9 de mar. de 2026

Sobre ‘Todos os cantos de Eros’, de Anna Kroiss

 

Por Krishnamurti Góes dos Anjos 

A leitura de “Todos os cantos de Eros” (contos), livro de estreia da escritora paulista Anna Kroiss, nos faz lembrar, em boa medida, de uma citação do escritor norte-americano Nathaniel Hawthorne (1804-1964): "Benditas são as emoções simples, sejam elas vivas ou sombrias! É a mistura lúgubre de ambas que produz a explosão das regiões infernais." Como se vê, Hawthorne celebra a intensidade das emoções humanas, sejam elas alegres (vivas) ou tristes (sombrias), valoriza tanto a felicidade quanto a tristeza genuínas, sem disfarces ou complicações, mas também alerta que a mistura dessas emoções, especialmente com a preponderância da "lúgubre" (sombria, fúnebre, macabra) sobre a "viva", gera uma força destrutiva, uma "explosão", o que remete à complexidade da alma humana. O perigo reside na combinação dessas emoções em atrito, gerando conflitos internos intensos, paixões avassaladoras ou até mesmo a autodestruição. 

Os 11 contos reunidos no volume apresentam personagens e situações existenciais aflitivas nas quais se evidencia a profundidade psicológica da humanidade e suas interfaces com o desejo, a passagem do tempo, a finitude da vida, dentro de enfoques que envolvem moralidade, culpa, solidão e pecado, explorando não somente regiões obscuras, mas também as belezas da psique humana. Aproximemos mais a lupa... 

“Todos os cantos de Eros” traz já no seu título o substantivo próprio que nomeia o deus grego do amor e do desejo, associado pelo senso comum ao amor apaixonado, com desejo e atração sensual, vulgarmente conhecido, em nosso mundo super hedonista, simplesmente como “tesão”, ou seja, forte desejo ou excitação sexual. Mas nem todos fazem tal ligação simplista, vulgar e obscena com o deus grego que os romanos conheciam como Cupido. 

Tal personagem vem sendo estudado desde a filosofia (lá de Platão, uns quatrocentos anos A.C.) até a psicologia de Sigmund Freud (1856-1939) e Carl Gustav Jung (1875-1961). E o mito foi, aos poucos, transformando seu caráter. Aquele serzinho inescrupuloso munido de arco e flecha a alvejar corações incautos, ganhou afinal outros atributos mais condizentes com a razão, se é que podemos falar em razão nessa seara do sentimento humano. Algo mais compreensível, digamos. Eros, à luz da psicanálise, atualmente é entendido como um sentido de energia vital em geral, integradora da psique. Constitui-se, em última análise, num desejo de totalidade e, embora possa inicialmente assumir a forma de amor apaixonado, é mais verdadeiramente um desejo de "parentesco psíquico", um desejo de interconexão e interação com outros seres sencientes (que percebem pelos sentidos). Não é mais e exclusivamente o desejo sexual, mas nossa força vital, a vontade de viver e de amar. Desejo de criar vida e favorecer a produtividade e a construção. 

Freud avança inclusive um pouco mais, afirmando que o propósito de Eros é reunir indivíduos isolados em uma única grande unidade, a humanidade. Para isso, os homens devem estar libidinalmente ligados entre si, ainda que a natural agressividade do homem, representante de sua pulsão de morte, se oponha a esse programa da civilização. Eros corresponde à pulsão de vida e divide o domínio do mundo com Thanatos, representante da pulsão de morte. E é na tensão entre ambas as pulsões que se constitui a espécie humana, cujo principal objetivo é encontrar a felicidade. Na busca da satisfação desse objetivo, podemos ter esperança de nos libertar de pelo menos uma parte de nossos sofrimentos, agindo sobre nossas pulsões. Nesse processo estão os deslocamentos de libido reorientando os objetivos pulsionais de tal forma que evitem a frustração do mundo externo com a participação de um processo de sublimação. 

No discurso literário proposto por Anna Kroiss residem preciosidades que, ao buscarem expressão, encontram seu caminho feito de brechas por metáforas ou, então, seguem vias que deslizam por metonímias, exibindo significantes que  constituem rotas sem um fim previsível. A literatura de Kroiss é marcada por uma linguagem minimalista, às vezes repetitiva, que reduz a trama ao mínimo, e foca no ritmo, e em calculadas pausas que exploram o indizível e a psique humana com intimidade e profundidade psicológica, criando atmosferas ora oníricas, ora existenciais e melancólicas, mesclada com fluxos narrativos que brincam com o tempo, dando voz ao inconsciente e a sentimentos como solidão e angústia. 

No conto que abre o volume, “O casamento de Isabel” (esse texto traz logo abaixo do título apenas um indicativo sociológico muito claro. A datação de 1923. Data em que se passa a narrativa), a família de Isabel arranja-lhe um casamento com um rapaz tido e havido como bom moço, excelente criação, boa família, etc. A mocinha dele só conhece de “ouvir dizer” e de duas fotos, em uma das quais o sujeito é fotografado em um baile de carnaval usando uma máscara que lhe encobria metade do rosto. “Uma máscara mostrando um nariz comprido e pontudo, como dos personagens maliciosos do teatro.” Durante o curto namoro/noivado Isabel tem lá uma oportunidade de estar a sós com o pretendente — e observe-se o poder de sugestão da autora, impresso em apenas 4 frases curtas:

 

Era o olhar de algo que Isabel ainda não conhecia.

Não era bom.

Não era para o bem.

Foi embora junto do irmão. 

Essas curtas frases dão ao leitor a percepção, com uma ponta de calafrio, que a violência e amargura iriam descer ali. O ocorrido acima, ante os preparativos e expectativas sonhadoras do casamento próximo, acabou sendo relegado a um mero mal-entendido e finalmente ao esquecimento, até que se deu o casamento. A noite de núpcias foi de completa desgraça onde prevaleceu a monstruosidade da tara machista que nada tem de amor. 

A este conto, segue-se outro de urdidura exemplar, “Ele vinha pelo corredor” (também com datação de 1975 e localização em Oklahoma). Temos aí um foco narrativo que se volta para a morte acidental de um homem por afogamento em um lago. A jovem viúva padece de uma indizível tristeza, uma melancolia pungente que por uns dias provocam insônia, choros, gritos. Mas o tempo passa inexorável, a dor imensa da perda se arrefece um pouco, mas não se conforma, até que um dia... Eis que ele aparece na calada da noite para estar ali “naquela cama ao seu lado, a acordando com beijos”. 

Estamos diante de uma narrativa que convoca o fantástico em suas oscilações entre o racional e o sobrenatural, impondo ao leitor uma hesitação entre o real e o irreal, sendo o limiar entre esses dois mundos o ponto central da narrativa. (À propósito do fantástico e do maravilhoso, nessa autora, o leitor deve ler com redobrada atenção os contos “Um pássaro” e “O cordeiro honesto”, que não comentaremos aqui por razões óbvias de espaço que comporta uma resenha). Em “Ele vinha pelo corredor”, lemos a agonia pungente e dilacerante da solidão daquela mulher amorosa e sua terminante recusa na aceitação da morte, essa condição de nosso existir e que nos remete ao desamparo e a um tal confronto com a finitude da vida que certas mentes não a aceitam a um ponto tal de engendrarem delírios que definitivamente atiram-na à mais franca loucura. 

Anna Kroiss mostra fazer parte daquela rara galeria de escritores que criam com o que resta, aproximam-se do traumático, confrontam-se com as pulsões, tangenciam limites e buscam forjar novos sentidos com as palavras e os afetos. 

 É no ambíguo chiaroscuro da natureza humana que vamos encontrar ainda, na sequência, o conto “Vestidinho rosa - O anjinho”. A narrativa passa-se dentro de uma escola de segundo grau da classe média. Uma casualidade faz o porteiro da escola, homem de meia idade e de aparência repulsiva, a se interessar por uma certa adolescente loirinha e de olhos verdes, aluna da escola, que o encanta profundamente. Ela, depois de algum tempo, nota o interesse do homem e toma uma atitude que não passaria na cabeça de ninguém. Deliberadamente marca um encontro à noite, nos fundos do colégio. O que ninguém poderia supor é que a aluna fosse uma completa devassa que se atira a aventuras sexuais quando bem lhe dá na telha. O diálogo inicial que travam é nesses termos:

 

— O que você quer comigo?

T. perguntava mostrando não se importar, quase como quem debocha.

O homem não tinha o que responder.

— É me comer que você quer? Porque eu não costumo dar pra velhos; já saí com alguns, mas em troca de alguma coisa, e penso que você não deve ter condição para isso.

E ria.

Ele franziu o cenho e ainda não sabia o que responder.

— Mas eu deixo você me tocar. Você quer?

Nada.

T. pegou aquela mão que já possuía rugas demais e botou no meio de suas pernas lisas e brancas.      

Este foi o início de uma tórrida relação entre os dois, no qual a única intenção da bela garota devassa era ancorada firmemente em imenso desejo de domínio, de posse sobre o outro, nada mais. No entanto, nem ela mesma poderia também imaginar que aquela relação promíscua de mero desejo sexual desenfreado pudesse fazer irromper dentro de si mesma uma outra relação de dependência física, uma fixação tal naquele homem que a deixaria completamente desnorteada. Acabou por ser tomada por um estado de carência afetiva imensa, guiada por intuições e fatalismos cegos, minada por legados atávicos, sobretudo em relação ao sexo. — “mas lá, naquele jardim só deles, essa relação de submissão era como estar no paraíso dos corrompidos”. Quem poderá decifrar as ciladas de Eros? Foi o que se deu e quase degenera em desastre tremendo. 

Esses três primeiros textos e os oito que se seguem são belos exemplos de como fazer literatura com espontaneidade, com simplicidade, sem lances teatrais, sem laboratórios, num estilo de extrema simplicidade, sempre direto e claríssimo. Mais subjetividade do que objetividade nos fins a atingir; elementos psicológicos e sociológicos entrosados, aparecendo mais por sugestão do que por afirmação. A autora mostra-se hábil em casar linguagem inventiva de modo a obter determinados efeitos. É, acima de tudo, a ficcionista, ou seja, ela não sonega o núcleo ficcional, que escamoteia no início de suas ficções para, ao final, criar o efeito de terror, mistério, solidão, abandono — ou que outro final pretenda sugerir. 

Finalmente; Anna Kroiss parece também concordar com uma Katherine Mansfield (1888-1923), grande contista neozelandesa pouco lida no Brasil, que certa feita afirmou: “Não vejo nenhuma possibilidade de salvação se não aprendermos a viver também com nossas emoções e nossos instintos, conservando-os em equilíbrio”. Kroiss surge no cenário literário brasileiro como autora que se esforça em  multiplicar testemunhos ficcionais a atestarem o esforço da criação e o talento da criadora. Em lúcida busca pelas emoções particulares de suas criaturas, não recorre a maniqueísmos, não edifica no vazio, mas encontra material que expõe direta ou indiretamente, ao levantar conflitos, agitar problemas, captar situações existenciais. Falam por si mesmas suas criaturas. Por tais motivos é autora para quem devemos estar muito atentos. Razões suficientes pelas quais aguardamos com vívido interesse por novas produções suas.


Ficha técnica:
Todos os cantos de Eros
Contos de Anna Kroiss
Editora Patuá – São Paulo/SP
2025
104 p.
ISBN 978-65-281-0281-5
 

Links para compra e pronto envio:

Editora Patuá

No site da autora 

 

Krishnamurti Góes dos Anjos é baiano de Salvador. Escritor, pesquisador e crítico literário, é autor, entre outros, de O Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Embriagado Intelecto e outros contos, À flor da pele (contos) e Destinos que se cruzam (romance). Possui textos publicados em revistas no Brasil, Portugal, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. O Touro do rebanho (Editora Chiado, romance histórico) obteve o primeiro lugar no Prêmio José de Alencar (UBE/RJ) em 2014. Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira contemporânea, colaborando em diversos jornais, revistas e sites literários.

8 de mar. de 2026

Um trecho de 'Crisântemo' - Ao som de rock


Por Gustavo Coelho e Sinvaldo Júnior 

“Olhei para cima. O céu estava espetacular, um negrume profundo pilhado de estrelas, como só acontece longe das luzes da cidade. A Via Láctea se estendia como pinceladas de giz divino. Mas a beleza que deslumbrava também colocava tudo em perspectiva, e uma tristeza profunda bateu forte, mas por causa dele, de Lucas, que estava quebrado demais para conseguir apreciar uma noite como aquela. 

Nesse instante de paz, uma ruptura: bem longe, atrás de um monte, ao fixar minha vista em um ponto qualquer daquela escuridão, eu ouvi uma cascata de sons que fez o meu chão tremer, o grito longo e áspero do aço se dobrando sobre si mesmo e o estalo final de mil fragmentos de vidro. E então, o silêncio. Um silêncio absoluto, pesado.


 

Gelei. Meu corpo, uma estátua de pavor. Um pneu? Um animal na pista? Minha mente tentava, desesperadamente, encontrar uma explicação lógica, uma resposta que não fosse aquela. Mas era inútil. 

A cena inteira dos últimos minutos se rebobinou em minha cabeça. O sorriso triste, a voz calma, o abraço apertado demais. “A gente se tromba lá em cima, no meio das estrelas...” A risada seca. “Até a próxima, viajante estelar.” Não foi uma piada, mas sim um presságio. O toque de punho não foi um cumprimento. Foi uma despedida. 

E então, um som mais alto veio me assombrar, algo de dentro da minha cabeça. As minhas palavras... “Vai pra casa agora. Só... apaga. Desliga do mundo.” Um frio percorreu minha espinha, tão violento que minhas pernas bambearam por um instante. Aquelas palavras. Minhas. Eu as disse. Eu lhe dei a ideia? Eu que lhe dei a solução? O que eu quis dizer – um conselho para que ele descansasse – foi o que a mente de um homem no fundo do poço ouviu? Não, não foi um conselho. Foi a porra de uma instrução. 

A verdade não se encaixou como uma peça de quebra-cabeça. Ela explodiu dentro de mim. Meu amigo não tinha superado. Ele não se acalmou. Apenas cumpriu a sua palavra, e com o meu aval. Ensaiou comigo e me deixou sair do carro para terminar, sozinho, o seu show. 

Ali, parado na escuridão, sob o mesmo céu que pouco antes me parecia tão belo, senti o chão desaparecer. Eu não conseguia gritar. Não conseguia me mover. Só conseguia mirar a estrada, uma curva escura no nada, onde a noite, sob o olhar indiferente de um milhão de estrelas, havia acabado de engolir o meu melhor amigo.” 

 

In: Crisântemo. Gustavo Coelho e Sinvaldo Júnior. Uberlândia: Cápsula Editora, 2025. pp. 13-14.

7 de mar. de 2026

Lívia Batista traz poesia às diagramações da Editora Merda na Mão

 

A múltipla artista e produtora cultural Lívia Batista — parceira e namorada de Diego El Khouri, o outsider da galáxia de Parnaso e um dos criadores da Editora Merda na Mão — colabora desde o final de 2025 com as diagramações da editora, somando poesia, sensibilidade e densidade às publicações. Em 2026, essa troca se intensifica e se aprofunda. É uma satisfação imensa ter uma artista tão dedicada, forte e talentosa caminhando junto com a Editora Merda na Mão, ocupando e tensionando este espaço lisérgico punk e indomável.

Criada em 12 de abril de 2020 por Fabio da Silva Barbosa e Diego El Khouri, a Editora Merda na Mão é uma editora independente dedicada a publicar os impublicáveis. Com quase seis anos de atuação e cerca de 60 títulos lançados, publica livros, zines, HQs e poesia sem cobrar dos autores, operando fora do mercado editorial tradicional, com estética subversiva e espírito underground. A atuação se expande em distro, eventos, feiras culturais e no selo musical Ruídos Absurdos, voltado à cena noise, hardcore e experimental. 

Além da atuação editorial, Lívia Batista é idealizadora e diretora artística do D’Olhar – Festival Itinerante de Dança e Vídeo, dedicado à videodança e ao encontro entre corpo e audiovisual, ampliando circulação, formação e acesso a essa linguagem no Brasil.


Coração enrolado em arame farpado & outras tretas rolando, de Gutemberg F. Loki, é o primeiro livro diagramado pela Lívia e já está disponível: 

Para adquirir essa obra poética, acesse: https://loja.uiclap.com/titulo/ua140101/

6 de mar. de 2026

Dois poemas de Allyne Fiorentino

 



Iluminações 

Aos “sentinelas de espíritos e estradas” (A. dos Anjos) 

Move-se a língua úmida da vida em sussurro e lume

mas não há ouvido humano capaz de ouvir

 o destino

 

Iluminações queimam a retina

enquanto os inaudíveis hálitos pesados continuam a falar

na língua feérica das serpentes

— por trás dos meus olhos há desenhos incompreensíveis 

à língua dos homens

 

Ribomba trovoada quando a sua palma toca a minha

nossos pactos milicentesimais funcionam no silêncio.


Se te chamo “pai” – como me pede –

é porque já existem galhos iluminados atrás dos meus olhos

relâmpagos na escuridão do corpo.

 

Cinco falanges que se encontram e

dez anos se passam voando

como que contados nos dedos de duas mãos


Um flash de luz e agora seu céu é azul.

 

Com a mão direita,

eu fecho seus olhos,

meio verdes, meio azuis.

Agora,

para sempre.

 

Só há tatuagens quando o fogo se esvai.

 

O olho esquerdo é obediente.

Ficou o olho direito, então, aberto.

Azul-esverdeado.

Fulminante.

Ficou assim, meio a meio.

Yin e yang estáticos como um último símbolo do nosso pacto.

 

Nós dois

meio desconfiados da vida

meio desconfiados da morte

na dualidade típica de

quem anda pelo vale da sombra da morte

[e não teme.

 

Quem pisa na escuridão não tem delicadeza na língua

sabe que tempo é relâmpago

corta as finezas

as palavras são trovões

Mas repara nos seus galhos de luz:

são traços finos, delicadamente desenhados

com a mão direita de Deus.

 

“continue sendo como você é”

foi a última mensagem

foi a primeira mensagem 

 

E se apagou.

 

 

De alma

 

Pode ser cedo para o amanhã

mas os pássaros já sobrevoam a cabeça dos mansos

herdeiros da Terra

levantam os olhos ao firmamento

 

a palavra do destino vem de outros céus

ainda como uma asa.

 

Fecho meus olhos para ver melhor:

a felicidade é branca

 

inscreve-se em sal e água

nos pequeninos mundos que exalam

de nossos corpos nus

 

sempre nus

 

São milhões de pequenas águas-vivas

bioluminescentes

cintilando através desse espelho de voal

 

um portal

para os francos desertos

que beberam da boca seca

das mulheres, esse oceano

É uma leitura “almática” - você diz

no seu próprio latim

buscando as palavras que nunca ouvira

como soldado de guerra

 

um códice para além das armas

para além das almas -

anímica.

 

Perto do mar

quando envoltos em névoa turva

nos encontramos

corrias como um Nostradamus menino

os pés livres, avançando sobre a areia reluzente

ainda inocente de todos os vaticínios

 

Lembro-me da cicatriz da montanha,

onde nos encontramos nas escadarias

era noite

e ali demos novamente as mãos

para amarmos as línguas antigas

que atravessam séculos e pousam

sobre a pele de indigentes, em tatuagens vulgares

– a vida ali era âmbar.

 

Mas todas as vidas engendram-se

nos cachos dos teus cabelos

nessas voltas negras que revivem

as estrelas extintas de outros universos

 

Agora que não é mais menino e já sabe demais

seu olhar bruscamente se ilumina:

são eles também

milhões de pequenas águas-vivas

lascivas, nesse santuário abissal

esse portal, de fúria e calmaria.

 

Também meus olhos

incompreensíveis aos humanos

fixos no céu

fitam um pássaro negro

rasga o horizonte com a delicadeza de uma pena

                                                                          o amor.


Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais, mas reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia. Atua, atualmente, em Tecnologia da Educação. Apaixonada por Literatura Feminina, Simbolismo, Filosofia e excentricidades. Low profile do mundo literário, escreve pouco, mas, acredite, incisivamente. Está também em Crônica do Dia. Instagram: @fiorentinoallyne.

4 de mar. de 2026

'Crisântemo', de Gustavo Coelho e Sinvaldo Júnior

Carlos (20 anos) é um jovem músico que vê seu mundo desmoronar em uma sucessão de tragédias. Assombrado pela perda de Lucas, seu melhor amigo e baterista da banda, Carlos mergulha em uma espiral de dor, culpa e desconfiança. Cada pilar de sua vida parece ruir: o relacionamento conturbado com a mãe atinge um ponto de ruptura, antigos amores retornam com segredos avassaladores e a própria música, sua única válvula de escape, é silenciada. 

Expulso de casa e vagando por uma cidade que parece indiferente ao seu sofrimento, Carlos se vê confrontado por verdades dolorosas sobre as pessoas que mais amava. À beira do abismo, ele precisa encontrar uma razão para continuar em meio ao caos. Crisântemo é uma jornada visceral sobre luto, abandono, traição e a busca por um novo sentido para a vida, onde a amizade e a arte se tornam os últimos refúgios contra a escuridão, e uma única canção pode ser a chave para a redenção. 

Ficha técnica
Ano de publicação: 2025
1ª edição
126 páginas
Cápsula Editora
Ficção: novela
Formato: 15 x 21 cm 


Onde adquirir o Crisântemo

 

Em breve, o lançamento oficial! 

 

Sobre os autores 

Gustavo Coelho, natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação. 

Sinvaldo Júnior é professor, pesquisador acadêmico e revisor de textos. Possui graduação em Letras/Português, mestrado em Administração e doutorado em Estudos Literários. Atualmente cursa pós-doutorado, com pesquisa comparada entre literatura e cinema. Publicou diversas resenhas, artigos de opinião e artigos acadêmicos sobre leitura e literatura, com foco em obras e autores brasileiros. Crisântemo é sua primeira obra jovem adulta.

25 de fev. de 2026

Do mineral ao humano: 'Arqueologia da luz', de Mell Renault

 Por Krishnamurti Góes dos Anjos

O leitor que tiver a oportunidade de ler o volume de poesias Arqueologia da luz, da escritora mineira Mell Renault, publicado pela Editora Patuá (2025), sem dúvida desfrutará de literatura da mais alta qualidade. Em meio à imensa profusão de títulos que se publica no país atualmente, a obra de Mell Renault merece destaque, porque não se detém aprisionada por esse verdadeiro sequestro da literatura nas tantas e infindáveis bandeirinhas identitárias, ou por um lirismo de trivialidades amorosas egocêntrico.

A obra em evidência apresenta a experiência humana sob um prisma cósmico totalizante ao convergir em sua poética o sentimento e o conhecimento simultâneo da perfeição e da harmonia do cosmos, lembrando-nos a frase de Fernando Pessoa: uma “poesia que pensa sentindo e que sente pensando”. Poesia universalista, acrescentamos.

O filósofo e professor alemão, Martin Heidegger (1889-1976), nos alertou que o pensar deve estar liberto da interpretação técnica e instrumental que o reduz a uma atividade prática ou produtiva. A linguagem é a "morada do ser", e o pensar é a via para resgatar a experiência fundamental da verdade do Ser, o que não se alcança pela racionalidade instrumental ou científica. E é justamente por ser a linguagem a “casa do ser”, que a linguagem poética tem a capacidade de conferir sentidos mais amplos ao humano. 

Não percamos de vista ainda que o mesmo Heidegger adverte quanto à necessidade da superação radical do humanismo tradicional e da metafísica ocidental, que reduziram a essência humana a uma substância ou a um valor genérico submetidos a uma concepção, que esquece a questão fundamental do Ser. Aquele humanismo tradicional definiu o homem (ou a essência humana) a partir de noções como "animal racional" ou "substância", o que é insuficiente e redutor.

A poética que aflora de Arqueologia da luz é tão espontânea quanto a natureza em todas as suas manifestações metamórficas, transmutáveis, híbridas. Por este viés de simbolização da natureza, como matriz de pensamento, de criação estética e de posicionamento no mundo, que a linguagem se revela para que, aliada ao que nos circunda, encontremos novos caminhos. O pulsar da vida é o que interessa, sem discriminações de espécie. Eis a tradução do mundo que a poeta revela para além das aparências. Um posicionamento rizomático da palavra, diríamos, entendendo por rizomático certa abordagem que reflete a estrutura de um rizoma (de uma planta), caracterizada por crescimento descentralizado, conexões múltiplas e não hierárquicas.

Em cada poema de Arqueologia da luz o leitor deleita-se com a fluidez, o movimento, o devir e a diversidade, palavras associáveis à natureza, em uma abertura ao imenso que nos circunda, deixando absolutamente patente a necessidade da integração do homem ao meio que lhe confere vida, e não o contrário, como absurdamente alguns de nós pensam. 

Nesse  paralelismo poético entre escrita e natureza, as palavras saem da imobilidade, disponibilizam-se a novos sentidos, transfigurações, laços. Aí a “liberdade de consciência” encontra o “dom poético” da autora, ou, por outras palavras, a ética e a estética unem-se na concepção de uma poética cujas origens remontam aos mais ínfimos detalhes da existência que se inscrevem na ordem do devir, num fluxo permanente, no movimento ininterrupto e atuante, como uma lei geral do universo, que dissolve, cria e transforma todas as realidades existentes.

O leitor sentirá vigoroso estímulo ao fim da cisão entre o humano e a natureza. Sobretudo quando o nosso dia a dia já nos mostra que esse distanciamento tem implicado alheamento (catastrófico) das consequências resultantes da ação humana no meio ambiente. O cerne da mensagem que o livro traduz é quase extra-humana (e não necessariamente mística, religiosa ou ecológica, palavras que até aqui, nesta curva da evolução, estão contaminadas por discursos simplistas e antropocêntricos). A lembrança e valoração da existência humana dentro dos tão amplos e variados elementos dos reinos mineral, vegetal e animal propõe marcante reorientação dos nossos valores.

Os poemas reunidos em Arqueologia da luz, pela densidade das imagens evocadas nos ciclos indomáveis da linguagem e da natureza, convidam o leitor a refletir sobre a unidade da vida que irmana de todos os seres. Do mineral ao humano, com trocas e interdependências impostas por uma lei comum que não é mais possível negar. O notório esforço poético empreendido pela autora incita-nos a sentir este liame de amor para com todas as outras formas de vida, porque tudo, desde o fenômeno químico ao fenômeno social, não é mais do que vida impregnada por um princípio espiritual.

Na luz que nos chega do sol se operam as primeiras transformações físico-dinâmicas nas quais a matéria se dissolve em radiações. As plantas apropriam-se da energia solar e dela se alimentam para os fins da vida, que se dissemina e cresce sem cessar. Compostos químicos se ajustam em fórmulas cada vez mais complexas e acumulam a energia solar, transmutando-a em compostos de estrutura química mais elevada. 

O animal, por sua vez, se por um lado destrói grandes quantidades de material orgânico fornecido pelas plantas, por outro reconstrói em qualidade aquilo que destruiu em quantidade, executando novas operações químicas e fabricando materiais ainda mais complexos, de uma complexidade progressiva, que é expressão e meio de formação de um rudimentar, mas progressivo psiquismo íntimo. 

Tudo representa divisão de trabalho, especialização de funções, transformação por contínuos e infinitesimais deslocamentos progressivos. Só no animal começa verdadeiramente a função específica da constituição daquele psiquismo que irá se tornando cada vez mais complexo, à medida que ascende nos fenômenos vitais. Então, chegamos ao humano, com a  derradeira transformação e acréscimo das funções psíquica e espiritual. Temos aí traçada a linha que, por meio das espécies físicas, dinâmicas e psíquicas, conjuga a matéria ao pensar/sentir. Eis onde culmina, depois de tantas transformações, a energia das radiações solares.Toda luz tem como nascente o amor(p. 90).

A “máquina” mais complexa e delicada que a evolução produziu no planeta Terra é a nossa psique. Em nossos órgãos sensórios, opera-se continuadamente a elevação das vibrações ambientes em vibrações de ordem superior. Pela audição, o som se torna música; a visão transforma a luz em beleza; por meio dos sentidos e no embate das forças ambientes constrói-se o instinto e a consciência. O poderoso mecanismo da vida transforma a energia, de suas formas inferiores até as mais altas formas nervosas de sensação, sentimento e pensamento, para o desabrochar da vida tornado realidade por meio das radiações solares que, com o concurso da universalidade de elementos da existência, chega à florescência da consciência. “O amor é essa presença sutil, percebe  ( p. 120).

O grande rio da energia, que fora matéria, transforma-se no imenso mar da vida, que muda em consciência para finalmente se sentir e se observar a si mesmo. A gravíssima crise psicológica que a humanidade hoje atravessa requer, e impõe impreterivelmente, uma nova consciência. É assim que a ‘Luz’ do título dessa obra seguirá luzindo cada vez mais intensa, como evoca o poema abaixo (p. 74):

 

“fazer da luz

esse talismã bem perto do corpo,

assim como o amor,

trazê-lo rente a pele.”


Mell Renault harmoniza versos de uma poética tão simples e imprescindível como uma pétala de flor, a nos lembrar que o amor é a mais potente das força cósmicas, a energia psíquica primordial. Como o sangue de evolução espiritual.

Em tempo, porque me deu na telha acrescentar: Aqueles que quiserem perceber tudo isto que acabei de escrever encontram melhor tradução em vários poemas. O da página 85 resume, numa lufada de vento, todas essas palavras que penosa e sofrivelmente verti nesta resenha. Pronto, falei!


Krishnamurti Góes dos Anjos é baiano de Salvador. Escritor, pesquisador e crítico literário, é autor, entre outros, de O Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Embriagado Intelecto e outros contos, À flor da pele (contos) e Destinos que se cruzam (romance). Possui textos publicados em revistas no Brasil, Portugal, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. O Touro do rebanho (Editora Chiado, romance histórico) obteve o primeiro lugar no Prêmio José de Alencar (UBE/RJ) em 2014. Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira contemporânea, colaborando em diversos jornais, revistas e sites literários.