28 de jan. de 2026

Três poemas de Ana Yanca

 

Na manhã tântrica  
línguas babilônicas
serpenteiam fluídas
sorvendo leite da carne
no corpo solar

Na manhã tântrica
uma dança xamânica
germina no ventre do signo

partejo fábulas corcéis labirintos

Flâmulas vibram espasmos
entorno da ânsia: o grito

Serpente dourada protege
a manjedoura do filho

 Urge e fulgura

na parede da casa
a memória urtigada dos sentidos


*

Contorcia a língua
no ventre do silêncio
para entreabrir a palavra
em ritmo de alaúde
em mantra ou mandarim

o corpo perfumado em chá branco
poros em flor vestidos de luz
delineando contornos
que a penumbra produz

do corpo solar emerge
o sopro que me anima
a vívida aurora íntima 

olho para o alto
pássaros na bruma da manhã
atravessam-me
cada gesto é frágil
e carrega o peso do mundo

há que se ter coragem para ser

*

Espero na sombra
uma palavra que
se despregue
das paredes
do poema
e me atinja
como sol
dinamitado

espero a vida ávida
da palavra-lâmina-lamparina
lacerando a carne
bifurcando a língua
e fotografe o tempo

esse agoraprolongado
daqui da sombra
vejo a fosforescência:
germina um corsário

Ana Yanca, natural de Porto Velho, atua como professora na área de linguagens. É graduada em Letras, Pós-graduada em Filosofia Contemporânea, Mestra em Estudos Literários e autora da obra Do corpo ao espaço em Hilda Hilst. Outros poemas, além das colagens digitais, estão disponíveis em meios impressos e virtuais.

27 de jan. de 2026

Poemas de Marcelo Benini do livro "Poemas do núcleo rural"


Retrato com abelha no cabelo

Escrevo o lado oposto de quem me lê
Nunca pensei ser compreendido
Senão por passarinhos e saguis
As frutas me ajudaram mais que os
Dicionários de verbos e regimes 
E as gramáticas
As palavras com as quais me importo
Ciscam
O vento que escrevo está nas folhas
Dos buritis
Só faço versos que têm sopro
No coração.


Terra sem males

Todas as palavras rudes
Formam as montanhas que foi um dia
Minas Gerais

Toda máquina renasce
No contingente ser das máquinas

Todo o embaraço humano
Ignorado pelos gatos 
Todo vazio entre átomos
Tudo que se rompeu
Fios, barragens, amores
Tratados

Restos de construções gramaticais
Anais das instituições
A promessa de vir e não vir

Vidas em corpos arrestados
Presos a esse imenso vazio
Que desmatamos
As cidades são pastos cinzas
Sem onças

Apanha-se a vida no chão
Até que haja o consenso de que todo pasto
É cinza

Fica mesmo é um mato
Um imenso
De precários rebocos.


Poemas apanhados do chão na estrada do núcleo rural 

Nasceu a flor no homem
A chuva demora
A formiga corta
O mato abafa   
A mão arranca a tentativa
De flor no homem.

****

Tudo que alcanço
É um cata-vento sem Deus
Um mundo mecânico
De pá e vento.  

****

Quem é meu pai
Quem é minha mãe
Quem são meus irmãos
Ossos que visito
Arrependimentos
Pratos sobre a pia
Quem é esse silêncio
Que assoma 
Na manhã inventariada?

****

Amor é o gosto por livros
Com prefácios equivocados.

****

De grunhidos
Faremos um mundo
E com gritos -
Neste uso
De urros -
Linguagem
Gramática
E normas
Cultas.

****

Se acabarem os passarinhos
Como farás os poemas
Terás que falar apenas das árvores
Mas as árvores secam no
Abandono dos passarinhos
Os rios sem as árvores vão embora
As flores desistem
Acabaram os passarinhos.


Lamentações do doutor Fausto

Um diabinho pousou no galho mais alto do ipê
Prometeu-me dez minutos de felicidade
E começou a cantar, cantar e cantar
Em troca de minha alma.


* Retirados de Poemas do Núcleo Rural (2022, Penalux).


Marcelo Benini é poeta e ambientalista, nascido em 1970, em Cataguases - Minas Gerais. Publicou O Capim Sobre o Coleiro (poesia/2010/edição do autor); O Homem Interdito (crônica/2012/Intermeios); Fazenda de Cacos (poesia/2014/Intermeios); Currais Concretos (poesia/2018/Intermeios); Poemas do Núcleo Rural (poesia/2022/Penalux). Em 2013 foi incluído na antologia de autores brasileiros Wir sind bereit, publicada na Alemanha. Vive em uma área rural próxima a Brasília-DF. Instagram: @marcelobeninipoemas

26 de jan. de 2026

A Editora Merda na Mão acaba de parir mais um livro, e sem anestesia!


Eis que a Editora Merda na Mão acaba de parir mais um livro, e sem anestesia: Coração enrolado em arame farpado & outras tretas rolandode Gutemberg F. Loki. 

Aqui não tem delicadeza ornamental nem poesia de vitrine.
É poesia de asfalto, escrita com o corpo em risco, o dente rangendo e o ouvido colado no ruído da cidade. Gutemberg F. Loki, poeta independente e vocalista da banda Leptospnoise, despeja no papel a mesma fúria do noise punk e do hardcore sujo. O amor falha, a cidade esmaga, o tempo cobra juros altos e não aceita parcelamento.
 

Os poemas escorrem como um blues torto, atravessados por sirenes, concreto rachado e urgência política. Nada aqui é simbólico demais: tudo foi vivido. Os versos parecem nascer entre um gole e outro, sem promessa de salvação, sem final feliz, sem perdão. É livro de quem anda no acostamento, sangra, mas segue em frente. 

Literatura marginal, direta, sem pedido de desculpa.

Palavra distorcida como guitarra no talo.

Editora Merda na Mão em estado bruto. 

Mais uma publicação pra quem ainda acredita que poesia não serve pra confortar — serve pra cutucar, ferir e manter acordado. 

Quem quiser colocar as mãos nessa obra pode adquirir o livro no link abaixo. A compra é simples, direta, e o exemplar chega certinho na sua casa:
https://loja.uiclap.com/titulo/ua140101/
 

* Agradecimentos a Fabio da Silva Barbosa, por conectar Gutemberg à Editora Merda na Mão e acender esse encontro. E, sobretudo, a Lívia Batista — sem sua força, sensibilidade e trabalho incansável, este livro não teria atravessado a ideia para existir no mundo. Gratidão pela confiança, pela paciência e pela parceria em todo o processo. 

 

Ficha técnica:
 
Título: Coração enrolado em arame farpado & outras tretas rolando
Autor:  Gutemberg F. Loki
Dimensões: 13,9 × 21 × 0,38 cm
Páginas: 56
Miolo: Papel Avena / Pólen
Capa: Fosco, com orelha
Diagramação e designer: Lívia Batista
Arte da capa e ilustrações: Diego El Khouri
Ano: 2025

24 de jan. de 2026

Sussurros



Por Allyne Fiorentino 

Tenho teorias absurdas sobre ecos. Eles sussurram em meus ouvidos, reclamando que já haviam sido ditos e só estão retornando para lembrar que somos surdos, embora toda a nossa vida seja movida a hálitos. Há um milhão de vozes suspirando ao nosso redor, contando nossa história, como menestréis. Desde ordinárias coisas até eventos grandiosos e traumáticos. Você não ouve, mas se prestar atenção direitinho... 

Há muitos anos eu ouvi sobre ausentar-se pela primeira vez. Naquele dia, ela disse, e eu lembro de prestar muita atenção: ser adulto é saber lidar com a distância. Não havia motivo nenhum para que isso me consternasse naquela época — eu vivia com a minha família e meu desejo ainda se concentrava em furar a membrana do útero que, aos nos tornarmos adultos, vira prisão. 

Mas aquilo me tocou: ela, vinda de outra cidade para nos dar aulas, tinha, claro, abdicado do convívio com a sua família para seguir sua carreira. E com a frieza típica das mulheres fortes — sem emoção nos olhos, mas com pausas um pouco mais alongadas — ela falava sobre a avó e o tempo de “não convívio”. Nós abdicamos de um tempo para construir outros tempos. Ser adulto é isso: tomar as rédeas do tempo que te resta. 

A sala estava cheia. Ela falava tudo aquilo para mim, sem saber. Eu escutava atenta, também sem saber que aquilo era para mim. Eram os sussurros do tempo dela soprando o tempo que eu deveria deixar. Naquela época a voz era vaticínio. Hoje, narradora. Vejo meus pés caminhando e aqueles ecos formando a trilha sonora, repetindo, “eu já estava lá”. Não acredito que nosso destino esteja selado, mas que ele é produzido com muita antecedência. Nossa vida é sopro tão curto que muitos fecharão seus olhos sem se dar conta disso. 

Ausentar-se ou morrer, reflete Sóror Juana... O que dói mais? O que é mais sublime? Longe do que é nosso, o tempo dá sinais mais fortes: a criança que cresce mais rápido, os cabelos que se agrisalham sem você ver, as rugas que desfiguram a imagem da mãe que você guardou. No seu rosto talvez notem a solidão, mas esta você guarda às setes chaves para poupar os outros de dores que eles não devem sentir. Mas e se você não se ausentasse? E se permanecesse ali? E se fechasse a janela para não soprarem sua vida? Ventos e vozes cessariam no seu deserto e ao se despedirem diriam que os hálitos do passado não podem ser engarrafados, cativos. A única maneira de mantê-los vivos é criando memória... ausentando-se.


Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais, mas reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia. Atua em Tecnologia da Educação. Apaixonada por Literatura Feminina, Simbolismo, Filosofia e excentricidades. Low profile do mundo literário, escreve pouco, mas, acredite, incisivamente. Está também em Crônica do Dia. Instagram: @fiorentinoallyne.

22 de jan. de 2026

O Vozes do Cerrado mergulhou nos abismos da alma e na potência da arte!

Crisântemo, de Rogers Silva e Gustavo Coelho, é o ponto de partida para um bate-papo sobre como a literatura e o rock se fundem para narrar a superação de traumas e a busca pela sanidade. 

Mergulhe fundo nessa "sinfonia existencial" e descubra como a escrita pode ser um refúgio para o luto traumático de Carlos, o protagonista, que transforma o silêncio em um grande ruído e se apoia na arte para processar essa dor. 

Descubra: 

  • a estrutura diferentona da obra, onde cada capítulo é batizado com um clássico do rock, de Alice in Chains a Legião Urbana;
  • o funcionamento da escrita a quatro mãos: Rogers, doutor em Estudos Literários, e Gustavo, apaixonado pela cultura Geek e designer da capa, revelam como foi o processo criativo compartilhado dessa narrativa impactante;
  • como as letras das músicas espelham o estado mental do personagem e criam uma verdadeira playlist emocional para o leitor. 

É uma conversa fundamental sobre saúde mental, o poder da amizade e a força da literatura produzida no Brasil! 

Se você perdeu essa conversa ou quer rever cada detalhe, o episódio completo já está disponível no Youtube:




Para obter o e-book de Crisântemo, clique AQUI!

21 de jan. de 2026

Nel Mezzo del Camin tinha uma cidade


Por Milton Rezende
 
Nel Mezzo del Camin (*)
 
À beira de um córrego frio
um habitante fabrica gaiolas:
de pau e arame,
de pau e taquara,
de talo e de cana-do-reino.
 
Na porteira chega uma visita
e ele está ali na tapera:
fatigado, doente, desanimado,
alinhavando projetos frustrados
e comendo pão com diabo amassado.
 
A presença que chega o estimula
e ele volta a sonhar com o tempo,
até acordar do seu sonho e vendo
“o teu vulto que desaparece na
extrema curva do caminho extremo”.

________________________
(*) Olavo Bilac (1865-1918)
 
Do livro Uma Escada que Deságua no Silêncio.

 
Nos limites da cidade
 
Na umidade das pedras
que configuram o fim da rua,
eu deixo a cidade com suas luzes
e embrenho-me no seu depósito de restos
batido pelo silêncio e o desdém dos vivos.
 
Atravesso com passos rápidos
os últimos vestígios onde se respira
e concentra a massa indistinta de seres
que comem carne e habitam em casas para
gerar filhos que conferem um breve hiato
ao fim da espécie que apodrece sob o barro.
 
Minhas botas estalam nas pedras
como o casco de um animal inútil,
e os últimos postes de luz elétrica
escarnecem o meu propósito de deixá-los
para além de sua tarefa de apaziguar
os homens em seu conforto precário.
 
Olho para os lados para certificar-me
de que estou sozinho e então salto sobre
o muro de grades onde repousam os homens
que também comiam carne e geravam os filhos
de uma espécie da qual já não fazem parte.
 
Aqui foram deixados todos aqueles
que um dia não comeram carne e se tornaram inúteis.
E estão esquecidos aqui aonde venho encontrá-los
com seus semblantes de velhos idiotas que acreditavam.
 
Percorro os túmulos que abrigam os mortos
e me detenho nos epitáfios deixados
por parentes que na cidade desprezam estes restos
só pela lembrança de um dia já os terem beijado
na volúpia da carne que agora fede.
 
Antes de deixar o cemitério
e os despojos de carne mal digerida
desses cadáveres abandonados,
eu toco com minhas mãos sem luvas
a massa liquefeita de seus corpos.

Depois volto para a cidade
e acaricio os rostos dos filhos
com o excremento fétido de seus pais,
para que eles ainda sem sintam membros
de uma mesma adorável família putrefeita.
 
Do livro Areia (À Fragmentação da Pedra).
 
 

Milton Rezende, poeta e escritor, nasceu em Ervália (MG), em 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF, depois morou e trabalhou em Varginha (MG). Funcionário público aposentado, morou em Campinas (SP), Ervália (MG) e retornou a Campinas (SP). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de quinze livros publicados e quatro e-books. Tem um site e um blog. 

Fortuna crítica: “Tempo de Poesia: Intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende”, de Maria José Rezende Campos (Penalux, 2015).

20 de jan. de 2026

Quando a lógica da vida falha, o que resta?

Você já se fez esse questionamento? 

O episódio do Vozes do Cerrado desta terça-feira, 20 de janeiro, é dedicado àqueles que encontram na arte uma forma de sobreviver. Recebo os autores Gustavo Coelho e Rogers Silva para um bate-papo profundo sobre o livro Crisântemo. 

A obra é uma experiência sensorial onde cada capítulo é batizado com uma canção — de Alice in Chains a Legião Urbana. Cada página é um convite para entender os abismos da mente humana e a música como estrutura da alma. 

Vem descobrir como essa “sinfonia existencial” foi criada e como a literatura se funde ao rock nesta narrativa impactante. 

Anote aí: Terça-feira, 20 de janeiro, às 19h30.


AQUI. 


Esperamos vocês para essa conversa imperdível!

19 de jan. de 2026

As diversas referências literárias de ‘Ensaios sobre a total libertação’

Por Rogers Silva 

Olá! 

Ao ler um livro, vocês já sentiram que ele é uma conversa entre vários escritores, filósofos, intelectuais e artistas?

Em Ensaios sobre a total libertação, eu decidi brincar com a metaficção e a intertextualidade e criar um verdadeiro labirinto de referências. Para quem ama, em especial, a literatura, o livro está cheio de "easter eggs"!

Olha só quem você vai encontrar:

 

  • Carlos Drummond de Andrade: É o autor da epígrafe do livro Manicômio, encontrado num banco de uma praça por João. Seu nome também compõe o título do primeiro conto: "Drummond no Orkut". É autor do livro do poema "A um ausente", transcrito no perfil do Orkut de Maria Angélica; autor do livro de poemas A rosa do povo, analisado no projeto de mestrado (“A máquina-führer”). Eita, Drummond!
  • Machado de Assis e José de Alencar: citados no conto “Drummond no Orkut”, quando João, o protagonista, lê o livro Manicômio. 
  • Campos de Carvalho: Escritor real, mineiro, tomado como personagem e autor (ficcional) de “Beócia carta para um mundo igualmente etc.”, sua derradeira obra. Seu romance A lua vem da Ásia é um dos objetos de análise do projeto de mestrado de Sinvaldo Júnior – tudo isso acontece no conto "A máquina-führer". 
  • Belchior: Mencionado como o autor de uma música que ainda será composta. 
  • Thomas Hobbes: Referenciado na expressão "Thomas no Hobbes", usada pelos personagens do conto "Ensaio sobre a libertação total". Sua ideia de que "o homem é o lobo do homem" (homo homini lupus) é citada e contrastada com a Filosofia Libertadora, criada pelo personagem Jéferson. 
  • John Locke: Referenciado na expressão "John no Locke" e mencionado entre os grandes filósofos com os quais a Filosofia Libertadora se compara. 
  • Karl Marx: Mencionado em discussões sobre socialismo, é citado por ter acertado que "a filosofia deve incidir sobre a realidade", de acordo com o grupo de Jéferson ("Ensaio sobre a libertação total").
  • Sócrates: Citado nas reflexões sobre a Filosofia Libertadora. É referenciado por sua máxima de que o "filósofo é aquele que nada sabe" e por seu lema "Conhece-te a ti mesmo", que é complementado para incluir o inimigo. A falsa modéstia do Grandefilósofo é comparada à de Sócrates. 
  • Platão: Mencionado em dois contextos: primeiramente, como um dos filósofos que substituiu na vida de Jéferson temas como atrizes e futebolistas; e em uma comparação da Filosofia Libertadora com a Teoria das Ideias (mundo sensível e mundo inteligível). 
  • Aristóteles: Mencionado pela definição de filósofo (aquele que tem a totalidade do saber possível) e pela definição de sofista. 
  • Friedrich Nietzsche: Referenciado na comparação com a Filosofia Libertadora, através dos conceitos de "homem" (fase estática) e "super-homem" (fase dinâmica), e citado, de forma paradoxal, com um verso da Bíblia. 
  • Guimarães Rosa: Autor do livro Sagarana, classificado como "excelente" em “antifadorogerssilva@yahoo.com.br”. Seu conto "O espelho" também é citado por Jéferson e seu livro Primeiras estórias é mencionado como um livro que o protagonista do conto “Ensaio sobre a libertação total” ainda não tinha lido.


  • Sófocles: Autor da obra Édipo Rei, lida por Jéferson, que cita um verso dela. 
  • René Descartes, Rousseau, Kant, Auguste Comte: Mencionados entre os grandes filósofos para comparação com a Filosofia Libertadora, de Jéferson. 
  • Érico Veríssimo: Mencionado como o autor do livro Clarissa, classificado como "muito mais ou menos", por Rogers, o protagonista de “antifadorogerssilva@yahoo.com.br”. 
  • Rachel de Queiroz: Citada como a autora de O quinze, considerada uma obra "aceitável pra um autor estreante", também no conto “antifadorogerssilva@yahoo.com.br”. 
  • Clarice Lispector: Mencionado como a autora de Perto do coração selvagem, classificado como uma "ótima estreia". 
  • José Lins do Rego: Mencionado como o autor do livro Menino de engenho, classificado como "até bonzinho". 
  • Jorge Amado: Mencionado como o autor de O País do Carnaval, que "foi bem aceito, mas nem se compara ao meu", dito por Rogers por conta do seu primeiro romance publicado, Paraíso. Está em “antifadorogerssilva@yahoo.com.br”. 
  • Gabriel García Márquez: Autor do livro O outono do patriarca, de onde é retirada a epígrafe do conto “antifadorogerssilva@yahoo.com.br”. 
  • Luigi Pirandello, Jorge Luis Borges, Paul Auster: Autores cujas obras curtas Rogers Silva leu em busca de inspiração para o final do seu conto “antifadorogerssilva@yahoo.com.br”. 
  • Augustina Bessa-Luís: Autora de A sibila, citada no caderno de anotações de Rogers Silva. 
  • Ignácio de Loyola Brandão: Autor de O anônimo célebre, citado no caderno de anotações de Rogers Silva. 
  • Rogers Silva (eu mesmo): O livro Manicômio é achado por João, personagem do conto “Drummond no Orkut”. Rogers também é o tema central da história "A máquina-führer", onde é mencionado como o autor que criou o personagem Klaus Hoffman e, por consequência, seria considerado o "Grande Culpado" pela Segunda Guerra Mundial, o que o levaria ao suicídio. Rogers (eu mesmo) também é o protagonista de “antifadorogerssilva@yahoo.com.br”. 

Obras literárias lidas e discutidas em Ensaios sobre a total libertação:

 

  • Manicômio: O livro encontrado por João na praça, escrito por Rogers Silva (eu!). As narrativas do livro são lidas pelo personagem João. 
  • Paraíso: O primeiro romance publicado por Rogers Silva, escrito entre os dezesseis e dezessete anos e tema de discussão entre o autor e seu "perseguidor" em “antifadorogerssilva@yahoo.com.br”. 
  • O quinze: Livro de Rachel de Queiroz, comparado à obra de estreia de Rogers Silva. 
  • Perto do coração selvagem: Livro de Clarice Lispector, comparado à obra de estreia de Rogers Silva. 
  • Sagarana: Livro de Guimarães Rosa, comparado à obra de estreia de Rogers Silva. 
  • Menino de engenho: Livro de José Lins do Rego, comparado à obra de estreia de Rogers Silva. 
  • Clarissa: Livro de Érico Veríssimo, comparado à obra de estreia de Rogers Silva. 
  • O país do carnaval: Livro de Jorge Amado, comparado à obra de estreia de Rogers Silva. 
  • A lua vem da Ásia: Romance de Campos de Carvalho, analisado no projeto de mestrado, em paralelo com A rosa do povo, por um personagem que surge em “A máquina-führer”. 
  • A rosa do povo: Livro de poemas de Carlos Drummond de Andrade, analisado no projeto de mestrado. Aparece no mesmo conto. 
  • Visão 1944: Poema de A rosa do povo de Drummond, citado no projeto de mestrado. Aparece no mesmo conto. 
  • Édipo Rei: Obra de Sófocles, indicada por um amigo a Jéferson e lida por ele, que cita um verso. 
  • A um ausente: Poema de Carlos Drummond de Andrade transcrito no perfil do Orkut de Maria Angélica. 

Quer descobrir mais referências? Estão lá no Ensaios sobre a total libertação.

Rogers Silva é escritor e roteirista. Mineiro, nasceu e mora em Uberlândia, Minas Gerais. Publicou diversos contos em sites, revistas, jornais e coletâneas. É cofundador da Revista O Bule. É autor dos livros Manicômio (independente, 2012) e Ensaios sobre a total libertação (Editora Folheando, 2025) e dos curtas-metragens Estátuas sobre túmulos (2025) e Hoje eu pensei em você (2025). É papai da Clarissa e já plantou uma árvore. Atualmente se dedica ao cinema (roteiro e direção) e à escrita do seu primeiro romance. Possui um blog.

18 de jan. de 2026

‘Biqueira’, livro de poesia de Rafael Vaz

 

A Editora Merda na Mão anuncia, sem pedir licença: vem aí a SEGUNDA EDIÇÃO de BIQUEIRA, livro de poesia de Rafal Vaz, — e não é reedição burocrática, não. 

É OBRA NOVA DENTRO DA OBRA. 

Essa nova edição chega com poemas inéditos, textos que não estavam na primeira prensagem, ampliando o impacto, o corte e a sujeira necessária dessa poesia que nasce da rua, da tensão e do confronto. 

Biqueira volta mais afiada, mais viva e mais perigosa. 

Uma poesia que não pede lugar — toma. 

LANÇAMENTO AINDA EM JANEIRO DE 2026. 

Sim, é agora. É já. É no calor do mês. 

Esta edição conta com a colaboração de Lívia Batista, do Mova-se Projetos Culturais, assinando a diagramação a partir e dentro da estrutura criada por Fabio da Silva Barbosa na primeira edição, ampliando e tensionando o projeto gráfico original. 

Detalhe importante: nessa edição vão ter também algumas novas ilustrações de Rafael Vaz. 


A Merda na Mão segue firme no seu propósito:

👉 publicar os impublicáveis.

👉 ampliar vozes que escrevem da borda.

👉 transformar livro em artefato de resistência.

 

Fiquem atentos.

A biqueira vai reabrir — e vai ter coisa nova no balcão.

 

https://editoramerdanamao.blogspot.com/

🔥 BOMBA LITERÁRIA NAS RUAS 🔥

14 de jan. de 2026

E se a crítica literária também for fabricada? Malagueta #41

Por Allyne Fiorentino e Sinvaldo Júnior

De vez em quando alguns textos aparecem na mídia e causam um momentâneo rebuliço no mundo literário, como se de repente alguém metesse o dedo na água calma de um copo, girasse e depois saísse de cena. Vocês podem nos chamar de conspiracionistas, mas vamos arriscar esse palpite meio fora da curva e vocês poderão nos acompanhar nessa linha de pensamento e, quem sabe, chegar à conclusão de que não é tão absurdo assim.

O mercado é um grande narcisista e, como um representante legítimo de manipulação, ele precisa de um pequeno caos controlado de vez em quando para transformar aquilo que estava sendo esquecido na prateleira em um produto cheio de frescor, ou seja, movimentar vendas, tendências etc. Isso é mais velho que andar pra frente? Sim, marxistas sabem que o capitalismo prospera e precisa do caos desde que o velho barbudo apontou isso no século XIX, mas não é que essa arma ainda funciona perfeitamente? Quer uma prova?

Ano passado tivemos uma grande febre do açúcar por causa do morango do amor, lembram? De onde surgiu? Como hypou? Ninguém sabe precisar, mas a verdade é que do mesmo jeito que surgiu também se foi, pois as “febres mercadológicas” precisam ser aparentemente caóticas para dar uma sacudida no mercado, mas controláveis, porque depois precisamos voltar à ordem das ovelhas que não pensam. É aquilo que as mulheres conhecem como “migalhas de amor”: uma migalha aqui e ali pra dar uma emoção, gerar expectativa e aprofundar ainda mais o controle da vítima. Como dissemos, o mercado é um grande narcisista.

Também ano passado saiu um texto na Folha de S. Paulo, de autoria da professora Aurora Bernardini, que gerou bastante polêmica, pois dizia que certos autores famosos de hoje não poderiam ser considerados literatura. E este ano, novamente, a Folha solta agora um texto de outra professora, Dirce Waldrick do Amarante, em que ela opina que as listas de melhores livros são, na verdade, um “consenso fabricado”. Seria isso por acaso?    

Sabe o que há em comum entre Aurora e Dirce? É que ambas estão dizendo obviedades. E não, não estamos dizendo que o que elas estão dizendo é raso ou não faça sentido ou está incorreto; pelo contrário, “obviedades” no sentido de que qualquer um que estuda literatura ou que conhece teoria e história literária sabe.

Mas por que essas informações são encaradas hoje em dia como “extraordinárias”? Exatamente porque elas são direcionadas a um público que, embora amplo, possui características em comum: são leigos, teoricamente, de modo que se escandalizam com coisas óbvias e consomem produtos literários como verdadeiros fãs, e não como leitores. Será que leem o que defendem virtualmente? Eis outra questão que pode ser desenvolvida, quem sabe numa próxima malagueta.

O que essa verdade inconveniente significa? Significa que o mercado se aproveita da ignorância teórica (de conhecimento básico) dos leitores sobre determinado assunto para gerar falsas polêmicas que mobilizam novamente essa grande roda de consumo alienado (arriscamos a dizer que quem sai ganhando com isso são exatamente as grandes editoras que estão sendo criticadas, no caso das polêmicas do mundo literário).

Vamos de exemplo... Quando Aurora Bernardini levantou a questão de que best sellers não necessariamente são literatura e que autores hoje aclamados estão fora do padrão canônico daquilo que se considerava literatura de qualidade (sem querer entrar no mérito acadêmico aqui), isso implica em mais pessoas comprando esses livros mencionados para “comprovar” ou para “afrontar” a opinião da professora e pesquisadora: o mercado sabe mexer com o ego do público, que hoje, sabe-se, tem a tendência de afrontar os especialistas. A arrogância da ignorância está na moda, venha de onde vier.

Em seu texto, Aurora citou especificamente Itamar Vieira Júnior, premiado autor brasileiro. Quantos exemplares de Torto Arado, do referido escritor, foram vendidos depois disso? Quantos fãs do autor saíram em sua defesa e movimentaram as redes? Quantos fãs defenderam o autor, e não a sua literatura? Ou defenderam suas crenças (as crenças de uma tribo), mas não sua qualidade literária?

Então quer dizer que uma crítica certa lançada ao acaso e sem contexto profundo pode, por meio da polêmica, endossar ainda mais o objeto da crítica? E isso pode ser uma estratégia mercadológica? Sim, é exatamente o que estamos dizendo.

No caso do texto da professora Dirce Waldrick do Amarante, ela elenca algumas críticas já bastante desgastadas no meio literário, sem apontar nenhuma novidade: sobre as grandes editoras, sobre a visibilidade artística e sobre aquilo que nós nomeamos como “compadrio” ou “clube do brandy” (livros e autores que só sobrevivem graças às amizades) e que isso geram listas de melhores livros tendenciosos e sem critérios literários consistentes. Nada de novo sob o sol. 

Então, qual o objetivo dessa crítica? Qual o objetivo dessa crítica dentro de um grande jornal que por vezes ajudou a construir essa mesma visão mercadológica da literatura que finge atacar? Não questionamos o objetivo da autora, que não disse nenhuma inverdade - embora tenha preterido as evoluções de algumas editoras independentes, tenha deixado de lado aspectos importantíssimos sobre o comportamento dos leitores contemporâneos e, em certo momento do texto, forçou uma defesa periférica, derrapando em alguns argumentos, especialmente na parte de “eventos presenciais serem anacrônicos e inaceitáveis” por excluírem a periferia (forçou a barra pra lacrar! E sobre isso também desconfiamos...).

Percebem onde queremos chegar? Será isso uma teoria da conspiração inventada por nós? Não sabemos, mas veja um trecho do que dissemos em uma Malagueta (#37), publicada em 2021, ocasião em que Fernanda Montenegro entrou para a Academia Brasileira de Letras:

 “... escolhas baseadas em parâmetros obscuros e de compadrio sempre foram a regra. A regra é não ter uma regra clara. O que eu vejo é uma disputa de pequenos grupos que estão todos, sem exceção, interessados em manter o compadrio como meio de medir mérito. Seja no círculo dos consagrados, seja no círculo dos não consagrados, seja no círculo dos marginalizados. Todos têm seus “amigos”, mas nenhum deles está debruçado verdadeiramente sobre o texto, sobre a palavra na folha de papel, a palavra como ela chega a seu leitor. Fala-se muito em autores, mas pouquíssimo em literatura” (FIORENTINO, Allyne. ABL: muito barulho por nada. Revista O Bule, 13 nov. 2021.)

Então, indo um pouco além do que a professora Dirce menciona, concordamos com quase tudo que ela disse, mas entendemos, também, outros pontos de vista, como as possibilidades de publicação de autores e editoras independentes, que hoje criam uma segunda via de publicações fora das grandes editoras, coletivos e grupos que se mantêm resistentes a transformar a literatura em puro produto mercadológico (é o caso da Revista O Bule e de tantas outras revistas/editoras marginais), pessoas que se mantêm resistentes à ideia de que a literatura serve como pretexto e panfletagem para causas sociais de minorias, sem se importar com a qualidade e com a construção de linguagem (é o nosso caso, é o caso de muito gente que pode estar pensando a mesma coisa agora e não tem coragem de dizer porque tem medo de ser massacrado pelo dito politicamente correto). Nada disso foi mencionado. Estranho, não é mesmo? Ou será que foi proposital? Fica aí o questionamento.

Quem hoje teria coragem de dizer que uma obra que exalta algum aspecto de minoria é ruim? E olhe que, hoje em dia, há muitas, muitas, muitas obras literárias muito ruins. Você teria? Teria coragem de ir contra tudo e todos a partir de uma análise literária de verdade? O que sabemos é que, n'O Bule, a gente vive falando disso. E por isso continuamos aqui, menos para dar conclusões palatáveis que o público espera e mais para fazer o leitor pensar!

Sigam-nos nas nossas redes sociais:

Instagram e Facebook @revistaobule


Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais e reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia, com foco em Simbolismo brasileiro e hispano-americano. Atua em Tecnologia da Educação. Instagram: @allyne.fiorentino. 

Sinvaldo Júnior é professor, pesquisador acadêmico e revisor de textos. Possui graduação em Letras/Português, mestrado em Administração e doutorado em Estudos Literários. Atualmente cursa pós-doutorado, com pesquisa comparada entre literatura e cinema. Mora em Uberlândia/MG.