12 de fev. de 2026

Sem artigo, só achismo! #1 - Uma imersão em “Lamentos da Alvorada Renegada”, de Bruno Ricetti

Sem artigo, só achismo” é uma seção da Revista O Bule que valoriza a voz espontânea dos leitores! Sem análises técnicas e acadêmicas, aqui leitores vorazes e experientes emitem suas impressões, sensações e dão a opinião sincera sobre os livros que leram.

Para estrear nesta seção, a leitora Drielly Passos nos apresenta sua opinião e sua jornada de leitura do livro “Lamentos da Alvorada Renegada”, uma obra brasileira de fantasia em dois volumes.

Lamentos da Alvorada Renegada
Autor: Bruno Ricetti
País: Brasil
Disponível em: epub e impresso
Volume 1: 470 páginas.
Volume 2: 790 páginas

 Volume 1 - O despertar da Luz


Nunca imaginei que pudesse devorar quase 800 páginas de fantasia em menos de uma semana. “Lamentos da Alvorada Renegada” trata- se de uma obra de fantasia, que mistura mitologia e filosofia em uma intensidade que faz sentir cada emoção pulsando em você. Chorei, fiquei com raiva, me emocionei, fiquei tensa, confusa… tudo ao mesmo tempo!

O livro não entrega apenas aventuras, mas explora perdas, escolhas, amadurecimento forçado e a força do coletivo. A trama acompanha jovens que vivem em uma segurança ilusória até que o chamado do Lume vira tudo do avesso. Esses jovens são os “Arautos”, e não são apenas jovens “escolhidos” por destino, são adolescentes atravessados pelo caos da vida, moldados pela dor e pelo amor, aprendendo que o poder (os Lamentos) vem junto com responsabilidade e cicatrizes.

A ambientação dos espaços de Auren e Korvas, as descrições do amanhecer e do cotidiano, não são meros cenários: elas refletem estados emocionais, antecipam o luto, a dor, a tensão que está por vir.

“Os campos de Eldren, nos confins ocidentais de Auren, brilhavam sob um sol que ainda não conhecia traição. Colinas verdejantes salpicadas de flores amarelas eram cortadas por riachos que gorgolejavam contra pedras lisas, polidas pelo tempo. O céu era um manto azul-claro, manchado apenas por fiapos de nuvens que deslizavam lentas, e o ar trazia o perfume doce da erva recém-cortada, misturado ao cheiro terroso das lavouras que cercavam a vila.

Era uma terra generosa, onde o trigo crescia alto e os pomares carregavam frutas tão pesadas que os galhos se curvavam até o chão. Mas mesmo ali, entre os montes que se erguiam suaves ao longe, o vento carregava sussurros, um murmúrio baixo, quase um aviso, que roçava as folhas das faias e se perdia no zumbido das abelhas”.

O chamado da personagem Aerie é sutil e profundo; não é heroísmo por escolha, mas um destino chamando, e sentimos isso junto com ela a cada frase. Cada batalha, cada lamento e cada perda reforça que a luta é interna e externa, e que o amor, a música e a memória são armas tão poderosas quanto qualquer espada.

O que mais me marcou foi como a história consegue ser brutal e bela ao mesmo tempo. A dor, a morte, a injustiça, mas também a música, a luz e a esperança tímida, sempre acesa em meio às cinzas. É impossível não se conectar, não sentir as lágrimas, o suor, o sopro de vida ou de desespero dos personagens. O que diferencia essa obra é como o autor, Bruno Ricetti, trata a magia que traz o poder que nasce da arte e da melodia, mas que também tem um custo físico e emocional.

“A última palavra saiu num soluço, e ela enterrou o rosto nos braços.

 Ele não respondeu imediatamente, o silêncio entre eles foi preenchido pelo som distante de um riacho escondido. O peso do que acabara de acontecer os esmagava, uma experiência traumática que os marca-ria para sempre.

 O poder dos Lamentos, descontrolado e violento, havia salvado suas vidas, mas deixara cicatrizes em suas almas, Kael sentia o sangue em suas mãos, uma marca indelével, e Liora carregava o eco de seu grito como um peso invisível. Os dois ficaram ali, tentando entender o que haviam feito e se perdoar pelo que tinham causado, o ar pesado com o cheiro de morte que ainda os seguia.”

O poder dos Lamentos, que Kael e Liora liberam, não é apenas uma habilidade mágica, é uma explosão de dor, medo e desespero, mas também de esperança. Eles salvam suas vidas e de outros, mas carregam o peso de tudo o que destruíram pelo caminho, e aquilo fica com eles, ecoando nas almas, como o próprio nome do livro sugere. “Lamentos da Alvorada Renegada” não poderia ser mais perfeito! O lamento é literal e emocional.

O volume 1 finaliza com feridas abertas, perdas sentidas e esperança incerta, deixando-nos com um gosto de quero mais e com o coração acelerado. Um livro que mostra que fantasia também pode ser profunda, dolorosa, real e transformadora.

“Seu mundo inteiro havia sido destruído em segundos. Não havia mais o pai forte para carregá-lo nos ombros, rindo enquanto o erguia ao céu, nem a mãe amorosa para tratar suas feridas com suas canções suaves que pareciam acariciar a alma. Ele não sabia se alguém em Venth ainda respirava, e as lágrimas que escorriam por seu rosto embaçavam a visão tornando a noite ainda mais densa, um véu que sufocava qualquer esperança”.

 

Volume 2 - O Domínio da Sombra

Se o primeiro volume abriu, para mim, as portas do gênero, o segundo, “Domínio da sombra”, não pediu licença: entrou, virou a mesa e deixou claro que esse universo de fantasia chegou para ficar. A leitura me proporcionou um misto de exaustão emocional e admiração. É uma obra que confia no leitor e não tem medo de ser densa e provocativa.

“O sangue não esquece seu caminho” e “A distância é um pensamento” não são só ameaças físicas, são declarações sobre como o inimigo transcende a força bruta. Para os Arautos, isso significa que lutar apenas com armas ou construções (muralhas, guardas, máquinas) não será suficiente. A batalha exige estratégia, percepção e inteligência, quase como um xadrez mental ou guerra psicológica.

Nessa continuação, percebemos que o verdadeiro horror não reside apenas em monstros ou máquinas, mas na lógica que sustenta o poder. O antagonismo nessa fase é assustador, justamente porque governa pela narrativa, pela conveniência e pelo conforto oferecido às massas.

Nesse cenário, a memória vira uma ameaça. Lembrar exige uma responsabilidade ética que o sistema não quer permitir. É impossível não traçar paralelos com o nosso mundo contemporâneo, em que discursos vendem estabilidade como valor absoluto enquanto tentam neutralizar o pensamento crítico.

A fala de Lisa é uma metáfora poderosa sobre a passividade das massas. Ela identifica que o povo de Auren não está sendo dominado apenas pela força, mas pelo conforto. Em um mundo exausto por guerras e invernos eternos, a promessa de uma vida sem esforço oferecida pelas máquinas é tentadora demais. A comparação com as ovelhas sendo engordadas é brilhante. O "pastor" provê o alimento e o descanso, mas o objetivo é o abate. A submissão é vendida como "descanso", mascarando a perda da liberdade.

No segundo volume, os personagens ganham uma profundidade psicológica rara. Liora me atravessou em seus dilemas sobre o tempo e o que não pode ser devolvido. Já Nero traz um alívio agridoce, que nos faz questionar: o que somos quando não conseguimos mais lembrar? São figuras que nos despertam desde risadas até lágrimas de pura empatia.

O protagonista Kael, por sua vez, é o herói que nos tira do sério. Impulsivo e falho, ele erra e sofre as consequências de cada ato impensado. Mas é essa humanidade que o torna especial. Ele não sai inteiro de suas batalhas; ele carrega as marcas de quem salva o mundo, mas precisa aprender a viver com os estilhaços do que restou.

Enquanto no volume 1, vemos uma jornada de sobrevivência e descoberta, em que o foco está na construção dos protagonistas, por isso é uma história mais íntima, sobre o despertar de poderes e a fuga do perigo imediato.

no volume 2, tudo é mais político, mais sombrio e muito mais maduro. Terminei a jornada com o coração acelerado e uma percepção incômoda: o mal nem sempre vence pela força bruta, mas, muitas vezes, pela paciência e pela manipulação das verdades.

O que percebemos desse universo é que a magia (Lume) é uma energia consciente e compartilhada. Diferentemente de outras fantasias, em que se gesticula ou diz palavras rúnicas, Bruno usa a magia como expressão artística (música, poesia). Ou seja, nesse universo, a sensibilidade é uma forma de poder, e os deuses não são figuras distantes e perfeitas em altares, mas seres que interagem, sofrem julgamentos e dependem de seus “Arautos”. Existe uma interdependência entre o humano e o divino, que é muito rara na fantasia tradicional.

Além disso, no segundo volume percebemos que é um mundo que já viveu apocalipses (como a Guerra das Máquinas) e que a tecnologia e a magia vivem em uma tensão constante. O universo de Bruno Ricetti sugere que a humanidade está sempre em um ciclo entre evoluir e se autodestruir, e que a única coisa que pode quebrar esse ciclo é a memória preservada pelos Lamentos.

Se no primeiro volume somos apresentados ao “sentir” da magia, no segundo somos confrontados com o “pensar”. O universo de Ricetti nos mostra que a maior arma de um povo não é sua espada, mas sua capacidade de lembrar de onde veio. O encerramento  deixa perguntas inquietantes sobre o futuro dos deuses e da humanidade.

“O silêncio após a batalha não era alívio. Era ausência. O portão estava livre, sim, mas o preço havia se entranhado em sangue, suor e marcas que não cicatrizariam facilmente.”

A saga de Ricetti prova que a fantasia nacional pode, e deve, ser profunda, dolorosa, real e, acima de tudo, transformadora.


Drielly Passos – Leitora assídua desde a infância entre as estantes da Biblioteca Municipal. Interesso-me por narrativas que tencionam poder, moralidade e condição humana, comm predileção por terror, suspense, distopias e fantasia. Graduada em Pedagogia (UFPA) e Matemática (UFTM), neuropedagoga, atua com atendimento pedagógico para alunos com dificuldade ou transtorno de aprendizagem.

 

Nota: os textos desta seção não necessariamente refletem a opinião da Revista O Bule.

11 de fev. de 2026

Psicopatia (Parte 5)

Por Gustavo Coelho 

Livre. A palavra mal se fixava em sua mente, abafada pela dor latejante. Hebert se apoiou na parede, ofegante, e olhou para o corpo de seu algoz. A chave. Precisava da chave. 

Ele se arrastou até o homem. Com as mãos trêmulas, começou a revistar os bolsos do paletó. Encontrou primeiro uma outra pistola, um revólver .38 idêntico ao que o matara. Estranhou, mas continuou. No outro bolso, sentiu o contorno de uma moeda. Puxou-a. 

Era a moeda do jogo. Olhou um lado: cara. Virou-a: cara de novo. Uma moeda com duas faces iguais. A sorte, a escolha, a esperança – tudo uma farsa. O jogo nunca fora sobre chance. Mas sobre a vontade dele. 

Sem pensar muito nisso, enfiou a mão no bolso da calça do homem e sentiu o metal frio das chaves. Agarrou-as com força. Com o canto do olho, viu o pedaço de si mesmo caído no chão. Em um ato de desespero e negação, ele o recolheu com as mãos, na esperança absurda de que não fosse tarde demais. Já sentia o corpo ficar mais frio, a tontura chegando pela perda de sangue. 

Correu, ou melhor, mancou o mais rápido que pôde até a porta pela qual o sequestrador havia saído pouco antes. As mãos tremiam tanto que ele custou a encaixar a chave na fechadura. 

Girou-a. A porta se abriu. 

Aí ele se deparou com algo aterrorizante. 

Não era um corredor. Era um quarto de menina. As paredes eram pintadas de um rosa desbotado e, em uma delas, dezenas de fotos de uma jovem sorridente estavam presas em um mural. Os móveis, também cor de rosa, estavam bem-dispostos. Em cima da cama de dossel, repousava o cadáver mumificado de uma garota, a pele esticada sobre os ossos como pergaminho, a boca aberta em um grito silencioso. Acima, no teto, balançava uma corda com um laço na ponta. 

Hebert recuou aterrorizado. Olhando freneticamente ao redor em busca de outra saída, avistou uma porta do outro lado da sala. Correu até ela, mas seu coração afundou. Era uma porta de aço, uma porta sem maçaneta, apenas uma fechadura eletrônica, um leitor de impressão digital. Ele estava preso. 

Seus olhos percorreram a sala de forma frenética e finalmente se fixaram em uma pequena mesa. Talvez um cartão, algo para abrir a porta. Ele se jogou sobre ela, remexendo em papéis e objetos. Mas não encontrou um cartão. Encontrou um bilhete, dobrado e posicionado no centro da mesa, como se estivesse esperando por ele. Largou seu membro decepado na mesa e, com os dedos manchados de sangue, o abriu e leu:

 

“Pai,

 

Essa vai ser a última vez que você vai ouvir minha voz — mesmo que seja por letras no papel. Eu não sei como dizer isso de um jeito que doa menos. Talvez não exista. Então... me perdoa.

 

Eu tentei, de verdade. Tentei voltar a ser a Marina de antes. Tentei respirar como se meus pulmões ainda funcionassem direito. Mas alguma coisa em mim morreu naquela noite — e nunca mais voltou.

 

Você lembra da viagem da faculdade? Aquela em que você ficou orgulhoso por eu estar participando? Foi ali, pai. Foi ali que ele me destruiu. Hebert, um colega de turma, alguém que todo mundo admirava, aquele tipo de pessoa que sorri para todos e engana fácil. Ele se ofereceu para me levar até o quarto porque eu não estava bem. E foi lá que tudo acabou.

 

Ele me amarrou e estuprou, por diversas vezes. Eu me lembro do cheiro do quarto, da textura do lençol contra meu rosto quando tentei virar, dos segundos intermináveis com a boca trancada de medo. Depois ele só disse: “Não adianta gritar. Ninguém vai acreditar em você.”

 

E ninguém acreditou.

 

Eu denunciei. Fiz tudo que disseram ser o certo. A polícia disse que não havia provas. O exame deu inconclusivo. A faculdade se calou. Ele seguiu em frente, como se nada tivesse acontecido. E eu fiquei... aqui.

 

Você me dizia para não desistir, para ser forte. Mas, pai, você sabia que tem dias que eu nem lembrava o gosto da comida? Eu parei de sentir fome. Parei de sentir sede. Os sabores sumiram da minha boca como se fossem arrancados. Eu mastigava o vazio.

 

Sair na rua virou tortura. Quando eu sentia os olhares — e sempre haviam olhares — era como se cada um fosse uma descarga elétrica atravessando minha pele. Me deixavam paralisada. Eu tremia por dentro, querendo correr, desaparecer. Como se todos soubessem. Como se todos me culpassem.

 

Eu não conseguia mais dormir direito. E quando dormia... era pior. Eu voltava para aquele quarto, para aquele peso, para aquele som abafado da minha própria voz tentando gritar. Acordava molhada de suor, o coração batendo como se quisesse escapar do meu peito.

 

Eu passei a sentir que algo tinha sido arrancado de mim. Como se um pedaço meu tivesse ficado naquele chão. Algo essencial. Sem ele, eu não conseguia continuar. Não era só tristeza. Era ausência. Um buraco fundo onde antes havia vida.

 

Eu sei que você tentou, pai. Sei que me ama. Mas o amor, às vezes, não alcança o que está morto.

 

Hoje, depois de terminar esta carta, vou me libertar. Não porque quero machucar você, mas quero descansar. Quero que essa dor pare. Que esse peso acabe.

 

Me perdoa. Me perdoa por não conseguir mais. Por não ter sido a filha que você merecia. Mas, se um dia você sentir saudade, lembra de mim antes de tudo isso. Quando eu ainda ria de bobagens. Quando ainda tinha gosto em viver.

Com amor,

Marina.” 

As palavras da carta queimaram a mente de Hebert. Marina. Hebert. O nome dela. O nome dele. Ele ergueu os olhos do papel e encarou o cadáver na cama. Aquele rosto, desfigurado pelo tempo e pela decomposição, com a pele esticada como couro velho... por baixo de tudo, ele o conhecia. Era ela. 

O desespero o atingiu com uma força terrível. Ele precisava sair dali. Correu até o corpo mumificado de Marina e, sem cerimônia, começou a revistá-lo, procurando nos bolsos do vestido, já podre, por um cartão, qualquer coisa. Não havia nada. 

Uma ideia medonha e desesperada surgiu. A porta de aço. O leitor de digital. A chave era a mão do homem morto na outra sala. 

Ele voltou, mancando e deixando um rastro de sangue, até o corpo do sequestrador. Ajoelhou-se e pegou uma das mãos, planejando usar o cutelo para decepá-la. Mas ao virar a palma para cima, lembrou de algo aterrorizante. Não havia digitais. Estava queimada. A pele completamente destruída, uma massa de tecido carbonizado. Ele se lembrou do homem segurando a barra de ferro quente. A "prenda". Não fora um ato de loucura. Fora um passo calculado para selar sua tumba. 

Derrotado, Hebert escorregou e sentou-se no chão úmido, entre os dois corpos. E, então, as peças começaram a se encaixar, uma a uma, em um mosaico de horror. 

As duas pistolas idênticas. Uma delas, a que estava no bolso, com a única bala já no gatilho, trocada pela vazia para o início do "jogo". A roleta russa era uma farsa. 

Os choques em seu pênis era a "descarga elétrica" que Marina sentia sob os olhares de julgamento... 

A pera da angústia introduzida em seu corpo, a violação, a boca trancada de medo que ela descreveu. 

Seu dedo e órgão genital arrancados significavam o sentimento de ter tido "algo essencial arrancado" de si, como ela escreveu? 

O saco plástico em sua cabeça, roubando-lhe o ar... a sensação dela de não conseguir mais "respirar direito". 

E por fim, aquilo. Aquela sala. A porta de aço. Sua prisão eterna, onde morreria lentamente de fome e sede, exatamente como ela, que em sua depressão "parou de sentir fome, parou de sentir sede".

Ele não era vítima de um psicopata aleatório. Estava condenado. Condenado a uma vingança pessoal, arquitetada nos mínimos detalhes por um pai que amava tanto a filha a ponto de recriar o inferno dela em seu algoz. Um destino que ia além da morte, um sofrimento lento e degradante de seu corpo e de sua alma, culminando em seu fim, trancado para sempre entre a sua vítima e o seu vingador.


Fim.

 

Gustavo Coelho, natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação. É coautor de Crisântemo.

10 de fev. de 2026

Psicopatia (Parte 4)

Por Gustavo Coelho 

A súbita liberdade das mãos enviou uma onda de adrenalina pelo corpo de Hebert. Em um ato de puro instinto, ignorando a dor lancinante, ele se impulsionou para a frente, tentando se levantar para avançar contra o sequestrador. 

O homem não se moveu. Apenas sacou um revólver .38 do cós da calça, a arma surgindo com uma naturalidade assustadora. O som do cão sendo armado. Um clique metálico. Hebert congelou, o corpo a meio caminho de se erguer, e o medo o forçou a se sentar de volta na cadeira. 

Foi um erro. 

Sentiu uma dor monstruosa. 

Ele havia se esquecido da "pera" fincada e expandida em seu ânus. O impacto na cadeira fez o dispositivo rasgar ainda mais seu interior. Um grito saiu de sua boca, e seu corpo se contorceu novamente de dor, uma agonia que partia de um novo e terrível lugar. 

O sequestrador, com a arma ainda em punho, observou a cena com interesse. 

— Este será o nosso último jogo — disse ele, a voz calma. — Roleta russa. Se o senhor ganhar, estará livre de sua situação atual. 

Ele balançou um pequeno molho de chaves no ar, o metal tilintando suavemente, antes de guardá-lo no bolso. Em meio ao pânico, à dor e ao desespero, Hebert viu ali a única oportunidade de sair vivo. Ele assentiu, a cabeça balançando em um gesto de aceitação patética. 

— Vamos decidir quem começa — continuou o homem, pegando a moeda do bolso outra vez. — Como o senhor escolheu cara no último jogo, e venceu, a escolha desta vez é minha. Para manter o equilíbrio. E eu escolho cara. 

Ele jogou a moeda para o alto, pegando-a no ar. Ao revelar a face, um sorriso se formou em seus lábios. 

— Veja só. Deu cara! 

Sem dar tempo para Hebert processar o que aquilo significava, ele abriu o tambor do revólver, mostrou uma única bala e a inseriu em uma das câmaras. Girou o tambor com um movimento rápido do dedo, fechando com um estalo.

 

O homem apontou o cano frio do revólver para Hebert.

 

O mundo de Hebert se reduziu àquele pequeno círculo escuro.

 

Fechou os olhos com força, encolhendo-se na cadeira, esperando o estampido final.

 

CLICK.

 

O som metálico e vazio ecoou na sala. Hebert abriu os olhos, ofegante. O sequestrador o observava, um brilho de professor em seu olhar.

 

— Veja só. O primeiro passo é o mais importante — ironizou, com a arma ainda apontada. — Ele nos dá esperança. É a prova de que há uma chance. Agora o senhor sabe que pode sair dessa.

 

Então, com um movimento calmo e fluido, ele levou a arma à sua própria têmpora.

 

CLICK.

 

O segundo som vazio foi tão alto quanto o primeiro. O homem nem sequer piscou. Hebert, por outro lado, soltou uma torrente de lágrimas de pavor e confusão.

 

— Meu Deus, para com isso... — suplicou, a voz estrangulada. — Eu te imploro, me deixa ir embora.

 

O seu captor apenas sorriu, ignorando o clamor.

 

— Lembre-se, Hebert. As escolhas, elas definem o destino de cada um. Boas e ruins. São elas que formam o caráter de uma pessoa.

 

Ele apontou, novamente, a arma contra Hebert e apertou o gatilho mais uma vez.

 

CLICK.

 

Hebert soltou um som de alívio e gratidão. O sequestrador abaixou a arma e a guardou no bolso da calça, como se o jogo tivesse terminado. Ele ofereceu uma opção ao seu "hóspede".

 

— Eu já venho seguindo seus passos há muito tempo, Hebert. O senhor não foi escolhido ao acaso. Foi escolhido a dedo. Eu sei tudo o que já fez, sei de seus planos. Sei até para onde iria amanhã.

 

Ele caminhou pela sala, as mãos para trás, como um palestrante.

 

— O senhor é praticamente um modelo para a sociedade. Um rapaz de sucesso, de família, de posses. E prego, quando se destaca, deve ser martelado.

 

Ele parou e encarou Hebert, o tom agora sério e direto:

 

— Então, aqui está o seu verdadeiro jogo. Sua verdadeira escolha. Se o senhor me revelar um crime que já cometeu, um que seja maior, mais cruel do que o meu de tê-lo trazido aqui, eu encerro tudo. Agora mesmo. E o deixo ir. 

Hebert ergueu a cabeça, o sangue e as lágrimas se misturando em seu rosto. Ele olhou nos olhos de seu captor, a última centelha de lógica em sua mente buscando uma saída, uma forma de vencer aquele jogo impossível. 

— Não tem como... — sussurrou, a voz rouca e quebrada pela dor. — Você... Você arrancou dois membros de mim... Você me torturou... Você praticamente me estuprou. Não existe crime que eu tenha cometido que possa superar isso. 

Ele esperou por uma resposta, uma punição pela insolência. Em vez disso, o sequestrador jogou a cabeça para trás e começou a gargalhar. Não foi um sorriso contido, mas uma gargalhada alta, genuína e maníaca, que encheu a sala úmida. 

— EXATAMENTE! — bradou ele, em meio ao riso. 

Com um movimento rápido, ele retirou o revólver do bolso. O sorriso ainda estava em seu rosto, um sorriso de triunfo, de quem acaba de ouvir a piada perfeita. Ele levou o cano da arma à sua própria têmpora, exatamente como fizera antes. 

— Minha vez. 

Hebert nem teve tempo de processar a frase. 

Um estampido ensurdecedor na sala pequena. O corpo obeso do homem tombou para o lado, caindo no chão encharcado, e o revólver escorregou de sua mão, parando a poucos metros de Hebert. 

Seguiu-se um silêncio absoluto, quebrado apenas pelo som da goteira distante e do bip constante do monitor, que, incansavelmente, ainda media os batimentos de seu próprio coração. 

Hebert mal acreditava em sua sorte. O silêncio, antes um presságio de mais dor, era agora a prova de que havia acabado. Ele olhou para o corpo inerte, uma massa disforme desfalecida no chão, e depois para as próprias mãos, agora livres. 

Com a dor e a dificuldade do mundo pesando sobre si, ele se inclinou para a frente. Usando as mãos para se apoiar no chão úmido, arrastou o próprio corpo junto com a cadeira, centímetro por centímetro, em direção ao cutelo que repousava perto do cadáver. Cada movimento era uma nova onda de agonia vinda de seu pé e de sua virilha. 

Ele finalmente alcançou a arma. A madeira do cabo estava escorregadia, mas ele a segurou com firmeza. Torcendo o corpo em uma posição desajeitada, começou a serrar as cordas que prendiam seus tornozelos. Os fios grossos cederam lentamente, um a um, até que o último se partiu. 

Com um enorme esforço, apoiando-se na parede, ele se levantou. As pernas tremeram, ameaçando ceder. A dor interna, por conta da "pera", era um fogo constante. Ele cambaleou até o pequeno aparelho que o sequestrador usara, procurando um botão, uma alavanca, qualquer coisa que revertesse o mecanismo. Não havia nada. Nenhum botão de reverso. 

Sem outra opção, ele ergueu o cutelo. Com golpes repetidos e desesperados, atacou a mangueira hidráulica que ligava o aparelho ao dispositivo em seu corpo. A borracha grossa resistiu, mas por fim se rompeu com um silvo baixo, liberando um óleo fino no chão. 

Ele sentiu a pressão dentro de si afrouxar. Com as mãos trêmulas e o rosto crispado em uma careta de dor antecipada, ele se curvou e, com o máximo de cuidado possível, começou a retirar o objeto de metal de seu orifício anal: uma extração lenta, agonizante, cada milímetro uma nova laceração. Mas ele persistiu, até que o dispositivo caiu no chão, manchado de sangue. Livre. Ele estava finalmente livre dos aparelhos.


Continua amanhã, dia 11/02.


Gustavo Coelho, natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação. É coautor de Crisântemo.

9 de fev. de 2026

Psicopatia (Parte 3)

Por Gustavo Coelho 

— Vamos continuar — disse, o tom novamente controlado, quase divertido. Ele enfiou a mão no bolso do paletó e retirou duas cartas de baralho. 

Esperou que os uivos de Hebert se transformassem em um choro mais baixo e, então, se agachou na frente dele, mostrando as duas cartas. Uma era a dama de copas, a outra, um valete de paus. 

— O próximo jogo é de sorte, Hebert. O senhor deve escolher a carta certa — explicou, com um brilho nos olhos. — A única dica que lhe dou é que a carta certa depende da sua sorte. A errada... bem, a errada tem a ver com a escolha de merda que o senhor fez. 

Ele embaralhou as duas cartas nas mãos, virou-as com o desenho para baixo e as colocou no chão encharcado. 

— Escolha. A da esquerda ou a da direita? 

Hebert, com a visão turva pela dor, olhou para as duas cartas indistintas. Era uma aposta cega. 

— A... a da esquerda... — balbuciou. 

O homem pegou a carta da esquerda e a virou lentamente. Era a dama de copas. Ele não disse se a escolha fora boa ou ruim. Apenas se levantou em silêncio e caminhou de volta para a mesa no fundo da sala. Voltou de lá com um cutelo, a lâmina larga e pesada brilhando sob a luz da luminária. 

O pânico de Hebert se renovou. 

— Não... de novo não... por favor! Eu só quero ir embora! Eu faço o que você quiser! — gritou, tentando puxar os pés, mas as amarras eram firmes. 

Ao terminar a frase, o sequestrador já estava agachado novamente ao seu lado. O cutelo desceu com um golpe limpo e pesado, exatamente sobre o dedo do pé que o martelo havia esmagado. O som do metal cortando o que restava do osso foi nítido, seguido por um novo grito de agonia que superou todos os anteriores. 

Em meio ao sangue que escorria de seu pé e ao eco de seus próprios gritos, Hebert viu o sequestrador sorrir novamente. O homem se inclinou, o rosto calmo e satisfeito, e falou por cima dos gemidos de sua vítima: 

— Está vendo, Hebert? Isso é a consequência. A consequência de uma escolha errada. 

Ele então girou, mais uma vez, o botão do aparelho de choque elétrico. 

Uma nova onda de dor. A agonia do dedo amputado se fundiu com a convulsão da eletricidade, e Hebert sentiu o mundo se dissolver em um clarão branco. Seus olhos quase saltaram do rosto, e um grito que parecia vir de sua própria alma rasgou o ambiente. O corpo se contorceu de tal forma que ele mordeu a própria língua, o sangue preenchendo sua boca. Um cheiro acre de pele queimada começou a se espalhar pela sala, um testemunho da intensidade do choque. 

O sequestrador observava o monitor cardíaco, a linha verde traçando picos perigosos e erráticos. Com a mesma calma com que iniciou, ele desligou o aparelho. O corpo de Hebert amoleceu na cadeira, tremendo, ofegante. 

— Vamos fazer uma pausa — disse o homem, como se anunciasse o fim de um exercício. — Para o senhor pensar em como vai jogar da próxima vez. 

Ele abaixou sob os pés de Hebert, recolheu cuidadosamente o dedo decepado, se virou e caminhou em direção a uma porta, no canto da sala, que Hebert não havia notado antes. Ele destrancou e abriu, fechou atrás de si, sozinho ali no escuro. 

Hebert tentou respirar, a agonia ainda viva, movendo-se por todo o seu corpo. O sangue, o cheiro, o silêncio: não conseguia lidar com tudo isso... Seus olhos reviraram e, desta vez, a escuridão era boa. Ele desmaiou. 

Hebert acordou em espasmos, seu corpo inteiro lutando por algo que não viria: ar. Sua cabeça estava envolta em um saco plástico molhado e quente, selado contra seu rosto a cada inalação fracassada. O pânico imediato. Começou a se debater na cadeira. A visão escureceu nas bordas, o peito queimava. Quando estava prestes a perder a consciência, o saco foi arrancado de sua cabeça.

Ele engoliu o ar mofado da sala em uma golfada desesperada e dolorosa. Tossindo, com os olhos lacrimejando, ele viu o sequestrador parado à sua frente, segurando o saco plástico amassado. 

— Acorda, margarida — disse o homem, com um tom de escárnio. — Está na hora de se alimentar. 

— Por quê...? — sussurrou Hebert, a voz rouca. — Por que está fazendo isso? 

O sequestrador apenas deu de ombros, um gesto de indiferença que era mais cruel do que qualquer resposta. 

Hebert não havia notado, mas havia uma mesa posta em sua frente. Um prato fundo com um líquido espesso, com verduras e legumes. Uma sopa. 

— Como está impossibilitado, eu irei administrar sua alimentação. 

As coisas começaram a ficar ainda mais bizarras. Ele mexeu o conteúdo da sopa, assoprou e iniciou o procedimento como se fosse um bebê. 

— Vamos lá, Hebert. Abra a boquinha! 

Hebert sentiu que não era hora de irritá-lo com desobediência. 

Ao mastigar ele percebeu algo de diferente naquela sopa. Por mais que o aroma e o sabor não estivessem ruins, havia um pedaço de carne com osso, impossível de ser mastigado. Então, para não desagradar seu captor, ele roeu com os dentes e cuspiu o que sobrou na mesa. 

— Tá vendo, Hebert. Nem você mesmo se suporta! 

Cismado com a frase, Hebert olhou para aquele resto que cuspira. A terrível descoberta: seu dedo decepado estava entre os ingredientes da sopa. 

— VOCÊ É DOENTE? – gritou Hebert, vomitando de lado o pouco que havia engolido. 

— Deixe de ser malcriado, sr. Hebert. Acho que sei de algo que irá animá-lo. 

Então ele se virou e pegou uma barra de ferro fina que estava encostada na parede. Com um maçarico portátil, começou a aquecer o metal. A chama azul sibilou e, em instantes, o ferro começou a brilhar, passando de um cinza opaco para um laranja vivo, depois para um vermelho incandescente. O calor irradiava, e Hebert podia senti-lo em seu rosto. 

— Pronto para o próximo jogo? — perguntou o homem, aproximando a barra brilhante. O desespero tomou conta de Hebert novamente. — É simples. Cara ou coroa? 

Ele fechou a mão, escondendo a moeda. Hebert, com o pavor do ferro quente à sua frente, apostou. 

— Cara! — gritou. — Cara, por favor! 

O sequestrador parou, uma sobrancelha se erguendo atrás dos óculos. 

— Interessante... — murmurou, pensativo. — Estudos dizem que jovens mimados como o senhor costumam escolher coroa. É um símbolo de nobreza, de poder... O senhor me surpreendeu. 

Jogou a moeda para o alto com o polegar. O metal girou, cintilando sob a luz da luminária, e a pegou no ar com um tapa, colocando na parte de trás da outra mão. Lentamente, ergueu a mão para revelar o resultado. 

Veio a surpresa. 

— Deu cara! 

Uma expressão de alívio surgiu nos lábios de Hebert. Havia escapado do ferro incandescente. O sequestrador o observou, balançando a cabeça como se estivesse impressionado. 

— O senhor tem sorte. E eu sou um homem de palavra — disse ele. 

Então, para o horror absoluto de Hebert, ele se inclinou e agarrou a barra de ferro brilhante com as duas mãos. O som da carne queimando, um chiado agudo acompanhado de um cheiro forte e adocicado. O homem não gritou. Não demonstrou dor. Apenas segurou o ferro por dez longos segundos, o rosto impassível, antes de largá-lo no chão com um baque metálico. Ele ergueu as mãos para Hebert ver o resultado: a pele das palmas e dos dedos estava destruída, revelando a gordura amarelada por baixo. 

Com uma calma surpreendente, ele pegou a moeda do chão com os dedos queimados e a guardou no bolso. 

— Vamos para o próximo jogo — anunciou. 

Hebert, ainda atordoado pela cena, lembrou-se da promessa. Sua voz saiu fraca, mas insistente. 

— Você... você disse... que ia resolver um dos meus problemas. A prenda... você cumpriu. Mas e o resto? 

O sequestrador o olhou e sorriu, pedindo desculpas como se tivesse esquecido de um detalhe trivial. 

— Oh, é verdade. Peço perdão. A minha prenda me distraiu. Sabe de uma coisa? Por meu esquecimento, vou resolver dois de seus problemas, não apenas um. 

Ele caminhou até a mesa e pegou o cutelo. Hebert começou a tremer, certo de que a morte havia chegado. O homem parou à sua frente, a lâmina pesada pendendo ao lado do corpo. 

— O senhor deseja que os choques cessem? Deseja que eu o liberte daquele dispositivo? — perguntou, com genuína curiosidade. 

Com a voz trêmula, gaguejando, Hebert conseguiu dizer: 

— Sim... sim, por favor... 

— Pois bem. 

O cutelo se ergueu. O movimento foi um arco rápido e preciso. A lâmina desceu com um só golpe, cortando a carne, na base do pênis de Hebert. 

— Pronto — disse o sequestrador, observando sua obra. — A parte do seu corpo ligada ao dispositivo acabou de ser retirada. 

Por um segundo, Hebert não entendeu. Então a dor explodiu, uma agonia branca e ofuscante que superou tudo o que sentira antes. 

— MEU PAU! — gritou, a voz rasgando de pura incredulidade e horror. — VOCÊ ARRANCOU MEU PAU! 

Ainda em meio ao desespero e à angústia de Hebert, o sequestrador se moveu para trás. Com o mesmo cutelo, cortou as amarras que prendiam seus pulsos. 

— E agora, suas mãos estão livres — disse, satisfeito. — Dois problemas resolvidos. 

Ele deixou Hebert solto da cintura para cima, mas com os pés ainda atados, em uma poça crescente de seu próprio sangue.


Continua amanhã, dia 10/02.


Gustavo Coelho, natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação. É coautor de Crisântemo.