Por
Krishnamurti Góes dos Anjos
O exercício da crítica
literária, muitas vezes, perde-se em juízos puramente subjetivos. No entanto,
ao analisar Crisântemo, obra de Gustavo Coelho e Sinvaldo Júnior, meu
foco se desloca para o que realmente importa ao leitor: a construção do enredo,
o ponto de vista narrativo e a eficácia da linguagem em traduzir o humano.
Os escritores, ambos
residentes em Uberlândia, Minas Gerais, resolveram unir seus talentos e deram
vida a uma narrativa que, pela estrutura interna de ação mais sintética, linear
e rápida, aproxima-a do gênero novela, aquele ponto intermediário entre o conto
e o romance: 125 páginas, 26 capítulos curtos que trazem títulos
de músicas de conhecidas bandas e cantores: The Tears, Legião Urbana, John
Lennon, Frejat, Rolling Stones, Biquini Cavadão, entre tantas outras.

Tal recurso é um dos
diferenciais mais marcantes de Crisântemo, ou seja, sua simbiose com a
música. A narrativa é, assim, atrelada a uma trilha sonora que serve de guia
emocional para as cenas. Contudo, esse expediente é também um ponto de debate.
Com uma playlist composta majoritariamente por canções em inglês, a obra
impõe um desafio extra ao leitor brasileiro. Embora exista um QR Code para
facilitar o acesso às músicas, a barreira linguística pode, em certos momentos,
interromper a fluidez da leitura para aqueles que buscam entender a conexão
profunda entre a letra e o arco do personagem.
Os autores sugerem,
no enredo proposto, que as palavras impressas no papel despertem ouvidos menos
sensíveis à importância da música na experiência humana. Sim. A música, essa
eloquente linguagem do espírito humano que se externaliza por meio da matéria
prima impalpável a que conhecemos como “som”. Sons agrupados ritmicamente,
sabemos todos, possuem a capacidade de se comunicar com todos os aspectos do
ser humano: o animal, o emocional, o intelectual e o espiritual. É arte capaz
de, repentinamente, fazer com que nos desviemos de preocupações rotineiras e
mergulhemos em imaginários que evocam pessoas amadas, sofrimentos, decepções,
cenas do passado ou mesmo projetando scripts emocionais adequados a tal
ou qual melodia que nos chega aos ouvidos. E assim é tecida a ficção
propriamente dita que orbita em torno de um grupo de cinco jovens na casa de
seus vinte e poucos anos, integrantes da banda Sagarana.
A obra abre com uma
sequência que pode ser definida como "alucinante". Através da corrida
desesperada de Lucas, a narrativa estabelece, logo de cara, uma fidelidade
visceral ao sentir juvenil. É o retrato do amor em sua forma mais crua e, por vezes,
dolorosa — a famosa "dor de cotovelo" que, embora comum, é tratada
aqui com uma urgência que prende o leitor. O texto consegue capturar com
precisão as mazelas que um "fora" deixa na alma de quem ainda não
alcançou a maturidade emocional. O capítulo que abre a
narrativa surpreende o leitor pela situação limite exposta que causaria
perplexidade a cultores do mais pesado heavy metal com suas sonoridades massivas e encorpadas, em
timbres saturados e distorcidos de amplificadores, cordas graves de guitarra e
atmosferas sombrias.
Dois dos integrantes da Sagarana estão em um automóvel em
altíssima velocidade. Lucas, o baterista da banda, dirige. Carlos tenta
dissuadi-lo de continuar naquela velocidade absurda, naquele desespero causado
(pasmem!) pelo rompimento com a namorada de inícios da adolescência que o
desestrutura completamente. O diálogo que os dois travam é urgente, tenso, desesperador.
Carlos antevê o desastre iminente. Suplica que Lucas pare o carro e argumenta
tudo que consegue... Afinal, depois de muita argumentação, o carro para no
acostamento. Carlos desce, mas o outro segue rumo a um suicídio que de fato se
dá.
No centro da trama está
Carlos, um protagonista atropelado pela “roda furiosa da vida”. A urdidura da
problemática existencial é bem construída, colocando o personagem em uma
sequência de acontecimentos que parecem não dar trégua. É nesse ponto que a
obra se torna densa: o leitor acompanha um jovem adulto mergulhado em um
turbilhão de problemas tão urgentes que a própria reflexão parece ser um luxo
ao qual ele não tem acesso. Para além da tristeza da morte do amigo, Carlos (o protagonista
narrador) sente-se culpado por não ter impedido o acontecido. E inesperadamente
surge outra sombra terrível ligada a Lucas. A maledicência de alguns insinua
que o desespero de Lucas não se devia apenas ao término com a namorada, mas
também a certo envolvimento com a namorada de Carlos, que se descobre na
sequência estar grávida. De quem? A pergunta que não cala e contribui para
somar luto com traição, resultando em ódio.
Há certas vidas que
parecem fadadas ao sofrimento. Assim é a de Carlos. A banda se dissolve. A
ex-namorada Larissa afirma que o filho que espera é dele. Há, ainda, a
desconfiança entre eles quanto à paternidade. Desesperado, Carlos parte para
outro relacionamento e o que encontra pela frente é uma doidivanas dada a aventuras
com quem quer e bem entende. Carlos não arruma emprego. Vive com a mãe depois
que o pai caiu no mundo para nunca mais. A relação com a mãe entra pela via de
desentendimentos, mágoas, palavras agressivas, e afinal acaba expulso de casa
sem ter para onde ir... Até que mais um momento de extrema dor,
desnorteio e funda perplexidade o atropela e o leva para a beira do abismo
existencial:
“Lá
fora, comecei a caminhar sem rumo, com os fatos se repetindo em minha mente. O
suicídio. A morte. As brigas. O abandono. A traição. A expulsão. A morte. O
suicídio. O ciclo se fechava. Comecei a entender: talvez a resposta fosse essa.
Parei
na calçada, a uns dois quarteirões do prédio, a decisão se solidificando a cada
segundo. Eu enfim compreendia. Não seria esse o único caminho para o fim do
caos? O som de pneus cantando no asfalto me arrancou do transe. Um carro freou
bruscamente ao meu lado.”
Uma mão amiga lhe acena. Ponto crucial. Será
ele capaz de descobrir que dentro de si mora uma versão mais forte e capaz de
seguir em frente, ou afundará no oceano de traumas que marcaram tão
dolorosamente sua existência para então, e afinal, descobrir outros horizontes,
imprimir novos ritmos, novos acordes, outras melodias em sua vida? Vale a pena
conferir o desfecho dessa sinfonia existencial.
Se por um lado a
"roda viva" de problemas mantém o ritmo acelerado, por outro,
sente-se falta de uma exploração mais profunda dos traços psicológicos de
Carlos em relação à sua arte. O ingrediente que daria ainda mais sabor à
composição seria entender o verdadeiro sentimento que o protagonista nutre pela
música — para além do caos externo, quem é o Carlos artista quando o silêncio
finalmente impera?
Crisântemo
é uma narrativa bem construída, que não tem medo de expor as feridas abertas da
juventude e as dificuldades da vida adulta. É um convite a olhar para as nossas
próprias cicatrizes, embalado por acordes que, se nem sempre compreendidos de
imediato, ressoam a urgência de quem precisa sobreviver ao peso do mundo.
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Krishnamurti Góes dos Anjos
é baiano de Salvador. Escritor, pesquisador e crítico literário, é autor, entre
outros, de O Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Embriagado
Intelecto e outros contos, À flor da pele (contos)
e Destinos que se cruzam (romance). Possui textos publicados em revistas
no Brasil, Portugal, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e
Espanha. O Touro do rebanho (Editora Chiado, romance histórico) obteve o
primeiro lugar no Prêmio José de Alencar (UBE/RJ) em 2014. Atuando com a
crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira
contemporânea, colaborando em diversos jornais, revistas e sites literários.