Por
Krishnamurti Góes dos Anjos
A leitura de “Todos os
cantos de Eros” (contos), livro de estreia da escritora paulista Anna Kroiss, nos faz
lembrar, em boa medida, de uma citação do escritor norte-americano Nathaniel
Hawthorne (1804-1964): "Benditas são as emoções simples, sejam elas vivas
ou sombrias! É a mistura lúgubre de ambas que produz a explosão das regiões
infernais." Como se vê, Hawthorne celebra a intensidade das emoções
humanas, sejam elas alegres (vivas) ou tristes (sombrias), valoriza tanto a
felicidade quanto a tristeza genuínas, sem disfarces ou complicações, mas
também alerta que a mistura dessas emoções, especialmente com a preponderância
da "lúgubre" (sombria, fúnebre, macabra) sobre a "viva",
gera uma força destrutiva, uma "explosão", o que remete à
complexidade da alma humana. O perigo reside na combinação dessas emoções em
atrito, gerando conflitos internos intensos, paixões avassaladoras ou até mesmo
a autodestruição.
Os 11 contos reunidos no volume apresentam personagens e
situações existenciais aflitivas nas quais se evidencia a profundidade
psicológica da humanidade e suas interfaces com o desejo, a passagem do tempo,
a finitude da vida, dentro de enfoques que envolvem moralidade, culpa, solidão
e pecado, explorando não somente regiões obscuras, mas também as belezas da
psique humana. Aproximemos mais a lupa...
“Todos os cantos de
Eros” traz já no seu título o substantivo próprio que nomeia o deus grego do amor e do desejo,
associado pelo senso comum ao amor apaixonado, com desejo e atração sensual,
vulgarmente conhecido, em nosso mundo super hedonista, simplesmente como
“tesão”, ou seja, forte desejo ou excitação sexual. Mas nem todos fazem tal
ligação simplista, vulgar e obscena com o deus grego que os romanos conheciam
como Cupido.
Tal personagem vem sendo estudado desde a filosofia (lá de
Platão, uns quatrocentos anos A.C.) até a psicologia de Sigmund Freud
(1856-1939) e Carl Gustav Jung (1875-1961). E o mito foi, aos poucos,
transformando seu caráter. Aquele serzinho inescrupuloso munido de arco e
flecha a alvejar corações incautos, ganhou afinal outros atributos mais
condizentes com a razão, se é que podemos falar em razão nessa seara do
sentimento humano. Algo mais compreensível, digamos. Eros, à luz da psicanálise,
atualmente é entendido como um sentido de energia vital em geral, integradora
da psique. Constitui-se, em última análise, num desejo de totalidade e, embora
possa inicialmente assumir a forma de amor apaixonado, é mais verdadeiramente
um desejo de "parentesco psíquico", um desejo de interconexão e
interação com outros seres sencientes (que percebem pelos sentidos). Não é mais
e exclusivamente o desejo sexual, mas nossa força vital, a vontade de viver e
de amar. Desejo de criar vida e favorecer a produtividade e a construção.
Freud avança inclusive um pouco mais, afirmando que o
propósito de Eros é reunir indivíduos isolados em uma única grande unidade, a
humanidade. Para isso, os homens devem estar libidinalmente ligados entre si,
ainda que a natural agressividade do homem, representante de sua pulsão de
morte, se oponha a esse programa da civilização. Eros corresponde à pulsão de
vida e divide o domínio do mundo com Thanatos, representante da pulsão de
morte. E é na tensão entre ambas as pulsões que se constitui a espécie humana,
cujo principal objetivo é encontrar a felicidade. Na busca da satisfação desse
objetivo, podemos ter esperança de nos libertar de pelo menos uma parte de
nossos sofrimentos, agindo sobre nossas pulsões. Nesse processo estão os
deslocamentos de libido reorientando os objetivos pulsionais de tal forma que
evitem a frustração do mundo externo com a participação de um processo de
sublimação.
No discurso literário proposto por Anna Kroiss residem
preciosidades que, ao buscarem expressão, encontram seu caminho feito de
brechas por metáforas ou, então, seguem vias que deslizam por metonímias,
exibindo significantes que constituem
rotas sem um fim previsível. A literatura de Kroiss é marcada por uma linguagem
minimalista, às vezes repetitiva, que reduz a trama ao mínimo, e foca no ritmo,
e em calculadas pausas que exploram o indizível e a psique humana com
intimidade e profundidade psicológica, criando atmosferas ora oníricas, ora
existenciais e melancólicas, mesclada com fluxos narrativos que brincam com o
tempo, dando voz ao inconsciente e a sentimentos como solidão e angústia.
No conto que abre o volume, “O
casamento de Isabel” (esse texto traz logo abaixo do título apenas um
indicativo sociológico muito claro. A datação de 1923. Data em que se passa a
narrativa), a família de Isabel arranja-lhe um casamento com um rapaz tido e
havido como bom moço, excelente criação, boa família, etc. A mocinha dele só
conhece de “ouvir dizer” e de duas fotos, em uma das quais o sujeito é
fotografado em um baile de carnaval usando uma máscara que lhe encobria metade
do rosto. “Uma máscara mostrando um nariz comprido e pontudo, como dos
personagens maliciosos do teatro.” Durante o curto namoro/noivado Isabel tem lá
uma oportunidade de estar a sós com o pretendente — e observe-se o poder de
sugestão da autora, impresso em apenas 4 frases curtas:
Era o olhar de algo que Isabel ainda
não conhecia.
Não era bom.
Não era para o bem.
Foi embora junto do irmão.
Essas curtas frases dão ao leitor a percepção,
com uma ponta de calafrio, que a violência e amargura iriam descer ali. O
ocorrido acima, ante os preparativos e expectativas sonhadoras do casamento
próximo, acabou sendo relegado a um mero mal-entendido e finalmente ao
esquecimento, até que se deu o casamento. A noite de núpcias foi de completa
desgraça onde prevaleceu a monstruosidade da tara machista que nada tem de
amor.
A este conto, segue-se
outro de urdidura exemplar, “Ele vinha pelo corredor” (também com
datação de 1975 e localização em Oklahoma). Temos aí um foco narrativo que se
volta para a morte acidental de um homem por afogamento em um lago. A jovem
viúva padece de uma indizível tristeza, uma melancolia pungente que por uns
dias provocam insônia, choros, gritos. Mas o tempo passa inexorável, a dor
imensa da perda se arrefece um pouco, mas não se conforma, até que um dia...
Eis que ele aparece na calada da noite para estar ali “naquela cama ao seu
lado, a acordando com beijos”.
Estamos diante de uma
narrativa que convoca o fantástico em suas oscilações entre o racional e o
sobrenatural, impondo ao leitor uma hesitação entre o real e o irreal, sendo o
limiar entre esses dois mundos o ponto central da narrativa. (À propósito do fantástico
e do maravilhoso, nessa autora, o leitor deve ler com redobrada atenção os
contos “Um pássaro” e “O cordeiro honesto”, que não comentaremos aqui por
razões óbvias de espaço que comporta uma resenha). Em “Ele vinha pelo
corredor”, lemos a agonia pungente e dilacerante da solidão daquela mulher
amorosa e sua terminante recusa na aceitação da morte, essa condição de nosso existir
e que nos remete ao desamparo e a um tal confronto com a finitude da vida que
certas mentes não a aceitam a um ponto tal de engendrarem delírios que
definitivamente atiram-na à mais franca loucura.
Anna Kroiss mostra fazer parte daquela rara galeria de
escritores que criam com o que resta, aproximam-se do traumático, confrontam-se
com as pulsões, tangenciam limites e buscam forjar novos sentidos com as
palavras e os afetos.
É no ambíguo chiaroscuro
da natureza humana que vamos encontrar ainda, na sequência, o conto “Vestidinho
rosa - O anjinho”. A narrativa passa-se dentro de uma
escola de segundo grau da classe média. Uma casualidade faz o porteiro da
escola, homem de meia idade e de aparência repulsiva, a se interessar por uma
certa adolescente loirinha e de olhos verdes, aluna da escola, que o encanta
profundamente. Ela, depois de algum tempo, nota o interesse do homem e toma uma
atitude que não passaria na cabeça de ninguém. Deliberadamente marca um
encontro à noite, nos fundos do colégio. O que ninguém poderia supor é que a
aluna fosse uma completa devassa que se atira a aventuras sexuais quando bem
lhe dá na telha. O diálogo inicial que travam é nesses termos:
— O que você quer comigo?
T. perguntava
mostrando não se importar, quase como quem debocha.
O homem não tinha o que responder.
— É me comer que você quer? Porque eu
não costumo dar pra velhos; já saí com alguns, mas em troca de alguma coisa, e
penso que você não deve ter condição para isso.
E ria.
Ele franziu o cenho e ainda não sabia o
que responder.
— Mas eu deixo você me tocar. Você
quer?
Nada.
T. pegou
aquela mão que já possuía rugas demais e botou no meio de suas pernas lisas e
brancas.
Este
foi o início de uma tórrida relação entre os dois, no qual a única intenção da
bela garota devassa era ancorada firmemente em imenso desejo de domínio, de
posse sobre o outro, nada mais. No entanto, nem ela mesma poderia também
imaginar que aquela relação promíscua de mero desejo sexual desenfreado pudesse
fazer irromper dentro de si mesma uma outra relação de dependência física, uma
fixação tal naquele homem que a deixaria completamente desnorteada. Acabou por
ser tomada por um estado
de carência afetiva imensa, guiada por intuições e fatalismos cegos, minada por
legados atávicos, sobretudo em relação ao sexo. — “mas lá, naquele jardim só
deles, essa relação de submissão era como estar no paraíso dos corrompidos”. Quem
poderá decifrar as ciladas de Eros? Foi o que se deu e quase degenera em
desastre tremendo.
Esses três primeiros textos e os oito que se seguem são belos
exemplos de como fazer literatura com espontaneidade, com simplicidade, sem
lances teatrais, sem laboratórios, num estilo de extrema simplicidade, sempre
direto e claríssimo. Mais subjetividade do que objetividade nos fins a atingir;
elementos psicológicos e sociológicos entrosados, aparecendo mais por sugestão
do que por afirmação. A autora mostra-se hábil em casar linguagem inventiva de
modo a obter determinados efeitos. É, acima de tudo, a ficcionista, ou seja,
ela não sonega o núcleo ficcional, que escamoteia no início de suas ficções
para, ao final, criar o efeito de terror, mistério, solidão, abandono — ou que
outro final pretenda sugerir.
Finalmente; Anna Kroiss parece também concordar com uma
Katherine Mansfield (1888-1923), grande contista neozelandesa pouco lida no
Brasil, que certa feita afirmou: “Não vejo nenhuma possibilidade de salvação se
não aprendermos a viver também com nossas emoções e nossos instintos,
conservando-os em equilíbrio”. Kroiss surge no cenário literário brasileiro
como autora que se esforça em
multiplicar testemunhos ficcionais a atestarem o esforço da criação e o
talento da criadora. Em lúcida busca pelas emoções particulares de suas
criaturas, não recorre a maniqueísmos, não edifica no vazio, mas encontra
material que expõe direta ou indiretamente, ao levantar conflitos, agitar
problemas, captar situações existenciais. Falam por si mesmas suas criaturas.
Por tais motivos é autora para quem devemos estar muito atentos. Razões
suficientes pelas quais aguardamos com vívido interesse por novas produções
suas.
Ficha
técnica:
Todos os cantos de Eros
Contos de Anna Kroiss
Editora Patuá – São Paulo/SP
2025
104 p.
ISBN 978-65-281-0281-5
Links para compra e pronto envio:
Editora Patuá
No site da autora
Krishnamurti Góes dos Anjos
é baiano de Salvador. Escritor, pesquisador e crítico literário, é autor, entre
outros, de O Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Embriagado
Intelecto e outros contos, À flor da pele (contos)
e Destinos que se cruzam (romance). Possui textos publicados em revistas
no Brasil, Portugal, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e
Espanha. O Touro do rebanho (Editora Chiado, romance histórico) obteve o
primeiro lugar no Prêmio José de Alencar (UBE/RJ) em 2014. Atuando com a
crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira
contemporânea, colaborando em diversos jornais, revistas e sites literários.