o personagem João se sentando em um banco de uma praça e se esbarrando no livro Manicômio, justamente a primeira obra do autor, Rogers Silva. A partir daí, o conto mistura narrativa e ensaio, metaficção e mistério, crítica social e redenção. 

No conto “A máquina-führer”, por exemplo, uma máquina, criada por um alemão a mando de Hitler na década de 1930, permite aos dois protagonistas (o Curioso-menor e o Curioso-Maior) irem a qualquer tempo, espaço ou mente humana. O que parece uma aventura despretensiosa possui, na verdade, outro propósito: não deixar que o autor Rogers Silva seja culpado pela Segunda Guerra Mundial. Os personagens precisam correr contra o tempo, porque se essa tragédia ocorrer (não a Guerra, mas o autor ser o culpado por ela), ele se suicidará aos trinta anos. 

Há mais dois contos longos: “Ensaio sobre a libertação total” e “antifadorogerssilva@yahoo.com.br”, em que o autor, Rogers Silva, é também o protagonista da história. Esta última é uma história de stalker: um fã começa a seguir o autor em todos os seus passos: o que a princípio parece uma brincadeira, transforma-se numa história de suspense e terror.


 

Gostou das indicações?

E você, leitor, quais obras metaficcionais leu e gostou? 

 

Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais, mas reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia, com foco em Simbolismo brasileiro e hispano-americano. Atua em Tecnologia da Educação. Instagram: @allyne.fiorentino. 

Sinvaldo Júnior é professor, pesquisador acadêmico e revisor de textos. Possui graduação em Letras/Português, mestrado em Administração e doutorado em Estudos Literários. Atualmente cursa pós-doutorado, com pesquisa comparada entre literatura e cinema. Mora em Uberlândia/MG.

5 de jan. de 2026

Círculos

Por Allyne Fiorentino



Há um abismo. E você quase cai. O coração acelera. Sempre quis saber qual a sensação de alguém que escolhe cair de vários metros do chão. Um desejo recluso no peito. Arrepender-se-á talvez? Ou será como nos sonhos? Em que você sempre acorda antes de chegar ao chão. E se não acordássemos? E se não acordássemos mais? 

Há uma porta. Do outro lado te esperam. Você não quer ir, quer adiar. Quase cai novamente. E se eu não for? Se eu me recusar a fazer o que eles querem, se eu decidir que mudarei a rota, não adianta me esperarem. Eu pretendo demorar. O coração acelera. Você já estava quase lá. Por que voltou? Eu sei o que você quer ver. Seu demônio te espera quando abrir os olhos, mas pra isso é preciso cair no abismo antes. Por que você não cai? Por que resiste tanto? 

Um salto mais brusco e você está em frente a um rio. Não era bem onde eu imaginava estar. Águas caudalosas e turvas não permitem ver o fundo. Tem alguém do outro lado. Mas as águas sobem aos céus, viram fumaça branca e granulam a vista. Quem é essa mulher? Pergunto (Pergunto a quem?): “É a mulher que você prometeu sussurrar do outro lado do rio” – ele responde (Ele quem?). O coração acelera de novo. Estamos novamente na borda do abismo. Quantas vezes eu voltarei aqui? A ideia de um inferno cíclico assombra os homens. As mulheres não, elas estão acostumadas a círculos, ciclos e, também, a infernos. 

Ando prometendo coisas que nem sei. Ando sussurrando mulheres com língua de serpente sem saber. Há coisas que só fazemos no feérico. É certamente o dia delas chegando. No último dia de outubro, nós nos sussurramos todas. Criamos corpos sobre corpos, sobre corpos, sobre corpos... Do que você está falando? De assombros. Que horas são? O coração acelera mais uma vez. Dessa vez os batimentos me acordam pra valer. Bato o braço na mesa de cabeceira. Já se passaram duas horas. Duas horas meio perdidas. Duas horas de não sono, de delírios. Eu preciso acordar cedo. 

“É a mulher que você prometeu sussurrar do outro lado do rio” – penso. Que frase vívida! Eu costumo fazer poesia enquanto durmo. Eu costumo ser Eva quando durmo.

 

* Crônica publicada originalmente no Crônica do Dia.

 

Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais, mas reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia. Atua, atualmente, em Tecnologia da Educação. Apaixonada por Literatura Feminina, Simbolismo, Filosofia e excentricidades. Low profile do mundo literário, escreve pouco, mas, acredite, incisivamente. Está também em Crônica do Dia. Instagram: @fiorentinoallyne.

3 de jan. de 2026

Indique livros para O Bule!

🤓Queremos saber: Que livros você indica? 

Indique livros para lermos em 2026: 

📚de ficção,

📚de qualquer gênero literário: poemas, contos, novela, romance, etc.

📚pode citar autores que você gosta? Pode! 

Que tal movimentarmos o mercado literário além do óbvio?


31 de dez. de 2025

#EscuteLiteratura n'O Bule

#EscuteLiteratura, como o nome sugere, é uma série de textos literários, em geral curtos, lidos/narrados para quem assim prefere ou precise, como pessoas cegas, etc. Pode chamar de audiobook, leitura dramática, literatura audiovisual, do que quiser, mas é literatura.

30 de dez. de 2025

"conforto", de whisner fraga


Whisner Fraga é mineiro de Ituiutaba. Autor dos livros usufruto de demônios (Ofícios Terrestres, contos, 2022, finalista do Prêmio Jabuti), usufruto de ruínas (Ofícios Terrestres, contos, 2023), as fomes inaugurais (Sinete, contos, 2024), entre outros. Teve contos traduzidos para o inglês, árabe e alemão. É responsável pelo canal “Acontece nos livros”, no YouTube, em que fala sobre obras da literatura brasileira. 

27 de dez. de 2025

Quais os melhores livros que você leu em 2025? CorraAtrásDessesLivros (17ª edição)

A pergunta era simples: 

Quais os cinco melhores livros que você leu em 2025? 

Os critérios também: 

  • Não é uma regra, mas foque em livros literários.
  • Não precisa escrever nada sobre eles, ok? 

Mas – sabemos todos – que escritores costumam ser desobedientes, e alguns bem enrolados. 

É bom deixar claro que não estamos nenhum pouco preocupados em promover best sellers, das grandes editoras papadoras de prêmios, publicados em 2025, ok? Então não espere, leitor, listas com “os melhores livros de todos os tempos da última semana” nem, muito menos, de escritores carimbados que escrevem sobre temas batidos de uma forma superficial. 

Mas verá, por outro lado, que as listas são bem diversificadas. Nas listas de Rogers e Ricardo, por exemplo, prevalecem obras/autores canonizados, tanto brasileiros quanto estrangeiros. A lista da Allyne é bem eclética, com autores brasileiros que publicaram há dois meses, juntos com um autor islandês (Sjón, o único escritor que se repete), desconhecido dos leitores brasileiros. Na lista de Krishnamurti prevaleceu a literatura brasileira contemporânea. Na lista de Whisner prevaleceu a literatura contemporânea, com representantes do Brasil (a maioria), da Angola e da França. Milton Rezende, por sua vez, colocou em sua lista - espontaneamente, que fique claro - apenas livros dos colunistas d'O Bule, relidos por ele durante este ano.

Enfim, eis a lista de cada colunista a seguir e, para cada obra, um link onde o leitor pode conhecer um pouco mais sobre ela e adquiri-la, caso se interesse.
 

Dito isso, abraços! 

 

Os melhores livros lidos por Allyne Fiorentino em 2025:

Cinzas do Norte (Milton Hatoum)

Pela boca da baleia (Sjón)

Crisântemo (Gustavo Coelho e Sinvaldo Júnior)

A raposa sombria (Sjón) 

 

Os melhores livros lidos por Krishnamurti Góes dos Anjos em 2025:

O último dos copistas (Marcílio França Castro)    

Só vale a pena se houver encanto (André Giusti)

Vozes para tímpanos mortos (Mário Baggio)

Arqueologia da luz (Mell Renault)      

Toda mulher que ama é Medeia (Patrícia Porto)

Em-nome-do-PAI - trilogia infamiliar (Márcia Barbieri)



Os melhores livros lidos por Milton Rezende em 2025:

À flor da pele (Krishnamurti Góes dos Anjos)

Manicômio (Rogers Silva)

Da Essencialidade da Água (Milton Rezende)

O privilégio dos mortos (Whisner Fraga) 



Os melhores livros lidos Rogers Silva em 2025:

A última dança de Chaplin (Fabio Stassi)

Névoa (Miguel de Unamuno)

Todos os fogos o fogo (Julio Cortázar)

Fugitiva (Alice Munro)

 

Os melhores livros lidos por Ricardo Novais em 2025:

A Peste (Albert Camus)

O Casamento (Nelson Rodrigues)

Angústia (Graciliano Ramos)

Pessoas normais (Sally Rooney)

 

Os melhores livros lidos por Whisner Fraga em 2025:

Amores terás vivido (Wilson Loria)

De repente nenhum som (Bruno Inácio)

Caixa de vazios (Vicente Humberto)

A visão das plantas (Djaimilia Pereira de Almeida)

O deus da carnificina (Yasmina Reza)


Leu algum desses livros? Gostou? Afinal, quais os melhores livros que você leu em 2025, leitor? Fique à vontade em nos dizer!

26 de dez. de 2025

Pássaros cantando entre as grades

Por Milton Rezende
 
Versão
 
estenose
fístula
esofagiana
hérnia
perda
do
baço
redução
do
estômago
transfusões
de
sangue
     infecções
     sequela
     definitiva
     e pássaros
     cantando
     entre as
     grades.
 
Do livro Da Essencialidade da Água. 
 

A marca da besta
“666 what is your name?
Legião, porque
Somos muitos” 
A besta de Gevaudan
não era a besta
do apocalipse, como
depois ficou provado
após ela ser abatida
e não continha a marca
da besta bíblica.
 
A besta de Gevaudan
era apenas uma fera
sanguinária que eliminou
várias pessoas no entorno
da floresta que habitava.
 
A besta do apocalipse
era bem mais sutil
e se infiltrava
em todas as camadas
do fazer humano:
relações interpessoais
e políticas. em tudo
a mesma carnificina. 
 
Olhe ao redor e vislumbre
o caos, as classes, os clãs
e os dentes incisivos na
carne putrefata.

Do livro Da Essencialidade da Água.


Milton Rezende, poeta e escritor, nasceu em Ervália (MG), em 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF, depois morou e trabalhou em Varginha (MG). Funcionário público aposentado, morou em Campinas (SP), Ervália (MG) e retornou a Campinas (SP). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de quinze livros publicados e quatro e-books. Tem um site e um blog. 

Fortuna crítica: “Tempo de Poesia: Intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende”, de Maria José Rezende Campos (Penalux, 2015).

24 de dez. de 2025

Auto de Natal contemporâneo (Parte II)

Por Ricardo Novais 

Maria caminhava pela rua como quem carrega um segredo antigo demais para o próprio corpo. Não era bonita; e isso convém dizer logo, para que o leitor não se iluda; mas trazia no rosto a dignidade teimosa das mulheres que já perderam tudo e, mesmo assim, seguem em frente. Ao seu lado vinha José, homem de roupas cansadas e olhar resignado, desses que não discutem com o destino porque sabem que o destino, quando responde, costuma ser com bofetões. 

Ambos caminhavam sem rumo claro, o que, aliás, é o único rumo possível aos que nada possuem. 

De súbito, irrompeu pela multidão um menino correndo como quem foge do próprio nome. Pequeno, sujo, ligeiro. Atrás dele vinham os gritos; esses sim muito bem-vestidos: 

_ Pega! Ladrão! Trombadinha! 

Convém notar que a palavra “menino” nunca foi usada. Ninguém corre atrás de um menino; corre-se atrás de um delito. 

O garoto atravessou a avenida como quem atravessa um purgatório improvisado. O ônibus veio como uma sentença: grande, barulhento e pontual em sua brutalidade. Não freou. Nunca frearia. O impacto foi seco, definitivo, quase elegante na sua eficácia. O corpo caiu no asfalto quente, espalmado, como se a cidade finalmente tivesse conseguido escrever seu nome em letras grandes. 

Chamava-se Jesus. 

Maria aproximou-se do corpo com a lentidão das mães que já sabem a resposta antes da pergunta. Chorou; chorou muito; mas não com desespero teatral; chorou com aquela economia de lágrimas típica de quem já ensaiou a dor em outras ocasiões. José ergueu os olhos ao céu, gesto antigo e inútil, como quem consulta um relógio quebrado. 

Nada aconteceu. Nenhuma voz. Nenhum trovão. Nenhum anjo com problemas de agenda. Os céus estavam ocupados demais para assuntos de rua. 

Não vieram reis magos; talvez o Waze não funcionasse ali. Em seu lugar, chegaram os guardas da GCM, zelosos pelo patrimônio público, mas humanos até certo ponto, organizando o cenário como se montassem um presépio às avessas. Delimitaram o corpo com fita amarela, essa auréola moderna dos condenados. 

Os animais sagrados também faltaram. Nenhum boizinho, nenhuma vaquinha, nenhum burrinho. Compareceram, porém, ratos atentos, baratas solenes e outros fiéis habitantes do chão urbano, esses sim sempre presentes nos grandes acontecimentos. 

Rezou-se apenas uma oração improvisada, cantada em tom burocrático: 

_ Chama o rabecão... 

E foi assim, entre curiosos, celulares erguidos e olhares que misturavam pena e alívio – ainda bem que não fui eu – que se celebrou o Natal. 

Maria recolheu o silêncio. José segurou o vazio. 

E a cidade seguiu seu curso, satisfeita por ter resolvido mais um milagre com eficiência administrativa. 

Naquela noite nasceu – e morreu – um menino. 

 

Ricardo Novais nasceu em São Paulo. Costuma dizer que só escreve porque escrever é coisa infinita, ainda que seja somente rótulo. Rótulos podem ser divertidos, superficiais, é verdade, mas bem divertidos. É autor do romance O Boêmio e dos livros de contos Trem noturno e Perfumes da pátria. Acredita que a vida e a morte são como um gol aos 45’ do segundo tempo; o último gole é sempre a saideira.