8 de fev. de 2026

Psicopatia (Parte 2)

Por Gustavo Coelho 

O homem entendeu aquilo como uma confirmação. Ele se abaixou. Com uma das mãos, segurou o dispositivo metálico e, com a outra, o guiou para uma abertura circular na base da cadeira. O prisioneiro sentiu o metal frio e lubrificado tocar sua pele, e então ser introduzido em seu ânus. Ele tentou gritar, mas saiu apenas um gemido abafado. 

Ainda abaixado, o torturador pressionou um pequeno botão no controle que segurava. Um zumbido delicado e abafado, algo como o suave som de um aríete hidráulico ganhando vida. 

O corpo do outro se contorceu violentamente contra as restrições impostas pelas amarras, a coluna se curvando na cadeira com a pressão interna que ia aumentando. Ele chorou, implorou e suplicou para que aquilo acabasse, mas o homem à sua frente apenas olhava extasiado. 

Ele começou a assobiar, pressionando o botão o tempo todo com o polegar, uma melodia suave que não tinha relação com os gritos agonizantes de sua presa. A "pera" se abria uma fração de polegada a cada segundo e Hebert tinha a sensação de estar sendo rasgado por dentro. O grito foi substituído por tremores que seu corpo não conseguia controlar. 

O sequestrador observou a reação com interesse e, então, soltou o botão. O zumbido hidráulico parou. 

— Pronto — afirmou ele, com a voz calma de quem conclui uma tarefa. — Cheguei no ponto que queria. 

Hebert ofegava, o corpo mole e dolorido. Sentia o sangue quente escorrendo, a certeza de uma ferida interna grave. O desespero deu lugar a um novo tipo de súplica: a de um homem humilhado pedindo socorro. 

— Por favor... Eu preciso de um médico... 

O sequestrador soltou uma gargalhada contida, um som baixo e divertido que pareceu ecoar por toda a sala. Ele se aproximou do rosto de Hebert, o sorriso ainda em seus lábios. 

— Não — disse ele, com simplicidade. — Nós só estamos começando os jogos. 

Ignorando as súplicas, ele guardou o controle da "pera" e pegou o outro pequeno aparelho, o da descarga elétrica. 

— Diga-me, Hebert — começou, a voz calma e professoral. — Quando me viu pela primeira vez, sentiu alguma coisa? 

Hebert, em meio à dor e ao pânico, não entendeu a pergunta. Sua mente estava focada na agonia que pulsava em seu corpo. Ele apenas gemeu, confuso. O homem suspirou, como se estivesse desapontado com a lentidão do aluno. Sem dizer mais nada, ele girou o botão do dispositivo em sua mão. 

A descarga elétrica voltou, e uma convulsão de dor aguda sacudiu o corpo de Hebert. Agora, porém, o sofrimento foi amplificado de forma inimaginável. Com a “pera”, a corrente elétrica somou-se à dor latejante e profunda que já o consumia por dentro. Sua visão escureceu. 

Quando o choque cessou, o sequestrador se aproximou novamente, o rosto a centímetros do de Hebert. 

— Eu perguntei... — repetiu, enunciando cada palavra. — Se você sentiu alguma coisa. 

Hebert entendeu. A "coisa" a que ele se referia, provavelmente, era o choque. Com o corpo ainda tremendo, ele conseguiu assentir com a cabeça, um movimento fraco e desesperado. 

O homem sorriu, satisfeito com o entendimento. 

— Esse sentimento... essa descarga... — explicou ele, didaticamente. — É algo comum em predadores. É o que usamos para domar as feras. 

Ele apontou com o queixo para a parte íntima de Hebert, que até então estava fora de seu campo de visão, obscurecida pela posição em que estava amarrado. 

Seguindo o gesto, Hebert baixou os olhos e então viu. Preso à base de seu pênis, havia um grampo de metal, semelhante a uma pinça, do qual saía um fio fino que se conectava a um dispositivo preso na lateral da cadeira. Era dali que vinha a eletricidade. A fonte de uma das dores, agora revelada, só tornava o terror mais humilhante. 

A visão do grampo metálico em sua genitália dissolveu o que restava do autocontrole de Hebert. Um grito de pânico rasgou sua garganta. 

— Tira isso! Por favor, tira isso de mim! — implorava, o corpo se debatendo inutilmente contra as amarras. 

O sequestrador sorriu, um sorriso genuinamente divertido, como se a situação fosse uma piada particular. Ele se aproximou, a calma contrastando com o desespero de Hebert. 

— Eu tiro. Tudo a seu tempo — disse ele, a voz suave. — Que tal um jogo? Para cada escolha correta que o senhor fizer, eu resolvo um desses seus... probleminhas. E, para ser justo, eu pago uma pequena prenda cada vez que eu perder. O que me diz? 

Hebert parou de se debater, ofegante. Qualquer coisa era melhor que aquela agonia sem sentido. 

— Sim, eu aceito! Qualquer coisa! — respondeu, a voz embargada. 

— Excelente. Então vamos ao primeiro jogo — disse o homem, juntando as mãos na frente do corpo. — A escolha é clássica: Verdade ou Desafio? 

Hebert não hesitou. A verdade parecia mais segura, menos física. 

— Verdade, pelo amor de Deus! 

— Certo, então. Sem problemas — o homem empurrou os óculos para cima no nariz. — A pergunta é bem simples: qual foi a coisa mais cruel que você já fez? 

Hebert hesitou. A pergunta o atingiu inesperadamente. Como ele poderia saber? Como o sequestrador saberia que ele daria a "resposta certa"? A pergunta não era sobre a verdade dele, mas sobre a verdade que o sequestrador queria ouvir. Era uma armadilha. Ele vasculhou a memória em busca de algo, qualquer coisa que pudesse satisfazer aquele monstro. Então, arriscou. 

— Uma vez... — começou, a voz trêmula. — Na faculdade. Eu... eu deixei um nerd pelado e o tranquei em um dos armários de limpeza. Deixei ele a noite inteira lá. 

O sorriso sutil desapareceu do rosto do homem. Sua expressão se fechou, tornando-se uma máscara de fria desaprovação. Sem dizer uma palavra, ele se virou e caminhou em direção ao fundo da sala escura, seus passos pesados tocando o chão molhado. Hebert o seguiu com os olhos, o coração disparado, ansioso por saber se havia dado a resposta certa. 

O homem voltou, segurando um martelo. A ferramenta era comum, de cabo de madeira e cabeça de metal, mas naquele ambiente, sob aquela luz, parecia um instrumento de execução. 

Ao ver a arma, o pânico tomou conta de Hebert novamente. 

— Não! Espera! Foi só uma brincadeira... uma piada de faculdade! — ele gritou, a voz esganiçada. — Eu não queria fazer mal a ninguém... por favor... 

O sequestrador o ignorou completamente. Ajoelhou-se ao lado do pé de Hebert, que estava preso à cadeira. Ele ergueu o martelo. 

O golpe desceu, violento e preciso, sobre o dedão do pé direito de Hebert. 

O som foi seco, uma mistura de metal contra osso e carne. A dor explodiu pela perna de Hebert como fogo líquido. Ele se balançou violentamente na cadeira, o corpo convulsionando em um espasmo de agonia. O choro, que antes era de desespero, agora era um uivo agudo e incontrolável de dor física. 

— ERRADO! — gritou ele, a voz calma substituída por um berro. — Não era a resposta correta! 

Ele caminhou de um lado para o outro, respirando fundo, como se tentasse controlar a própria raiva. Então parou e olhou para Hebert, que ainda soluçava de dor. 

Continua amanhã, dia 09/02.


Gustavo Coelho, natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação. É coautor de Crisântemo.

7 de fev. de 2026

Psicopatia (Parte 1)

Por Gustavo Coelho 

Bip... bip... bip. Um ritmo constante, metálico. E o outro som: ploc... ploc..., irregular, o som de água caindo em água, ecoando em um espaço que parecia vasto e vazio. Esses eram os únicos guias no breu que o envolviam. O ar estava carregado com um cheiro de mofo, de porão esquecido, de um solo que nunca via o sol. A umidade grudava em sua pele nua, e o frio da cadeira estranha em que estava sentado subia por sua espinha. 

Ele estava preso. Sem roupas. As mãos, amarradas para trás, formigavam. Os seus pés, firmemente atados à base da cadeira. Uma venda apertava seus olhos, roubando-lhe sua orientação. Pelo eco, não havia muitos móveis, sentia apenas o chão encharcado sob a cadeira. Era um nada, um verdadeiro vácuo.

Abriu a boca para perguntar, para gritar por socorro, para implorar. Mas o som morreu em sua garganta, engolido pelo silêncio opressor do lugar. Nada além do bip de uma máquina de suporte médico e o ploc do gotejamento implacável. 

Em sua desorientação, ele de repente sentiu: não um som, mas uma sensação. Houve um estalo que percorreu seu corpo como um raio, uma onda de dor aguda que irrompeu no centro de sua coluna e disparou por cada nervo, cada músculo. Seu corpo se arqueou, os dentes se cerraram com uma força inatural. A mandíbula travou com tanta pressão que ele ouviu o trincar de um de seus dentes. 

Tão rápido quanto veio, a dor cessou. O seu corpo amoleceu, pendendo nas amarras. O choque da ausência da dor foi quase tão brutal quanto a dor em si. Então, ele chorou. Desesperado, gutural. Um choro de quem perdeu o controle, empurrado para além de qualquer limite. 

Em meio aos seus soluços, sentiu mãos em sua nuca. Não eram agressivas, mas firmes, metódicas. A venda foi desatada e puxada de seu rosto. 

A luz de uma única luminária, focada nele, o cegou. Ele piscou, os olhos ardendo, tentando se ajustar. Quando a imagem finalmente ganhou foco, ele viu a figura parada à sua frente. Não era um monstro ou um carrasco mascarado. Era um homem comum. 

Obeso, na casa dos seus quarenta e oito anos, vestia-se como se tivesse acabado de sair de um escritório. Camisa social bem passada, calça social vincada, suspensórios que esticavam sobre a barriga proeminente, uma gravata e óculos de grau de aros finos. Um senhor de meia-idade que, se passasse por ele na rua, não levantaria a menor suspeita. 

O homem à sua frente não dizia nada. Seus olhos, ampliados pelos óculos, apenas o observavam chorar, com a mesma curiosidade de um cientista analisando uma cobaia. Ele levantou a mão, para que o objeto que segurava ficasse perceptível. Ele usou o polegar para girar, cuidadosamente, um pequeno atuador no dispositivo. 

Sua dor voltou, só que desta vez não como um estalo. Uma onda crescente, uma agonia zumbia em cada veia de seu corpo, intensificando-se a cada respiração. O bip do monitor cardíaco começou a acelerar em um alarme cada vez mais agudo que rapidamente encheu a sala. Sua mandíbula se contraiu com tanta violência que ele sentiu o gosto quente e metálico de sangue. 

Até que, no auge do sofrimento, a dor cessou novamente. O silêncio e o bip frenético eram tudo o que restava. 

— Para... Por favor, para... — implorou, a voz embargada pelos soluços e pela dor. — Eu não fiz nada... Eu juro... Eu não conto pra ninguém, só me deixa ir embora... Por favor... 

O homem sorriu, não um sorriso largo, mas um pequeno curvar dos lábios, um tremor de satisfação que não chegava aos seus olhos frios. Sentia um prazer quase imperceptível, puro, que derivava de assistir à agonia do outro. 

Foi quando isso o atingiu: a certeza. Não havia motivo, e não havia crime. Ali estava um verdadeiro psicopata, alguém que o havia capturado por diversão. Seu cérebro girou, procurando uma maneira de sair, analisando as algemas, o espaço, uma fraqueza no esquema daquele homem. 

Mas o homem caminhou até um canto escuro da sala e puxou um pano que cobria uma pequena mesa. Sobre ela, um aparelho com uma tela esverdeada exibia uma linha irregular e pulsante. Ele virou a tela em sua direção. Era o monitor cardíaco. A linha que dançava na tela era o seu próprio coração em pânico. 

Entendeu que o monitor não estava ali para garantir sua sobrevivência. Estava ali como parte do jogo. Sentiu que algo terrível, e muito bem planejado, iria acontecer. 

Ele se aproximou, o sorriso satisfeito ainda pairando em seus lábios. Se aproximou em passos lentos e pesados, parando ao lado da cadeira e, com uma calma que arrepiava, perguntou com uma polidez cruel: 

— Está confortável? 

Sem se preocupar com a resposta, ele estendeu a mão e pegou um objeto metálico que estava pendurado ao lado da cadeira. Tinha o formato de uma pera, era feito de um aço escuro e estava conectado a uma espécie de mangueira hidráulica preta e flexível. Ele o segurou diante do rosto do prisioneiro, como quem apresenta uma joia rara, e começou a explicar: 

— Você conhece a Pera da Angústia? É conhecida, também, como pera de estrangulamento. Foi inventada no início do período moderno. É um dispositivo em forma de pera, dividido em segmentos. Como versão moderna, a expansão é controlada por pistões hidráulicos silenciosos, acionados remotamente. Uma vez inserido na boca ou, como gosto pessoal, em outro orifício corporal, a força hidráulica abre os segmentos de forma gradual ou súbita, causando mutilação interna. 

O prisioneiro começou a se debater na cadeira, o pânico tomando o lugar da dor que sentira até então. 

— Não... Por favor... Você pegou o cara errado! — implorou, as lágrimas e o suor se misturando em seu rosto. — Eu juro, eu não fiz nada pra você! 

Em meio às súplicas desesperadas, o torturador o interrompeu com uma pergunta simples. 

— Seu nome é Hebert, não é? 

O prisioneiro parou de se debater. O corpo inteiro congelou ao ouvir seu nome naquele lugar, vindo daquela boca. A última faísca de esperança de que aquilo fosse um engano se apagou. Ele começou a chorar de uma forma diferente agora, um choro baixo, de derrota, balançando a cabeça em um espasmo de negação e terror.


Continua amanhã, dia 08/02.


Gustavo Coelho, natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação. É coautor de Crisântemo.

5 de fev. de 2026

sacerdócio, de whisner fraga



Whisner Fraga é mineiro de Ituiutaba. Autor dos livros usufruto de demônios (Ofícios Terrestres, contos, 2022, finalista do Prêmio Jabuti), usufruto de ruínas (Ofícios Terrestres, contos, 2023), as fomes inaugurais (Sinete, contos, 2024), entre outros. Teve contos traduzidos para o inglês, árabe e alemão. É responsável pelo canal “Acontece nos livros”, no YouTube, em que fala sobre obras da literatura brasileira. 

4 de fev. de 2026

Quem é Rogers Silva na fila do pão?

A identidade literária de Rogers Silva não pode ser dissociada de sua origem no bairro Alvorada, em Uberlândia, Minas Gerais. Sua trajetória é marcada por uma transição significativa da sobrevivência econômica para o rigor da academia. Durante sua juventude, Rogers atuou como vendedor de pamonha, laranjinha (geladinho), sorvete, pastel, uma experiência que ele descreve como fundante para sua percepção da realidade urbana e das dinâmicas sociais. Esta vivência na periferia urbana de Uberlândia forneceu-lhe uma "biblioteca de vivências" que, anos mais tarde, seria transmutada em ficção.

A educação de Rogers deu-se integralmente em instituições públicas, com destaque para a Escola Estadual Lourdes de Carvalho, do Bairro Alvorada, Uberlândia/MG. Um ponto de inflexão crucial em sua jornada foi o início tardio da leitura literária. Diferente de muitos escritores que crescem cercados por livros, ele só teve seu primeiro contato profundo com a literatura aos 18 anos, impulsionado pela necessidade de preparação para o vestibular de Letras na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Esse encontro tardio com autores como Machado de Assis, Lygia Fagundes Telles e Carlos Drummond de Andrade não foi um impedimento, mas sim um catalisador de um interesse voraz que o levou a se dedicar tanto à escrita de ficção quanto à escrita de textos acadêmicos sobre literatura. 

O percurso acadêmico de Rogers Silva influenciou diretamente sua produção criativa. Entre 2013 e 2021, ele viveu um hiato na ficção para dedicar-se à escrita técnica e acadêmica, produzindo resenhas, artigos, tese, etc. Este período de silêncio criativo ficcional foi, na verdade, um momento de maturação estilística. O estudo profundo de Carlos Drummond de Andrade, tema de seu doutorado, permitiu-lhe compreender a mecânica da poesia e da prosa curta, influenciando a densidade e a precisão de seus novos textos. 

Quer conhecer um pouco mais sobre Rogers Silva, escritor e colunista d’O Bule? Acesse o Vozes do Cerrado!


28 de jan. de 2026

Três poemas de Ana Yanca

 

Na manhã tântrica  
línguas babilônicas
serpenteiam fluídas
sorvendo leite da carne
no corpo solar

Na manhã tântrica
uma dança xamânica
germina no ventre do signo

partejo fábulas corcéis labirintos

Flâmulas vibram espasmos
entorno da ânsia: o grito

Serpente dourada protege
a manjedoura do filho

 Urge e fulgura

na parede da casa
a memória urtigada dos sentidos


*

Contorcia a língua
no ventre do silêncio
para entreabrir a palavra
em ritmo de alaúde
em mantra ou mandarim

o corpo perfumado em chá branco
poros em flor vestidos de luz
delineando contornos
que a penumbra produz

do corpo solar emerge
o sopro que me anima
a vívida aurora íntima 

olho para o alto
pássaros na bruma da manhã
atravessam-me
cada gesto é frágil
e carrega o peso do mundo

há que se ter coragem para ser

*

Espero na sombra
uma palavra que
se despregue
das paredes
do poema
e me atinja
como sol
dinamitado

espero a vida ávida
da palavra-lâmina-lamparina
lacerando a carne
bifurcando a língua
e fotografe o tempo

esse agoraprolongado
daqui da sombra
vejo a fosforescência:
germina um corsário

Ana Yanca, natural de Porto Velho, atua como professora na área de linguagens. É graduada em Letras, Pós-graduada em Filosofia Contemporânea, Mestra em Estudos Literários e autora da obra Do corpo ao espaço em Hilda Hilst. Outros poemas, além das colagens digitais, estão disponíveis em meios impressos e virtuais.

27 de jan. de 2026

Poemas de Marcelo Benini do livro "Poemas do núcleo rural"


Retrato com abelha no cabelo

Escrevo o lado oposto de quem me lê
Nunca pensei ser compreendido
Senão por passarinhos e saguis
As frutas me ajudaram mais que os
Dicionários de verbos e regimes 
E as gramáticas
As palavras com as quais me importo
Ciscam
O vento que escrevo está nas folhas
Dos buritis
Só faço versos que têm sopro
No coração.


Terra sem males

Todas as palavras rudes
Formam as montanhas que foi um dia
Minas Gerais

Toda máquina renasce
No contingente ser das máquinas

Todo o embaraço humano
Ignorado pelos gatos 
Todo vazio entre átomos
Tudo que se rompeu
Fios, barragens, amores
Tratados

Restos de construções gramaticais
Anais das instituições
A promessa de vir e não vir

Vidas em corpos arrestados
Presos a esse imenso vazio
Que desmatamos
As cidades são pastos cinzas
Sem onças

Apanha-se a vida no chão
Até que haja o consenso de que todo pasto
É cinza

Fica mesmo é um mato
Um imenso
De precários rebocos.


Poemas apanhados do chão na estrada do núcleo rural 

Nasceu a flor no homem
A chuva demora
A formiga corta
O mato abafa   
A mão arranca a tentativa
De flor no homem.

****

Tudo que alcanço
É um cata-vento sem Deus
Um mundo mecânico
De pá e vento.  

****

Quem é meu pai
Quem é minha mãe
Quem são meus irmãos
Ossos que visito
Arrependimentos
Pratos sobre a pia
Quem é esse silêncio
Que assoma 
Na manhã inventariada?

****

Amor é o gosto por livros
Com prefácios equivocados.

****

De grunhidos
Faremos um mundo
E com gritos -
Neste uso
De urros -
Linguagem
Gramática
E normas
Cultas.

****

Se acabarem os passarinhos
Como farás os poemas
Terás que falar apenas das árvores
Mas as árvores secam no
Abandono dos passarinhos
Os rios sem as árvores vão embora
As flores desistem
Acabaram os passarinhos.


Lamentações do doutor Fausto

Um diabinho pousou no galho mais alto do ipê
Prometeu-me dez minutos de felicidade
E começou a cantar, cantar e cantar
Em troca de minha alma.


* Retirados de Poemas do Núcleo Rural (2022, Penalux).


Marcelo Benini é poeta e ambientalista, nascido em 1970, em Cataguases - Minas Gerais. Publicou O Capim Sobre o Coleiro (poesia/2010/edição do autor); O Homem Interdito (crônica/2012/Intermeios); Fazenda de Cacos (poesia/2014/Intermeios); Currais Concretos (poesia/2018/Intermeios); Poemas do Núcleo Rural (poesia/2022/Penalux). Em 2013 foi incluído na antologia de autores brasileiros Wir sind bereit, publicada na Alemanha. Vive em uma área rural próxima a Brasília-DF. Instagram: @marcelobeninipoemas

26 de jan. de 2026

A Editora Merda na Mão acaba de parir mais um livro, e sem anestesia!


Eis que a Editora Merda na Mão acaba de parir mais um livro, e sem anestesia: Coração enrolado em arame farpado & outras tretas rolandode Gutemberg F. Loki. 

Aqui não tem delicadeza ornamental nem poesia de vitrine.
É poesia de asfalto, escrita com o corpo em risco, o dente rangendo e o ouvido colado no ruído da cidade. Gutemberg F. Loki, poeta independente e vocalista da banda Leptospnoise, despeja no papel a mesma fúria do noise punk e do hardcore sujo. O amor falha, a cidade esmaga, o tempo cobra juros altos e não aceita parcelamento.
 

Os poemas escorrem como um blues torto, atravessados por sirenes, concreto rachado e urgência política. Nada aqui é simbólico demais: tudo foi vivido. Os versos parecem nascer entre um gole e outro, sem promessa de salvação, sem final feliz, sem perdão. É livro de quem anda no acostamento, sangra, mas segue em frente. 

Literatura marginal, direta, sem pedido de desculpa.

Palavra distorcida como guitarra no talo.

Editora Merda na Mão em estado bruto. 

Mais uma publicação pra quem ainda acredita que poesia não serve pra confortar — serve pra cutucar, ferir e manter acordado. 

Quem quiser colocar as mãos nessa obra pode adquirir o livro no link abaixo. A compra é simples, direta, e o exemplar chega certinho na sua casa:
https://loja.uiclap.com/titulo/ua140101/
 

* Agradecimentos a Fabio da Silva Barbosa, por conectar Gutemberg à Editora Merda na Mão e acender esse encontro. E, sobretudo, a Lívia Batista — sem sua força, sensibilidade e trabalho incansável, este livro não teria atravessado a ideia para existir no mundo. Gratidão pela confiança, pela paciência e pela parceria em todo o processo. 

 

Ficha técnica:
 
Título: Coração enrolado em arame farpado & outras tretas rolando
Autor:  Gutemberg F. Loki
Dimensões: 13,9 × 21 × 0,38 cm
Páginas: 56
Miolo: Papel Avena / Pólen
Capa: Fosco, com orelha
Diagramação e designer: Lívia Batista
Arte da capa e ilustrações: Diego El Khouri
Ano: 2025

24 de jan. de 2026

Sussurros



Por Allyne Fiorentino 

Tenho teorias absurdas sobre ecos. Eles sussurram em meus ouvidos, reclamando que já haviam sido ditos e só estão retornando para lembrar que somos surdos, embora toda a nossa vida seja movida a hálitos. Há um milhão de vozes suspirando ao nosso redor, contando nossa história, como menestréis. Desde ordinárias coisas até eventos grandiosos e traumáticos. Você não ouve, mas se prestar atenção direitinho... 

Há muitos anos eu ouvi sobre ausentar-se pela primeira vez. Naquele dia, ela disse, e eu lembro de prestar muita atenção: ser adulto é saber lidar com a distância. Não havia motivo nenhum para que isso me consternasse naquela época — eu vivia com a minha família e meu desejo ainda se concentrava em furar a membrana do útero que, aos nos tornarmos adultos, vira prisão. 

Mas aquilo me tocou: ela, vinda de outra cidade para nos dar aulas, tinha, claro, abdicado do convívio com a sua família para seguir sua carreira. E com a frieza típica das mulheres fortes — sem emoção nos olhos, mas com pausas um pouco mais alongadas — ela falava sobre a avó e o tempo de “não convívio”. Nós abdicamos de um tempo para construir outros tempos. Ser adulto é isso: tomar as rédeas do tempo que te resta. 

A sala estava cheia. Ela falava tudo aquilo para mim, sem saber. Eu escutava atenta, também sem saber que aquilo era para mim. Eram os sussurros do tempo dela soprando o tempo que eu deveria deixar. Naquela época a voz era vaticínio. Hoje, narradora. Vejo meus pés caminhando e aqueles ecos formando a trilha sonora, repetindo, “eu já estava lá”. Não acredito que nosso destino esteja selado, mas que ele é produzido com muita antecedência. Nossa vida é sopro tão curto que muitos fecharão seus olhos sem se dar conta disso. 

Ausentar-se ou morrer, reflete Sóror Juana... O que dói mais? O que é mais sublime? Longe do que é nosso, o tempo dá sinais mais fortes: a criança que cresce mais rápido, os cabelos que se agrisalham sem você ver, as rugas que desfiguram a imagem da mãe que você guardou. No seu rosto talvez notem a solidão, mas esta você guarda às setes chaves para poupar os outros de dores que eles não devem sentir. Mas e se você não se ausentasse? E se permanecesse ali? E se fechasse a janela para não soprarem sua vida? Ventos e vozes cessariam no seu deserto e ao se despedirem diriam que os hálitos do passado não podem ser engarrafados, cativos. A única maneira de mantê-los vivos é criando memória... ausentando-se.


Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais, mas reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia. Atua em Tecnologia da Educação. Apaixonada por Literatura Feminina, Simbolismo, Filosofia e excentricidades. Low profile do mundo literário, escreve pouco, mas, acredite, incisivamente. Está também em Crônica do Dia. Instagram: @fiorentinoallyne.

22 de jan. de 2026

O Vozes do Cerrado mergulhou nos abismos da alma e na potência da arte!

Crisântemo, de Rogers Silva e Gustavo Coelho, é o ponto de partida para um bate-papo sobre como a literatura e o rock se fundem para narrar a superação de traumas e a busca pela sanidade. 

Mergulhe fundo nessa "sinfonia existencial" e descubra como a escrita pode ser um refúgio para o luto traumático de Carlos, o protagonista, que transforma o silêncio em um grande ruído e se apoia na arte para processar essa dor. 

Descubra: 

  • a estrutura diferentona da obra, onde cada capítulo é batizado com um clássico do rock, de Alice in Chains a Legião Urbana;
  • o funcionamento da escrita a quatro mãos: Rogers, doutor em Estudos Literários, e Gustavo, apaixonado pela cultura Geek e designer da capa, revelam como foi o processo criativo compartilhado dessa narrativa impactante;
  • como as letras das músicas espelham o estado mental do personagem e criam uma verdadeira playlist emocional para o leitor. 

É uma conversa fundamental sobre saúde mental, o poder da amizade e a força da literatura produzida no Brasil! 

Se você perdeu essa conversa ou quer rever cada detalhe, o episódio completo já está disponível no Youtube:




Para obter o e-book de Crisântemo, clique AQUI!

21 de jan. de 2026

Nel Mezzo del Camin tinha uma cidade


Por Milton Rezende
 
Nel Mezzo del Camin (*)
 
À beira de um córrego frio
um habitante fabrica gaiolas:
de pau e arame,
de pau e taquara,
de talo e de cana-do-reino.
 
Na porteira chega uma visita
e ele está ali na tapera:
fatigado, doente, desanimado,
alinhavando projetos frustrados
e comendo pão com diabo amassado.
 
A presença que chega o estimula
e ele volta a sonhar com o tempo,
até acordar do seu sonho e vendo
“o teu vulto que desaparece na
extrema curva do caminho extremo”.

________________________
(*) Olavo Bilac (1865-1918)
 
Do livro Uma Escada que Deságua no Silêncio.

 
Nos limites da cidade
 
Na umidade das pedras
que configuram o fim da rua,
eu deixo a cidade com suas luzes
e embrenho-me no seu depósito de restos
batido pelo silêncio e o desdém dos vivos.
 
Atravesso com passos rápidos
os últimos vestígios onde se respira
e concentra a massa indistinta de seres
que comem carne e habitam em casas para
gerar filhos que conferem um breve hiato
ao fim da espécie que apodrece sob o barro.
 
Minhas botas estalam nas pedras
como o casco de um animal inútil,
e os últimos postes de luz elétrica
escarnecem o meu propósito de deixá-los
para além de sua tarefa de apaziguar
os homens em seu conforto precário.
 
Olho para os lados para certificar-me
de que estou sozinho e então salto sobre
o muro de grades onde repousam os homens
que também comiam carne e geravam os filhos
de uma espécie da qual já não fazem parte.
 
Aqui foram deixados todos aqueles
que um dia não comeram carne e se tornaram inúteis.
E estão esquecidos aqui aonde venho encontrá-los
com seus semblantes de velhos idiotas que acreditavam.
 
Percorro os túmulos que abrigam os mortos
e me detenho nos epitáfios deixados
por parentes que na cidade desprezam estes restos
só pela lembrança de um dia já os terem beijado
na volúpia da carne que agora fede.
 
Antes de deixar o cemitério
e os despojos de carne mal digerida
desses cadáveres abandonados,
eu toco com minhas mãos sem luvas
a massa liquefeita de seus corpos.

Depois volto para a cidade
e acaricio os rostos dos filhos
com o excremento fétido de seus pais,
para que eles ainda sem sintam membros
de uma mesma adorável família putrefeita.
 
Do livro Areia (À Fragmentação da Pedra).
 
 

Milton Rezende, poeta e escritor, nasceu em Ervália (MG), em 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF, depois morou e trabalhou em Varginha (MG). Funcionário público aposentado, morou em Campinas (SP), Ervália (MG) e retornou a Campinas (SP). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de quinze livros publicados e quatro e-books. Tem um site e um blog. 

Fortuna crítica: “Tempo de Poesia: Intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende”, de Maria José Rezende Campos (Penalux, 2015).