Por Gustavo Coelho
— Vamos continuar — disse, o tom novamente controlado, quase
divertido. Ele enfiou a mão no bolso do paletó e retirou duas cartas de
baralho.
Esperou que os uivos de Hebert se transformassem em um choro
mais baixo e, então, se agachou na frente dele, mostrando as duas cartas. Uma
era a dama de copas, a outra, um valete de paus.
— O próximo jogo é de sorte, Hebert. O senhor deve escolher
a carta certa — explicou, com um brilho nos olhos. — A única dica que lhe dou é
que a carta certa depende da sua sorte. A errada... bem, a errada tem a ver com
a escolha de merda que o senhor fez.
Ele embaralhou as duas cartas nas mãos, virou-as com o
desenho para baixo e as colocou no chão encharcado.
— Escolha. A da esquerda ou a da direita?
Hebert, com a visão turva pela dor, olhou para as duas
cartas indistintas. Era uma aposta cega.
— A... a da esquerda... — balbuciou.
O homem pegou a carta da esquerda e a virou lentamente. Era
a dama de copas. Ele não disse se a escolha fora boa ou ruim. Apenas se
levantou em silêncio e caminhou de volta para a mesa no fundo da sala. Voltou
de lá com um cutelo, a lâmina larga e pesada brilhando sob a luz da luminária.
O pânico de Hebert se renovou.
— Não... de novo não... por favor! Eu só quero ir embora! Eu
faço o que você quiser! — gritou, tentando puxar os pés, mas as amarras eram
firmes.
Ao terminar a frase, o sequestrador já estava agachado
novamente ao seu lado. O cutelo desceu com um golpe limpo e pesado, exatamente
sobre o dedo do pé que o martelo havia esmagado. O som do metal cortando o que
restava do osso foi nítido, seguido por um novo grito de agonia que superou
todos os anteriores.
Em meio ao sangue que escorria de seu pé e ao eco de seus
próprios gritos, Hebert viu o sequestrador sorrir novamente. O homem se
inclinou, o rosto calmo e satisfeito, e falou por cima dos gemidos de sua
vítima:
— Está vendo, Hebert? Isso é a consequência. A consequência
de uma escolha errada.
Ele então girou, mais uma vez, o botão do aparelho de choque
elétrico.
Uma nova onda de dor. A agonia do dedo amputado se fundiu
com a convulsão da eletricidade, e Hebert sentiu o mundo se dissolver em um
clarão branco. Seus olhos quase saltaram do rosto, e um grito que parecia vir
de sua própria alma rasgou o ambiente. O corpo se contorceu de tal forma que
ele mordeu a própria língua, o sangue preenchendo sua boca. Um cheiro acre de
pele queimada começou a se espalhar pela sala, um testemunho da intensidade do
choque.
O sequestrador observava o monitor cardíaco, a linha verde
traçando picos perigosos e erráticos. Com a mesma calma com que iniciou, ele
desligou o aparelho. O corpo de Hebert amoleceu na cadeira, tremendo, ofegante.
— Vamos fazer uma pausa — disse o homem, como se anunciasse
o fim de um exercício. — Para o senhor pensar em como vai jogar da próxima vez.
Ele abaixou sob os pés de Hebert, recolheu cuidadosamente o
dedo decepado, se virou e caminhou em direção a uma porta, no canto da sala,
que Hebert não havia notado antes. Ele destrancou e abriu, fechou atrás de si,
sozinho ali no escuro.
Hebert tentou respirar, a agonia ainda viva, movendo-se por
todo o seu corpo. O sangue, o cheiro, o silêncio: não conseguia lidar com tudo isso...
Seus olhos reviraram e, desta vez, a escuridão era boa. Ele desmaiou.
Hebert acordou em espasmos, seu corpo inteiro lutando por
algo que não viria: ar. Sua cabeça estava envolta em um saco plástico molhado e
quente, selado contra seu rosto a cada inalação fracassada. O pânico imediato. Começou
a se debater na cadeira. A visão escureceu nas bordas, o peito queimava. Quando
estava prestes a perder a consciência, o saco foi arrancado de sua cabeça.
Ele engoliu o ar mofado da sala em uma golfada desesperada e
dolorosa. Tossindo, com os olhos lacrimejando, ele viu o sequestrador parado à
sua frente, segurando o saco plástico amassado.
— Acorda, margarida — disse o homem, com um tom de escárnio.
— Está na hora de se alimentar.
— Por quê...? — sussurrou Hebert, a voz rouca. — Por que
está fazendo isso?
O sequestrador apenas deu de ombros, um gesto de indiferença
que era mais cruel do que qualquer resposta.
Hebert não havia notado, mas havia uma mesa posta em sua
frente. Um prato fundo com um líquido espesso, com verduras e legumes. Uma
sopa.
— Como está impossibilitado, eu irei administrar sua
alimentação.
As coisas começaram a ficar ainda mais bizarras. Ele mexeu o
conteúdo da sopa, assoprou e iniciou o procedimento como se fosse um bebê.
— Vamos lá, Hebert. Abra a boquinha!
Hebert sentiu que não era hora de irritá-lo com
desobediência.
Ao mastigar ele percebeu algo de diferente naquela sopa. Por
mais que o aroma e o sabor não estivessem ruins, havia um pedaço de carne com
osso, impossível de ser mastigado. Então, para não desagradar seu captor, ele roeu
com os dentes e cuspiu o que sobrou na mesa.
— Tá vendo, Hebert. Nem você mesmo se suporta!
Cismado com a frase, Hebert olhou para aquele resto que
cuspira. A terrível descoberta: seu dedo decepado estava entre os ingredientes
da sopa.
— VOCÊ É DOENTE? – gritou Hebert, vomitando de lado o pouco
que havia engolido.
— Deixe de ser malcriado, sr. Hebert. Acho que sei de algo
que irá animá-lo.
Então ele se virou e pegou uma barra de ferro fina que
estava encostada na parede. Com um maçarico portátil, começou a aquecer o
metal. A chama azul sibilou e, em instantes, o ferro começou a brilhar,
passando de um cinza opaco para um laranja vivo, depois para um vermelho
incandescente. O calor irradiava, e Hebert podia senti-lo em seu rosto.
— Pronto para o próximo jogo? — perguntou o homem,
aproximando a barra brilhante. O desespero tomou conta de Hebert novamente. — É
simples. Cara ou coroa?
Ele fechou a mão, escondendo a moeda. Hebert, com o pavor do
ferro quente à sua frente, apostou.
— Cara! — gritou. — Cara, por favor!
O sequestrador parou, uma sobrancelha se erguendo atrás dos
óculos.
— Interessante... — murmurou, pensativo. — Estudos dizem que
jovens mimados como o senhor costumam escolher coroa. É um símbolo de nobreza,
de poder... O senhor me surpreendeu.
Jogou a moeda para o alto com o polegar. O metal girou,
cintilando sob a luz da luminária, e a pegou no ar com um tapa, colocando na
parte de trás da outra mão. Lentamente, ergueu a mão para revelar o resultado.
Veio a surpresa.
— Deu cara!
Uma expressão de alívio surgiu nos lábios de Hebert. Havia
escapado do ferro incandescente. O sequestrador o observou, balançando a cabeça
como se estivesse impressionado.
— O senhor tem sorte. E eu sou um homem de palavra — disse
ele.
Então, para o horror absoluto de Hebert, ele se inclinou e
agarrou a barra de ferro brilhante com as duas mãos. O som da carne queimando,
um chiado agudo acompanhado de um cheiro forte e adocicado. O homem não gritou.
Não demonstrou dor. Apenas segurou o ferro por dez longos segundos, o rosto
impassível, antes de largá-lo no chão com um baque metálico. Ele ergueu as mãos
para Hebert ver o resultado: a pele das palmas e dos dedos estava destruída,
revelando a gordura amarelada por baixo.
Com uma calma surpreendente, ele pegou a moeda do chão com
os dedos queimados e a guardou no bolso.
— Vamos para o próximo jogo — anunciou.
Hebert, ainda atordoado pela cena, lembrou-se da promessa.
Sua voz saiu fraca, mas insistente.
— Você... você disse... que ia resolver um dos meus
problemas. A prenda... você cumpriu. Mas e o resto?
O sequestrador o olhou e sorriu, pedindo desculpas como se
tivesse esquecido de um detalhe trivial.
— Oh, é verdade. Peço perdão. A minha prenda me distraiu.
Sabe de uma coisa? Por meu esquecimento, vou resolver dois de seus problemas,
não apenas um.
Ele caminhou até a mesa e pegou o cutelo. Hebert começou a
tremer, certo de que a morte havia chegado. O homem parou à sua frente, a
lâmina pesada pendendo ao lado do corpo.
— O senhor deseja que os choques cessem? Deseja que eu o
liberte daquele dispositivo? — perguntou, com genuína curiosidade.
Com a voz trêmula, gaguejando, Hebert conseguiu dizer:
— Sim... sim, por favor...
— Pois bem.
O cutelo se ergueu. O movimento foi um arco rápido e
preciso. A lâmina desceu com um só golpe, cortando a carne, na base do pênis de
Hebert.
— Pronto — disse o sequestrador, observando sua obra. — A
parte do seu corpo ligada ao dispositivo acabou de ser retirada.
Por um segundo, Hebert não entendeu. Então a dor explodiu,
uma agonia branca e ofuscante que superou tudo o que sentira antes.
— MEU PAU! — gritou, a voz rasgando de pura incredulidade e
horror. — VOCÊ ARRANCOU MEU PAU!
Ainda em meio ao desespero e à angústia de Hebert, o
sequestrador se moveu para trás. Com o mesmo cutelo, cortou as amarras que
prendiam seus pulsos.
— E agora, suas mãos estão livres — disse, satisfeito. —
Dois problemas resolvidos.
Ele deixou Hebert solto da cintura para cima, mas com os pés
ainda atados, em uma poça crescente de seu próprio sangue.
Continua amanhã, dia 10/02.
Gustavo
Coelho,
natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação
Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado
pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do
anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da
Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação. É
coautor de Crisântemo.