18 de mar. de 2026

‘Crisântemo’ e a roda viva da existência

Por Krishnamurti Góes dos Anjos 

O exercício da crítica literária, muitas vezes, perde-se em juízos puramente subjetivos. No entanto, ao analisar Crisântemo, obra de Gustavo Coelho e Sinvaldo Júnior, meu foco se desloca para o que realmente importa ao leitor: a construção do enredo, o ponto de vista narrativo e a eficácia da linguagem em traduzir o humano. 

Os escritores, ambos residentes em Uberlândia, Minas Gerais, resolveram unir seus talentos e deram vida a uma narrativa que, pela estrutura interna de ação mais sintética, linear e rápida, aproxima-a do gênero novela, aquele ponto intermediário entre o conto e o romance: 125 páginas, 26 capítulos curtos que trazem títulos de músicas de conhecidas bandas e cantores: The Tears, Legião Urbana, John Lennon, Frejat, Rolling Stones, Biquini Cavadão, entre tantas outras.

Tal recurso é um dos diferenciais mais marcantes de Crisântemo, ou seja, sua simbiose com a música. A narrativa é, assim, atrelada a uma trilha sonora que serve de guia emocional para as cenas. Contudo, esse expediente é também um ponto de debate. Com uma playlist composta majoritariamente por canções em inglês, a obra impõe um desafio extra ao leitor brasileiro. Embora exista um QR Code para facilitar o acesso às músicas, a barreira linguística pode, em certos momentos, interromper a fluidez da leitura para aqueles que buscam entender a conexão profunda entre a letra e o arco do personagem. 

Os autores sugerem, no enredo proposto, que as palavras impressas no papel despertem ouvidos menos sensíveis à importância da música na experiência humana. Sim. A música, essa eloquente linguagem do espírito humano que se externaliza por meio da matéria prima impalpável a que conhecemos como “som”. Sons agrupados ritmicamente, sabemos todos, possuem a capacidade de se comunicar com todos os aspectos do ser humano: o animal, o emocional, o intelectual e o espiritual. É arte capaz de, repentinamente, fazer com que nos desviemos de preocupações rotineiras e mergulhemos em imaginários que evocam pessoas amadas, sofrimentos, decepções, cenas do passado ou mesmo projetando scripts emocionais adequados a tal ou qual melodia que nos chega aos ouvidos. E assim é tecida a ficção propriamente dita que orbita em torno de um grupo de cinco jovens na casa de seus vinte e poucos anos, integrantes da banda Sagarana. 

A obra abre com uma sequência que pode ser definida como "alucinante". Através da corrida desesperada de Lucas, a narrativa estabelece, logo de cara, uma fidelidade visceral ao sentir juvenil. É o retrato do amor em sua forma mais crua e, por vezes, dolorosa — a famosa "dor de cotovelo" que, embora comum, é tratada aqui com uma urgência que prende o leitor. O texto consegue capturar com precisão as mazelas que um "fora" deixa na alma de quem ainda não alcançou a maturidade emocional. O capítulo que abre a narrativa surpreende o leitor pela situação limite exposta que causaria perplexidade a cultores do mais pesado heavy metal com suas sonoridades massivas e encorpadas, em timbres saturados e distorcidos de amplificadores, cordas graves de guitarra e atmosferas sombrias. 

Dois dos integrantes da Sagarana estão em um automóvel em altíssima velocidade. Lucas, o baterista da banda, dirige. Carlos tenta dissuadi-lo de continuar naquela velocidade absurda, naquele desespero causado (pasmem!) pelo rompimento com a namorada de inícios da adolescência que o desestrutura completamente. O diálogo que os dois travam é urgente, tenso, desesperador. Carlos antevê o desastre iminente. Suplica que Lucas pare o carro e argumenta tudo que consegue... Afinal, depois de muita argumentação, o carro para no acostamento. Carlos desce, mas o outro segue rumo a um suicídio que de fato se dá. 

No centro da trama está Carlos, um protagonista atropelado pela “roda furiosa da vida”. A urdidura da problemática existencial é bem construída, colocando o personagem em uma sequência de acontecimentos que parecem não dar trégua. É nesse ponto que a obra se torna densa: o leitor acompanha um jovem adulto mergulhado em um turbilhão de problemas tão urgentes que a própria reflexão parece ser um luxo ao qual ele não tem acesso. Para além da tristeza da morte do amigo, Carlos (o protagonista narrador) sente-se culpado por não ter impedido o acontecido. E inesperadamente surge outra sombra terrível ligada a Lucas. A maledicência de alguns insinua que o desespero de Lucas não se devia apenas ao término com a namorada, mas também a certo envolvimento com a namorada de Carlos, que se descobre na sequência estar grávida. De quem? A pergunta que não cala e contribui para somar luto com traição, resultando em ódio. 

Há certas vidas que parecem fadadas ao sofrimento. Assim é a de Carlos. A banda se dissolve. A ex-namorada Larissa afirma que o filho que espera é dele. Há, ainda, a desconfiança entre eles quanto à paternidade. Desesperado, Carlos parte para outro relacionamento e o que encontra pela frente é uma doidivanas dada a aventuras com quem quer e bem entende. Carlos não arruma emprego. Vive com a mãe depois que o pai caiu no mundo para nunca mais. A relação com a mãe entra pela via de desentendimentos, mágoas, palavras agressivas, e afinal acaba expulso de casa sem ter para onde ir... Até que mais um momento de extrema dor, desnorteio e funda perplexidade o atropela e o leva para a beira do abismo existencial:

 

“Lá fora, comecei a caminhar sem rumo, com os fatos se repetindo em minha mente. O suicídio. A morte. As brigas. O abandono. A traição. A expulsão. A morte. O suicídio. O ciclo se fechava. Comecei a entender: talvez a resposta fosse essa.

 

Parei na calçada, a uns dois quarteirões do prédio, a decisão se solidificando a cada segundo. Eu enfim compreendia. Não seria esse o único caminho para o fim do caos? O som de pneus cantando no asfalto me arrancou do transe. Um carro freou bruscamente ao meu lado.” 

Uma mão amiga lhe acena. Ponto crucial. Será ele capaz de descobrir que dentro de si mora uma versão mais forte e capaz de seguir em frente, ou afundará no oceano de traumas que marcaram tão dolorosamente sua existência para então, e afinal, descobrir outros horizontes, imprimir novos ritmos, novos acordes, outras melodias em sua vida? Vale a pena conferir o desfecho dessa sinfonia existencial. 

Se por um lado a "roda viva" de problemas mantém o ritmo acelerado, por outro, sente-se falta de uma exploração mais profunda dos traços psicológicos de Carlos em relação à sua arte. O ingrediente que daria ainda mais sabor à composição seria entender o verdadeiro sentimento que o protagonista nutre pela música — para além do caos externo, quem é o Carlos artista quando o silêncio finalmente impera? 

Crisântemo é uma narrativa bem construída, que não tem medo de expor as feridas abertas da juventude e as dificuldades da vida adulta. É um convite a olhar para as nossas próprias cicatrizes, embalado por acordes que, se nem sempre compreendidos de imediato, ressoam a urgência de quem precisa sobreviver ao peso do mundo.


Mais informações sobre o lançamento do livro AQUI


Krishnamurti Góes dos Anjos
é baiano de Salvador. Escritor, pesquisador e crítico literário, é autor, entre outros, de O Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Embriagado Intelecto e outros contos, À flor da pele (contos) e Destinos que se cruzam (romance). Possui textos publicados em revistas no Brasil, Portugal, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. O Touro do rebanho (Editora Chiado, romance histórico) obteve o primeiro lugar no Prêmio José de Alencar (UBE/RJ) em 2014. Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira contemporânea, colaborando em diversos jornais, revistas e sites literários.

14 de mar. de 2026

Nós

 

Por Milton Rezende 
 
Somos apenas alguns
e o mundo todo pesa
sobre nós o seu peso
de mundo que machuca.
 
Somos apenas alguns
que transitam em meio
aos destroços de nós
e ao redor dos sonhos.
 
Somos apenas alguns
que dividem o silêncio
de cada exílio para que
em nós algo se restaure.
 
Somos apenas alguns
e o resultado de nós
nessa sequência de buscas
é ainda o que não achamos.
 
Somos apenas alguns
e esperamos que o dia
esclareça luzes sobre
o nosso absurdo de nós.
 
Somos apenas alguns
que não sabem o que fazer
de nós e da vida que temos
e que precisam de ajuda.
 
Somos apenas alguns
ao redor de uma mesa
ou de um pensamento
e nos amamos com receio.


Do livro Areia (À fragmentação da Pedra).


Milton Rezende, poeta e escritor, nasceu em Ervália (MG), em 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF, depois morou e trabalhou em Varginha (MG). Funcionário público aposentado, morou em Campinas (SP), Ervália (MG) e retornou a Campinas (SP). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de quinze livros publicados e quatro e-books. Tem um site e um blog. 

Fortuna crítica: “Tempo de Poesia: Intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende”, de Maria José Rezende Campos (Penalux, 2015).

11 de mar. de 2026

Um encontro entre a música e a literatura em Uberlândia...

Como lidar com as ausências que a vida nos impõe? Gustavo Coelho e Sinvaldo Júnior transformaram a dor em beleza e o luto em uma jornada de superação no livro Crisântemo. 

Queremos convidar você para estar conosco no lançamento oficial desta obra. Será um momento especial para conversarmos sobre como a arte e a música podem ser ferramentas poderosas de reconstrução pessoal. 

📍 Local: Sala de eventos da Biblioteca Municipal de Uberlândia (Praça Jacy de Assis, s/n – Centro)

🗓️ Data: 20 de março

Hora: 18h30 

* Anote na sua agenda!

Sua presença tornará essa noite ainda mais significativa. Apareça para um abraço e para garantir o seu exemplar autografado!

9 de mar. de 2026

Sobre ‘Todos os cantos de Eros’, de Anna Kroiss

 

Por Krishnamurti Góes dos Anjos 

A leitura de “Todos os cantos de Eros” (contos), livro de estreia da escritora paulista Anna Kroiss, nos faz lembrar, em boa medida, de uma citação do escritor norte-americano Nathaniel Hawthorne (1804-1964): "Benditas são as emoções simples, sejam elas vivas ou sombrias! É a mistura lúgubre de ambas que produz a explosão das regiões infernais." Como se vê, Hawthorne celebra a intensidade das emoções humanas, sejam elas alegres (vivas) ou tristes (sombrias), valoriza tanto a felicidade quanto a tristeza genuínas, sem disfarces ou complicações, mas também alerta que a mistura dessas emoções, especialmente com a preponderância da "lúgubre" (sombria, fúnebre, macabra) sobre a "viva", gera uma força destrutiva, uma "explosão", o que remete à complexidade da alma humana. O perigo reside na combinação dessas emoções em atrito, gerando conflitos internos intensos, paixões avassaladoras ou até mesmo a autodestruição. 

Os 11 contos reunidos no volume apresentam personagens e situações existenciais aflitivas nas quais se evidencia a profundidade psicológica da humanidade e suas interfaces com o desejo, a passagem do tempo, a finitude da vida, dentro de enfoques que envolvem moralidade, culpa, solidão e pecado, explorando não somente regiões obscuras, mas também as belezas da psique humana. Aproximemos mais a lupa... 

“Todos os cantos de Eros” traz já no seu título o substantivo próprio que nomeia o deus grego do amor e do desejo, associado pelo senso comum ao amor apaixonado, com desejo e atração sensual, vulgarmente conhecido, em nosso mundo super hedonista, simplesmente como “tesão”, ou seja, forte desejo ou excitação sexual. Mas nem todos fazem tal ligação simplista, vulgar e obscena com o deus grego que os romanos conheciam como Cupido. 

Tal personagem vem sendo estudado desde a filosofia (lá de Platão, uns quatrocentos anos A.C.) até a psicologia de Sigmund Freud (1856-1939) e Carl Gustav Jung (1875-1961). E o mito foi, aos poucos, transformando seu caráter. Aquele serzinho inescrupuloso munido de arco e flecha a alvejar corações incautos, ganhou afinal outros atributos mais condizentes com a razão, se é que podemos falar em razão nessa seara do sentimento humano. Algo mais compreensível, digamos. Eros, à luz da psicanálise, atualmente é entendido como um sentido de energia vital em geral, integradora da psique. Constitui-se, em última análise, num desejo de totalidade e, embora possa inicialmente assumir a forma de amor apaixonado, é mais verdadeiramente um desejo de "parentesco psíquico", um desejo de interconexão e interação com outros seres sencientes (que percebem pelos sentidos). Não é mais e exclusivamente o desejo sexual, mas nossa força vital, a vontade de viver e de amar. Desejo de criar vida e favorecer a produtividade e a construção. 

Freud avança inclusive um pouco mais, afirmando que o propósito de Eros é reunir indivíduos isolados em uma única grande unidade, a humanidade. Para isso, os homens devem estar libidinalmente ligados entre si, ainda que a natural agressividade do homem, representante de sua pulsão de morte, se oponha a esse programa da civilização. Eros corresponde à pulsão de vida e divide o domínio do mundo com Thanatos, representante da pulsão de morte. E é na tensão entre ambas as pulsões que se constitui a espécie humana, cujo principal objetivo é encontrar a felicidade. Na busca da satisfação desse objetivo, podemos ter esperança de nos libertar de pelo menos uma parte de nossos sofrimentos, agindo sobre nossas pulsões. Nesse processo estão os deslocamentos de libido reorientando os objetivos pulsionais de tal forma que evitem a frustração do mundo externo com a participação de um processo de sublimação. 

No discurso literário proposto por Anna Kroiss residem preciosidades que, ao buscarem expressão, encontram seu caminho feito de brechas por metáforas ou, então, seguem vias que deslizam por metonímias, exibindo significantes que  constituem rotas sem um fim previsível. A literatura de Kroiss é marcada por uma linguagem minimalista, às vezes repetitiva, que reduz a trama ao mínimo, e foca no ritmo, e em calculadas pausas que exploram o indizível e a psique humana com intimidade e profundidade psicológica, criando atmosferas ora oníricas, ora existenciais e melancólicas, mesclada com fluxos narrativos que brincam com o tempo, dando voz ao inconsciente e a sentimentos como solidão e angústia. 

No conto que abre o volume, “O casamento de Isabel” (esse texto traz logo abaixo do título apenas um indicativo sociológico muito claro. A datação de 1923. Data em que se passa a narrativa), a família de Isabel arranja-lhe um casamento com um rapaz tido e havido como bom moço, excelente criação, boa família, etc. A mocinha dele só conhece de “ouvir dizer” e de duas fotos, em uma das quais o sujeito é fotografado em um baile de carnaval usando uma máscara que lhe encobria metade do rosto. “Uma máscara mostrando um nariz comprido e pontudo, como dos personagens maliciosos do teatro.” Durante o curto namoro/noivado Isabel tem lá uma oportunidade de estar a sós com o pretendente — e observe-se o poder de sugestão da autora, impresso em apenas 4 frases curtas:

 

Era o olhar de algo que Isabel ainda não conhecia.

Não era bom.

Não era para o bem.

Foi embora junto do irmão. 

Essas curtas frases dão ao leitor a percepção, com uma ponta de calafrio, que a violência e amargura iriam descer ali. O ocorrido acima, ante os preparativos e expectativas sonhadoras do casamento próximo, acabou sendo relegado a um mero mal-entendido e finalmente ao esquecimento, até que se deu o casamento. A noite de núpcias foi de completa desgraça onde prevaleceu a monstruosidade da tara machista que nada tem de amor. 

A este conto, segue-se outro de urdidura exemplar, “Ele vinha pelo corredor” (também com datação de 1975 e localização em Oklahoma). Temos aí um foco narrativo que se volta para a morte acidental de um homem por afogamento em um lago. A jovem viúva padece de uma indizível tristeza, uma melancolia pungente que por uns dias provocam insônia, choros, gritos. Mas o tempo passa inexorável, a dor imensa da perda se arrefece um pouco, mas não se conforma, até que um dia... Eis que ele aparece na calada da noite para estar ali “naquela cama ao seu lado, a acordando com beijos”. 

Estamos diante de uma narrativa que convoca o fantástico em suas oscilações entre o racional e o sobrenatural, impondo ao leitor uma hesitação entre o real e o irreal, sendo o limiar entre esses dois mundos o ponto central da narrativa. (À propósito do fantástico e do maravilhoso, nessa autora, o leitor deve ler com redobrada atenção os contos “Um pássaro” e “O cordeiro honesto”, que não comentaremos aqui por razões óbvias de espaço que comporta uma resenha). Em “Ele vinha pelo corredor”, lemos a agonia pungente e dilacerante da solidão daquela mulher amorosa e sua terminante recusa na aceitação da morte, essa condição de nosso existir e que nos remete ao desamparo e a um tal confronto com a finitude da vida que certas mentes não a aceitam a um ponto tal de engendrarem delírios que definitivamente atiram-na à mais franca loucura. 

Anna Kroiss mostra fazer parte daquela rara galeria de escritores que criam com o que resta, aproximam-se do traumático, confrontam-se com as pulsões, tangenciam limites e buscam forjar novos sentidos com as palavras e os afetos. 

 É no ambíguo chiaroscuro da natureza humana que vamos encontrar ainda, na sequência, o conto “Vestidinho rosa - O anjinho”. A narrativa passa-se dentro de uma escola de segundo grau da classe média. Uma casualidade faz o porteiro da escola, homem de meia idade e de aparência repulsiva, a se interessar por uma certa adolescente loirinha e de olhos verdes, aluna da escola, que o encanta profundamente. Ela, depois de algum tempo, nota o interesse do homem e toma uma atitude que não passaria na cabeça de ninguém. Deliberadamente marca um encontro à noite, nos fundos do colégio. O que ninguém poderia supor é que a aluna fosse uma completa devassa que se atira a aventuras sexuais quando bem lhe dá na telha. O diálogo inicial que travam é nesses termos:

 

— O que você quer comigo?

T. perguntava mostrando não se importar, quase como quem debocha.

O homem não tinha o que responder.

— É me comer que você quer? Porque eu não costumo dar pra velhos; já saí com alguns, mas em troca de alguma coisa, e penso que você não deve ter condição para isso.

E ria.

Ele franziu o cenho e ainda não sabia o que responder.

— Mas eu deixo você me tocar. Você quer?

Nada.

T. pegou aquela mão que já possuía rugas demais e botou no meio de suas pernas lisas e brancas.      

Este foi o início de uma tórrida relação entre os dois, no qual a única intenção da bela garota devassa era ancorada firmemente em imenso desejo de domínio, de posse sobre o outro, nada mais. No entanto, nem ela mesma poderia também imaginar que aquela relação promíscua de mero desejo sexual desenfreado pudesse fazer irromper dentro de si mesma uma outra relação de dependência física, uma fixação tal naquele homem que a deixaria completamente desnorteada. Acabou por ser tomada por um estado de carência afetiva imensa, guiada por intuições e fatalismos cegos, minada por legados atávicos, sobretudo em relação ao sexo. — “mas lá, naquele jardim só deles, essa relação de submissão era como estar no paraíso dos corrompidos”. Quem poderá decifrar as ciladas de Eros? Foi o que se deu e quase degenera em desastre tremendo. 

Esses três primeiros textos e os oito que se seguem são belos exemplos de como fazer literatura com espontaneidade, com simplicidade, sem lances teatrais, sem laboratórios, num estilo de extrema simplicidade, sempre direto e claríssimo. Mais subjetividade do que objetividade nos fins a atingir; elementos psicológicos e sociológicos entrosados, aparecendo mais por sugestão do que por afirmação. A autora mostra-se hábil em casar linguagem inventiva de modo a obter determinados efeitos. É, acima de tudo, a ficcionista, ou seja, ela não sonega o núcleo ficcional, que escamoteia no início de suas ficções para, ao final, criar o efeito de terror, mistério, solidão, abandono — ou que outro final pretenda sugerir. 

Finalmente; Anna Kroiss parece também concordar com uma Katherine Mansfield (1888-1923), grande contista neozelandesa pouco lida no Brasil, que certa feita afirmou: “Não vejo nenhuma possibilidade de salvação se não aprendermos a viver também com nossas emoções e nossos instintos, conservando-os em equilíbrio”. Kroiss surge no cenário literário brasileiro como autora que se esforça em  multiplicar testemunhos ficcionais a atestarem o esforço da criação e o talento da criadora. Em lúcida busca pelas emoções particulares de suas criaturas, não recorre a maniqueísmos, não edifica no vazio, mas encontra material que expõe direta ou indiretamente, ao levantar conflitos, agitar problemas, captar situações existenciais. Falam por si mesmas suas criaturas. Por tais motivos é autora para quem devemos estar muito atentos. Razões suficientes pelas quais aguardamos com vívido interesse por novas produções suas.


Ficha técnica:
Todos os cantos de Eros
Contos de Anna Kroiss
Editora Patuá – São Paulo/SP
2025
104 p.
ISBN 978-65-281-0281-5
 

Links para compra e pronto envio:

Editora Patuá

No site da autora 

 

Krishnamurti Góes dos Anjos é baiano de Salvador. Escritor, pesquisador e crítico literário, é autor, entre outros, de O Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Embriagado Intelecto e outros contos, À flor da pele (contos) e Destinos que se cruzam (romance). Possui textos publicados em revistas no Brasil, Portugal, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. O Touro do rebanho (Editora Chiado, romance histórico) obteve o primeiro lugar no Prêmio José de Alencar (UBE/RJ) em 2014. Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira contemporânea, colaborando em diversos jornais, revistas e sites literários.

8 de mar. de 2026

Um trecho de 'Crisântemo' - Ao som de rock


Por Gustavo Coelho e Sinvaldo Júnior 

“Olhei para cima. O céu estava espetacular, um negrume profundo pilhado de estrelas, como só acontece longe das luzes da cidade. A Via Láctea se estendia como pinceladas de giz divino. Mas a beleza que deslumbrava também colocava tudo em perspectiva, e uma tristeza profunda bateu forte, mas por causa dele, de Lucas, que estava quebrado demais para conseguir apreciar uma noite como aquela. 

Nesse instante de paz, uma ruptura: bem longe, atrás de um monte, ao fixar minha vista em um ponto qualquer daquela escuridão, eu ouvi uma cascata de sons que fez o meu chão tremer, o grito longo e áspero do aço se dobrando sobre si mesmo e o estalo final de mil fragmentos de vidro. E então, o silêncio. Um silêncio absoluto, pesado.


 

Gelei. Meu corpo, uma estátua de pavor. Um pneu? Um animal na pista? Minha mente tentava, desesperadamente, encontrar uma explicação lógica, uma resposta que não fosse aquela. Mas era inútil. 

A cena inteira dos últimos minutos se rebobinou em minha cabeça. O sorriso triste, a voz calma, o abraço apertado demais. “A gente se tromba lá em cima, no meio das estrelas...” A risada seca. “Até a próxima, viajante estelar.” Não foi uma piada, mas sim um presságio. O toque de punho não foi um cumprimento. Foi uma despedida. 

E então, um som mais alto veio me assombrar, algo de dentro da minha cabeça. As minhas palavras... “Vai pra casa agora. Só... apaga. Desliga do mundo.” Um frio percorreu minha espinha, tão violento que minhas pernas bambearam por um instante. Aquelas palavras. Minhas. Eu as disse. Eu lhe dei a ideia? Eu que lhe dei a solução? O que eu quis dizer – um conselho para que ele descansasse – foi o que a mente de um homem no fundo do poço ouviu? Não, não foi um conselho. Foi a porra de uma instrução. 

A verdade não se encaixou como uma peça de quebra-cabeça. Ela explodiu dentro de mim. Meu amigo não tinha superado. Ele não se acalmou. Apenas cumpriu a sua palavra, e com o meu aval. Ensaiou comigo e me deixou sair do carro para terminar, sozinho, o seu show. 

Ali, parado na escuridão, sob o mesmo céu que pouco antes me parecia tão belo, senti o chão desaparecer. Eu não conseguia gritar. Não conseguia me mover. Só conseguia mirar a estrada, uma curva escura no nada, onde a noite, sob o olhar indiferente de um milhão de estrelas, havia acabado de engolir o meu melhor amigo.” 

 

In: Crisântemo. Gustavo Coelho e Sinvaldo Júnior. Uberlândia: Cápsula Editora, 2025. pp. 13-14.

7 de mar. de 2026

Lívia Batista traz poesia às diagramações da Editora Merda na Mão

 

A múltipla artista e produtora cultural Lívia Batista — parceira e namorada de Diego El Khouri, o outsider da galáxia de Parnaso e um dos criadores da Editora Merda na Mão — colabora desde o final de 2025 com as diagramações da editora, somando poesia, sensibilidade e densidade às publicações. Em 2026, essa troca se intensifica e se aprofunda. É uma satisfação imensa ter uma artista tão dedicada, forte e talentosa caminhando junto com a Editora Merda na Mão, ocupando e tensionando este espaço lisérgico punk e indomável.

Criada em 12 de abril de 2020 por Fabio da Silva Barbosa e Diego El Khouri, a Editora Merda na Mão é uma editora independente dedicada a publicar os impublicáveis. Com quase seis anos de atuação e cerca de 60 títulos lançados, publica livros, zines, HQs e poesia sem cobrar dos autores, operando fora do mercado editorial tradicional, com estética subversiva e espírito underground. A atuação se expande em distro, eventos, feiras culturais e no selo musical Ruídos Absurdos, voltado à cena noise, hardcore e experimental. 

Além da atuação editorial, Lívia Batista é idealizadora e diretora artística do D’Olhar – Festival Itinerante de Dança e Vídeo, dedicado à videodança e ao encontro entre corpo e audiovisual, ampliando circulação, formação e acesso a essa linguagem no Brasil.


Coração enrolado em arame farpado & outras tretas rolando, de Gutemberg F. Loki, é o primeiro livro diagramado pela Lívia e já está disponível: 

Para adquirir essa obra poética, acesse: https://loja.uiclap.com/titulo/ua140101/

6 de mar. de 2026

Dois poemas de Allyne Fiorentino

 



Iluminações 

Aos “sentinelas de espíritos e estradas” (A. dos Anjos) 

Move-se a língua úmida da vida em sussurro e lume

mas não há ouvido humano capaz de ouvir

 o destino

 

Iluminações queimam a retina

enquanto os inaudíveis hálitos pesados continuam a falar

na língua feérica das serpentes

— por trás dos meus olhos há desenhos incompreensíveis 

à língua dos homens

 

Ribomba trovoada quando a sua palma toca a minha

nossos pactos milicentesimais funcionam no silêncio.


Se te chamo “pai” – como me pede –

é porque já existem galhos iluminados atrás dos meus olhos

relâmpagos na escuridão do corpo.

 

Cinco falanges que se encontram e

dez anos se passam voando

como que contados nos dedos de duas mãos


Um flash de luz e agora seu céu é azul.

 

Com a mão direita,

eu fecho seus olhos,

meio verdes, meio azuis.

Agora,

para sempre.

 

Só há tatuagens quando o fogo se esvai.

 

O olho esquerdo é obediente.

Ficou o olho direito, então, aberto.

Azul-esverdeado.

Fulminante.

Ficou assim, meio a meio.

Yin e yang estáticos como um último símbolo do nosso pacto.

 

Nós dois

meio desconfiados da vida

meio desconfiados da morte

na dualidade típica de

quem anda pelo vale da sombra da morte

[e não teme.

 

Quem pisa na escuridão não tem delicadeza na língua

sabe que tempo é relâmpago

corta as finezas

as palavras são trovões

Mas repara nos seus galhos de luz:

são traços finos, delicadamente desenhados

com a mão direita de Deus.

 

“continue sendo como você é”

foi a última mensagem

foi a primeira mensagem 

 

E se apagou.

 

 

De alma

 

Pode ser cedo para o amanhã

mas os pássaros já sobrevoam a cabeça dos mansos

herdeiros da Terra

levantam os olhos ao firmamento

 

a palavra do destino vem de outros céus

ainda como uma asa.

 

Fecho meus olhos para ver melhor:

a felicidade é branca

 

inscreve-se em sal e água

nos pequeninos mundos que exalam

de nossos corpos nus

 

sempre nus

 

São milhões de pequenas águas-vivas

bioluminescentes

cintilando através desse espelho de voal

 

um portal

para os francos desertos

que beberam da boca seca

das mulheres, esse oceano

É uma leitura “almática” - você diz

no seu próprio latim

buscando as palavras que nunca ouvira

como soldado de guerra

 

um códice para além das armas

para além das almas -

anímica.

 

Perto do mar

quando envoltos em névoa turva

nos encontramos

corrias como um Nostradamus menino

os pés livres, avançando sobre a areia reluzente

ainda inocente de todos os vaticínios

 

Lembro-me da cicatriz da montanha,

onde nos encontramos nas escadarias

era noite

e ali demos novamente as mãos

para amarmos as línguas antigas

que atravessam séculos e pousam

sobre a pele de indigentes, em tatuagens vulgares

– a vida ali era âmbar.

 

Mas todas as vidas engendram-se

nos cachos dos teus cabelos

nessas voltas negras que revivem

as estrelas extintas de outros universos

 

Agora que não é mais menino e já sabe demais

seu olhar bruscamente se ilumina:

são eles também

milhões de pequenas águas-vivas

lascivas, nesse santuário abissal

esse portal, de fúria e calmaria.

 

Também meus olhos

incompreensíveis aos humanos

fixos no céu

fitam um pássaro negro

rasga o horizonte com a delicadeza de uma pena

                                                                          o amor.


Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais, mas reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia. Atua, atualmente, em Tecnologia da Educação. Apaixonada por Literatura Feminina, Simbolismo, Filosofia e excentricidades. Low profile do mundo literário, escreve pouco, mas, acredite, incisivamente. Está também em Crônica do Dia. Instagram: @fiorentinoallyne.