Por Krishnamurti Góes dos Anjos
O leitor que tiver a oportunidade de ler o volume de poesias
Arqueologia da luz, da escritora mineira Mell Renault, publicado pela Editora
Patuá (2025), sem dúvida desfrutará de literatura da mais alta qualidade. Em meio à
imensa profusão de títulos que se publica no país atualmente, a obra de Mell Renault merece destaque, porque não se detém aprisionada por esse
verdadeiro sequestro da literatura nas tantas e infindáveis bandeirinhas
identitárias, ou por um lirismo de trivialidades amorosas egocêntrico.
A obra em evidência apresenta a experiência humana sob um
prisma cósmico totalizante ao convergir em sua poética o sentimento e o
conhecimento simultâneo da perfeição e da harmonia do cosmos, lembrando-nos a
frase de Fernando Pessoa: uma “poesia que pensa sentindo e que sente pensando”.
Poesia universalista, acrescentamos.
O filósofo e professor alemão, Martin Heidegger (1889-1976), nos alertou que o pensar deve estar liberto da interpretação técnica e instrumental que o reduz a uma atividade prática ou produtiva. A linguagem é a "morada do ser", e o pensar é a via para resgatar a experiência fundamental da verdade do Ser, o que não se alcança pela racionalidade instrumental ou científica. E é justamente por ser a linguagem a “casa do ser”, que a linguagem poética tem a capacidade de conferir sentidos mais amplos ao humano.
Não percamos de vista ainda que o
mesmo Heidegger
adverte quanto à necessidade da superação radical do humanismo
tradicional e da metafísica ocidental, que reduziram a essência humana a uma
substância ou a um valor genérico submetidos a uma concepção, que esquece a
questão fundamental do Ser. Aquele humanismo tradicional definiu o homem (ou a
essência humana) a partir de noções como "animal racional" ou
"substância", o que é insuficiente e redutor.
A poética que aflora de Arqueologia da luz é tão
espontânea quanto a natureza em todas as suas manifestações metamórficas,
transmutáveis, híbridas. Por este viés de simbolização da natureza,
como matriz de pensamento, de criação estética e de posicionamento no mundo, que
a linguagem se revela para que, aliada ao que nos circunda, encontremos novos
caminhos. O pulsar da vida é o que
interessa, sem discriminações de espécie. Eis a tradução do mundo que a poeta revela para além das
aparências. Um posicionamento rizomático da palavra, diríamos, entendendo
por rizomático certa abordagem que reflete a estrutura de um rizoma (de uma
planta), caracterizada por crescimento descentralizado, conexões múltiplas e
não hierárquicas.
Em cada poema de Arqueologia da luz o leitor deleita-se com a fluidez, o movimento, o devir e a diversidade, palavras associáveis à natureza, em uma abertura ao imenso que nos circunda, deixando absolutamente patente a necessidade da integração do homem ao meio que lhe confere vida, e não o contrário, como absurdamente alguns de nós pensam.
Nesse paralelismo poético
entre escrita e natureza, as palavras saem da imobilidade, disponibilizam-se a
novos sentidos, transfigurações, laços. Aí a “liberdade de consciência”
encontra o “dom poético” da autora, ou, por outras palavras, a ética e a
estética unem-se na concepção de uma poética cujas origens remontam aos mais
ínfimos detalhes da existência que se inscrevem na ordem do devir, num fluxo
permanente, no movimento ininterrupto e atuante, como uma lei geral do
universo, que dissolve, cria e transforma todas as realidades existentes.
O leitor sentirá vigoroso
estímulo ao fim da cisão entre o humano e a natureza. Sobretudo quando o nosso
dia a dia já nos mostra que esse distanciamento tem implicado alheamento
(catastrófico) das consequências resultantes da ação humana no meio ambiente. O
cerne da mensagem que o livro traduz é quase extra-humana (e não
necessariamente mística, religiosa ou ecológica, palavras que até aqui, nesta
curva da evolução, estão contaminadas por discursos simplistas e
antropocêntricos). A lembrança e valoração da existência humana
dentro dos tão amplos e variados elementos dos reinos mineral, vegetal e animal
propõe marcante reorientação dos nossos valores.
Os poemas reunidos em Arqueologia da luz, pela densidade das imagens evocadas nos ciclos indomáveis
da linguagem e da natureza, convidam o leitor a refletir sobre a unidade da
vida que irmana de todos os seres. Do mineral ao humano, com trocas e
interdependências impostas por uma lei comum que não é mais possível negar. O
notório esforço poético empreendido pela autora incita-nos a sentir este liame
de amor para com todas as outras formas de vida, porque tudo, desde o fenômeno
químico ao fenômeno social, não é mais do que vida impregnada por um princípio
espiritual.
Na luz que nos chega do sol se operam as primeiras transformações físico-dinâmicas nas quais a matéria se dissolve em radiações. As plantas apropriam-se da energia solar e dela se alimentam para os fins da vida, que se dissemina e cresce sem cessar. Compostos químicos se ajustam em fórmulas cada vez mais complexas e acumulam a energia solar, transmutando-a em compostos de estrutura química mais elevada.
O animal, por sua vez, se por um lado destrói grandes quantidades de material orgânico fornecido pelas plantas, por outro reconstrói em qualidade aquilo que destruiu em quantidade, executando novas operações químicas e fabricando materiais ainda mais complexos, de uma complexidade progressiva, que é expressão e meio de formação de um rudimentar, mas progressivo psiquismo íntimo.
Tudo
representa divisão de trabalho, especialização de funções, transformação por
contínuos e infinitesimais deslocamentos progressivos. Só no animal começa
verdadeiramente a função específica da constituição daquele psiquismo que irá
se tornando cada vez mais complexo, à medida que ascende nos fenômenos vitais.
Então, chegamos ao humano, com a
derradeira transformação e acréscimo das funções psíquica e espiritual.
Temos aí traçada a linha que, por meio das espécies físicas, dinâmicas e
psíquicas, conjuga a matéria ao pensar/sentir. Eis onde culmina, depois de
tantas transformações, a energia das radiações solares. “Toda luz tem como
nascente o amor” (p. 90).
A “máquina” mais
complexa e delicada que a evolução produziu no planeta Terra é a nossa psique.
Em nossos órgãos sensórios, opera-se continuadamente a elevação das vibrações
ambientes em vibrações de ordem superior. Pela audição, o som se torna música;
a visão transforma a luz em beleza; por meio dos sentidos e no embate das
forças ambientes constrói-se o instinto e a consciência. O poderoso mecanismo
da vida transforma a energia, de suas formas inferiores até as mais altas
formas nervosas de sensação, sentimento e pensamento, para o desabrochar da
vida tornado realidade por meio das radiações solares que, com o concurso da
universalidade de elementos da existência, chega à florescência da consciência.
“O amor é essa presença sutil, percebe”
( p. 120).
O grande rio da energia, que fora matéria, transforma-se no imenso mar da vida, que muda em consciência para finalmente se sentir e se observar a si mesmo. A gravíssima crise psicológica que a humanidade hoje atravessa requer, e impõe impreterivelmente, uma nova consciência. É assim que a ‘Luz’ do título dessa obra seguirá luzindo cada vez mais intensa, como evoca o poema abaixo (p. 74):
“fazer
da luz
esse
talismã bem perto do corpo,
assim
como o amor,
trazê-lo rente a pele.”
Mell Renault harmoniza versos de uma poética tão
simples e imprescindível como uma pétala de flor, a nos lembrar que o amor é a mais potente das
força cósmicas, a energia psíquica primordial. Como o sangue de evolução
espiritual.
Em tempo, porque me deu na telha acrescentar: Aqueles que quiserem perceber tudo isto que acabei de escrever encontram melhor tradução em vários poemas. O da página 85 resume, numa lufada de vento, todas essas palavras que penosa e sofrivelmente verti nesta resenha. Pronto, falei!
Krishnamurti Góes dos Anjos é baiano de Salvador. Escritor, pesquisador e crítico literário, é autor, entre outros, de O Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Embriagado Intelecto e outros contos, À flor da pele (contos) e Destinos que se cruzam (romance). Possui textos publicados em revistas no Brasil, Portugal, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. O Touro do rebanho (Editora Chiado, romance histórico) obteve o primeiro lugar no Prêmio José de Alencar (UBE/RJ) em 2014. Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira contemporânea, colaborando em diversos jornais, revistas e sites literários.




