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Por Allyne Fiorentino e Sinvaldo Júnior
De
vez em quando alguns textos aparecem na mídia e causam um momentâneo rebuliço
no mundo literário, como se de repente alguém metesse o dedo na água calma de
um copo, girasse e depois saísse de cena. Vocês podem nos chamar de
conspiracionistas, mas vamos arriscar esse palpite meio fora da curva e vocês
poderão nos acompanhar nessa linha de pensamento e, quem sabe, chegar à
conclusão de que não é tão absurdo assim.
O
mercado é um grande narcisista e, como um representante legítimo de
manipulação, ele precisa de um pequeno caos controlado de vez em quando para
transformar aquilo que estava sendo esquecido na prateleira em um produto cheio
de frescor, ou seja, movimentar vendas, tendências etc. Isso é mais velho que
andar pra frente? Sim, marxistas sabem que o capitalismo prospera e precisa do
caos desde que o velho barbudo apontou isso no século XIX, mas não é que essa
arma ainda funciona perfeitamente? Quer uma prova?
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Ano
passado tivemos uma grande febre do açúcar por causa do morango do amor,
lembram? De onde surgiu? Como hypou?
Ninguém sabe precisar, mas a verdade é que do mesmo jeito que surgiu também se
foi, pois as “febres mercadológicas” precisam ser aparentemente caóticas para dar
uma sacudida no mercado, mas controláveis, porque depois precisamos voltar à
ordem das ovelhas que não pensam. É aquilo que as mulheres conhecem como
“migalhas de amor”: uma migalha aqui e ali pra dar uma emoção, gerar
expectativa e aprofundar ainda mais o controle da vítima. Como dissemos, o mercado
é um grande narcisista.
Também
ano passado saiu um texto na Folha de S. Paulo, de autoria da professora Aurora Bernardini, que gerou bastante polêmica, pois dizia que certos autores famosos de hoje não poderiam ser
considerados literatura. E este ano, novamente, a Folha solta agora um texto de
outra professora, Dirce Waldrick do Amarante, em que ela opina que as listas de
melhores livros são, na verdade, um “consenso fabricado”. Seria isso por acaso?
Sabe
o que há em comum entre Aurora e Dirce? É que ambas estão dizendo obviedades. E
não, não estamos dizendo que o que elas estão dizendo é raso ou não faça sentido
ou está incorreto; pelo contrário, “obviedades” no sentido de que
qualquer um que estuda literatura ou que conhece teoria e história literária
sabe.
Mas
por que essas informações são encaradas hoje em dia como “extraordinárias”?
Exatamente porque elas são direcionadas a um público que, embora amplo, possui características
em comum: são leigos, teoricamente, de modo que se escandalizam com coisas óbvias e consomem
produtos literários como verdadeiros fãs, e não como leitores. Será que leem o que defendem virtualmente? Eis outra questão que pode ser desenvolvida, quem sabe numa próxima malagueta.
O
que essa verdade inconveniente significa? Significa que o mercado se aproveita da ignorância teórica (de conhecimento básico) dos leitores sobre determinado assunto para gerar falsas polêmicas que mobilizam novamente essa grande
roda de consumo alienado (arriscamos a dizer que quem sai ganhando com isso são
exatamente as grandes editoras que estão sendo criticadas, no caso das polêmicas do mundo literário).
Vamos
de exemplo... Quando Aurora Bernardini levantou a questão de que best sellers
não necessariamente são literatura e que autores hoje aclamados estão fora do
padrão canônico daquilo que se considerava literatura de qualidade (sem querer
entrar no mérito acadêmico aqui), isso implica em mais pessoas comprando esses
livros mencionados para “comprovar” ou para “afrontar” a opinião da professora e
pesquisadora: o mercado sabe mexer com o ego do público, que hoje, sabe-se, tem a
tendência de afrontar os especialistas. A arrogância da ignorância está na moda, venha de onde vier.
Em
seu texto, Aurora citou especificamente Itamar Vieira Júnior, premiado autor brasileiro. Quantos exemplares de Torto Arado, do referido escritor, foram vendidos depois disso? Quantos fãs do autor saíram em sua
defesa e movimentaram as redes? Quantos fãs defenderam o autor, e não a sua
literatura? Ou defenderam suas crenças (as crenças de uma tribo), mas não sua qualidade literária?
Então
quer dizer que uma crítica certa lançada ao acaso e sem contexto profundo pode,
por meio da polêmica, endossar ainda mais o objeto da crítica? E isso pode ser
uma estratégia mercadológica? Sim, é exatamente o que estamos dizendo.
No
caso do texto da professora Dirce Waldrick do Amarante, ela elenca algumas críticas já
bastante desgastadas no meio literário, sem apontar nenhuma novidade: sobre as grandes
editoras, sobre a visibilidade artística e sobre aquilo que nós nomeamos como “compadrio”
ou “clube do brandy” (livros e autores que só sobrevivem graças às amizades) e
que isso geram listas de melhores livros tendenciosos e sem critérios
literários consistentes. Nada de novo sob o sol.
Então, qual o objetivo dessa
crítica? Qual o objetivo dessa crítica dentro de um grande jornal que por vezes
ajudou a construir essa mesma visão mercadológica da literatura que finge atacar? Não questionamos o
objetivo da autora, que não disse nenhuma inverdade - embora tenha preterido as
evoluções de algumas editoras independentes, tenha deixado de lado aspectos importantíssimos sobre o comportamento dos leitores contemporâneos e, em certo momento do texto, forçou
uma defesa periférica, derrapando em alguns argumentos, especialmente na parte
de “eventos presenciais serem anacrônicos e inaceitáveis” por excluírem a periferia (forçou a barra pra lacrar! E sobre isso também desconfiamos...).
Percebem
onde queremos chegar? Será isso uma teoria da conspiração inventada por nós? Não
sabemos, mas veja um trecho do que dissemos em uma Malagueta (#37), publicada em
2021, ocasião em que Fernanda Montenegro entrou para a Academia Brasileira de
Letras:
“...
escolhas baseadas em parâmetros obscuros e de compadrio sempre foram a regra. A
regra é não ter uma regra clara. O que eu vejo é uma disputa de pequenos grupos
que estão todos, sem exceção, interessados em manter o compadrio como meio de
medir mérito. Seja no círculo dos consagrados, seja no círculo dos não
consagrados, seja no círculo dos marginalizados. Todos têm seus “amigos”, mas
nenhum deles está debruçado verdadeiramente sobre o texto, sobre a palavra na
folha de papel, a palavra como ela chega a seu leitor. Fala-se muito em
autores, mas pouquíssimo em literatura”
(FIORENTINO, Allyne. ABL: muito barulho por nada. Revista O Bule, 13 nov.
2021.)
Então, indo um pouco além do que a professora Dirce menciona, concordamos com quase tudo que ela disse, mas entendemos, também, outros pontos de vista, como as possibilidades de publicação de autores e editoras independentes, que hoje criam uma segunda via de publicações fora das grandes editoras, coletivos e grupos que se mantêm resistentes a transformar a literatura em puro produto mercadológico (é o caso da Revista O Bule e de tantas outras revistas/editoras marginais), pessoas que se mantêm resistentes à ideia de que a literatura serve como pretexto e panfletagem para causas sociais de minorias, sem se importar com a qualidade e com a construção de linguagem (é o nosso caso, é o caso de muito gente que pode estar pensando a mesma coisa agora e não tem coragem de dizer porque tem medo de ser massacrado pelo dito politicamente correto). Nada disso foi mencionado. Estranho, não é mesmo? Ou será que foi proposital? Fica aí o questionamento.
Quem hoje teria coragem de dizer que uma obra que exalta algum aspecto de minoria é ruim? E olhe que, hoje em dia, há muitas, muitas, muitas obras literárias muito ruins. Você teria? Teria coragem de ir contra tudo e todos a partir de uma análise literária de verdade? O que sabemos é que, n'O Bule, a gente vive falando disso. E por isso continuamos aqui, menos para dar conclusões palatáveis que o público espera e mais para fazer o leitor pensar!
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Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais e reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia, com foco em Simbolismo brasileiro e hispano-americano. Atua em Tecnologia da Educação. Instagram: @allyne.fiorentino.
Sinvaldo Júnior é professor, pesquisador acadêmico e revisor de textos. Possui graduação em Letras/Português, mestrado em Administração e doutorado em Estudos Literários. Atualmente cursa pós-doutorado, com pesquisa comparada entre literatura e cinema. Mora em Uberlândia/MG.