Por Gustavo Coelho
Bip... bip... bip. Um ritmo constante, metálico. E o outro som: ploc... ploc..., irregular, o som de água caindo em água, ecoando em um espaço que parecia vasto e vazio. Esses eram os únicos guias no breu que o envolviam. O ar estava carregado com um cheiro de mofo, de porão esquecido, de um solo que nunca via o sol. A umidade grudava em sua pele nua, e o frio da cadeira estranha em que estava sentado subia por sua espinha.
Ele estava preso. Sem roupas. As mãos, amarradas para trás, formigavam. Os seus pés, firmemente atados à base da cadeira. Uma venda apertava seus olhos, roubando-lhe sua orientação. Pelo eco, não havia muitos móveis, sentia apenas o chão encharcado sob a cadeira. Era um nada, um verdadeiro vácuo.
Abriu a boca para perguntar, para gritar por socorro, para implorar. Mas o som morreu em sua garganta, engolido pelo silêncio opressor do lugar. Nada além do bip de uma máquina de suporte médico e o ploc do gotejamento implacável.
Em sua desorientação, ele de repente sentiu: não um som, mas uma sensação. Houve um estalo que percorreu seu corpo como um raio, uma onda de dor aguda que irrompeu no centro de sua coluna e disparou por cada nervo, cada músculo. Seu corpo se arqueou, os dentes se cerraram com uma força inatural. A mandíbula travou com tanta pressão que ele ouviu o trincar de um de seus dentes.
Tão rápido quanto veio, a dor cessou. O seu corpo amoleceu, pendendo nas amarras. O choque da ausência da dor foi quase tão brutal quanto a dor em si. Então, ele chorou. Desesperado, gutural. Um choro de quem perdeu o controle, empurrado para além de qualquer limite.
Em meio aos seus soluços, sentiu mãos em sua nuca. Não eram agressivas, mas firmes, metódicas. A venda foi desatada e puxada de seu rosto.
A luz de uma única luminária, focada nele, o cegou. Ele piscou, os olhos ardendo, tentando se ajustar. Quando a imagem finalmente ganhou foco, ele viu a figura parada à sua frente. Não era um monstro ou um carrasco mascarado. Era um homem comum.
Obeso, na casa dos seus quarenta e oito anos, vestia-se como se tivesse acabado de sair de um escritório. Camisa social bem passada, calça social vincada, suspensórios que esticavam sobre a barriga proeminente, uma gravata e óculos de grau de aros finos. Um senhor de meia-idade que, se passasse por ele na rua, não levantaria a menor suspeita.
O homem à sua frente não dizia nada. Seus olhos, ampliados pelos óculos, apenas o observavam chorar, com a mesma curiosidade de um cientista analisando uma cobaia. Ele levantou a mão, para que o objeto que segurava ficasse perceptível. Ele usou o polegar para girar, cuidadosamente, um pequeno atuador no dispositivo.
Sua dor voltou, só que desta vez não como um estalo. Uma onda crescente, uma agonia zumbia em cada veia de seu corpo, intensificando-se a cada respiração. O bip do monitor cardíaco começou a acelerar em um alarme cada vez mais agudo que rapidamente encheu a sala. Sua mandíbula se contraiu com tanta violência que ele sentiu o gosto quente e metálico de sangue.
Até que, no auge do sofrimento, a dor cessou novamente. O silêncio e o bip frenético eram tudo o que restava.
— Para... Por favor, para... — implorou, a voz embargada pelos soluços e pela dor. — Eu não fiz nada... Eu juro... Eu não conto pra ninguém, só me deixa ir embora... Por favor...
O homem sorriu, não um sorriso largo, mas um pequeno curvar dos lábios, um tremor de satisfação que não chegava aos seus olhos frios. Sentia um prazer quase imperceptível, puro, que derivava de assistir à agonia do outro.
Foi quando isso o atingiu: a certeza. Não havia motivo, e não havia crime. Ali estava um verdadeiro psicopata, alguém que o havia capturado por diversão. Seu cérebro girou, procurando uma maneira de sair, analisando as algemas, o espaço, uma fraqueza no esquema daquele homem.
Mas o homem caminhou até um canto escuro da sala e puxou um pano que cobria uma pequena mesa. Sobre ela, um aparelho com uma tela esverdeada exibia uma linha irregular e pulsante. Ele virou a tela em sua direção. Era o monitor cardíaco. A linha que dançava na tela era o seu próprio coração em pânico.
Entendeu que o monitor não estava ali para garantir sua sobrevivência. Estava ali como parte do jogo. Sentiu que algo terrível, e muito bem planejado, iria acontecer.
Ele se aproximou, o sorriso satisfeito ainda pairando em seus lábios. Se aproximou em passos lentos e pesados, parando ao lado da cadeira e, com uma calma que arrepiava, perguntou com uma polidez cruel:
— Está confortável?
Sem se preocupar com a resposta, ele estendeu a mão e pegou um objeto metálico que estava pendurado ao lado da cadeira. Tinha o formato de uma pera, era feito de um aço escuro e estava conectado a uma espécie de mangueira hidráulica preta e flexível. Ele o segurou diante do rosto do prisioneiro, como quem apresenta uma joia rara, e começou a explicar:
— Você conhece a Pera da Angústia? É conhecida, também, como pera de estrangulamento. Foi inventada no início do período moderno. É um dispositivo em forma de pera, dividido em segmentos. Como versão moderna, a expansão é controlada por pistões hidráulicos silenciosos, acionados remotamente. Uma vez inserido na boca ou, como gosto pessoal, em outro orifício corporal, a força hidráulica abre os segmentos de forma gradual ou súbita, causando mutilação interna.
O prisioneiro começou a se debater na cadeira, o pânico tomando o lugar da dor que sentira até então.
— Não... Por favor... Você pegou o cara errado! — implorou, as lágrimas e o suor se misturando em seu rosto. — Eu juro, eu não fiz nada pra você!
Em meio às súplicas desesperadas, o torturador o interrompeu com uma pergunta simples.
— Seu nome é Hebert, não é?
O prisioneiro parou de se debater. O corpo inteiro congelou ao ouvir seu nome naquele lugar, vindo daquela boca. A última faísca de esperança de que aquilo fosse um engano se apagou. Ele começou a chorar de uma forma diferente agora, um choro baixo, de derrota, balançando a cabeça em um espasmo de negação e terror.
Continua amanhã, dia 08/02.
Gustavo
Coelho,
natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação
Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado
pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do
anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da
Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação. É coautor de Crisântemo.


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