Por Gustavo Coelho
A súbita liberdade das mãos enviou uma onda de adrenalina pelo corpo de Hebert. Em um ato de puro instinto, ignorando a dor lancinante, ele se impulsionou para a frente, tentando se levantar para avançar contra o sequestrador.
O homem não se moveu. Apenas sacou um revólver .38 do cós da calça, a arma surgindo com uma naturalidade assustadora. O som do cão sendo armado. Um clique metálico. Hebert congelou, o corpo a meio caminho de se erguer, e o medo o forçou a se sentar de volta na cadeira.
Foi um erro.
Sentiu uma dor monstruosa.
Ele havia se esquecido da "pera" fincada e expandida em seu ânus. O impacto na cadeira fez o dispositivo rasgar ainda mais seu interior. Um grito saiu de sua boca, e seu corpo se contorceu novamente de dor, uma agonia que partia de um novo e terrível lugar.
O sequestrador, com a arma ainda em punho, observou a cena com interesse.
— Este será o nosso último jogo — disse ele, a voz calma. — Roleta russa. Se o senhor ganhar, estará livre de sua situação atual.
Ele balançou um pequeno molho de chaves no ar, o metal tilintando suavemente, antes de guardá-lo no bolso. Em meio ao pânico, à dor e ao desespero, Hebert viu ali a única oportunidade de sair vivo. Ele assentiu, a cabeça balançando em um gesto de aceitação patética.
— Vamos decidir quem começa — continuou o homem, pegando a moeda do bolso outra vez. — Como o senhor escolheu cara no último jogo, e venceu, a escolha desta vez é minha. Para manter o equilíbrio. E eu escolho cara.
Ele jogou a moeda para o alto, pegando-a no ar. Ao revelar a face, um sorriso se formou em seus lábios.
— Veja só. Deu cara!
Sem dar tempo para Hebert processar o que aquilo
significava, ele abriu o tambor do revólver, mostrou uma única bala e a inseriu
em uma das câmaras. Girou o tambor com um movimento rápido do dedo, fechando
com um estalo.
O homem apontou o cano frio do revólver para
Hebert.
O mundo de Hebert se reduziu àquele pequeno
círculo escuro.
Fechou os olhos com força, encolhendo-se na
cadeira, esperando o estampido final.
CLICK.
O som metálico e vazio ecoou na sala. Hebert abriu
os olhos, ofegante. O sequestrador o observava, um brilho de professor em seu
olhar.
— Veja só. O primeiro passo é o mais importante — ironizou,
com a arma ainda apontada. — Ele nos dá esperança. É a prova de que há uma
chance. Agora o senhor sabe que pode sair dessa.
Então, com um movimento calmo e fluido, ele levou
a arma à sua própria têmpora.
CLICK.
O segundo som vazio foi tão alto quanto o
primeiro. O homem nem sequer piscou. Hebert, por outro lado, soltou uma
torrente de lágrimas de pavor e confusão.
— Meu Deus, para com isso... — suplicou, a voz
estrangulada. — Eu te imploro, me deixa ir embora.
O seu captor apenas sorriu, ignorando o clamor.
— Lembre-se, Hebert. As escolhas, elas definem o
destino de cada um. Boas e ruins. São elas que formam o caráter de uma pessoa.
Ele apontou, novamente, a arma contra Hebert e
apertou o gatilho mais uma vez.
CLICK.
Hebert soltou um som de alívio e gratidão. O
sequestrador abaixou a arma e a guardou no bolso da calça, como se o jogo
tivesse terminado. Ele ofereceu uma opção ao seu "hóspede".
— Eu já venho seguindo seus passos há muito tempo,
Hebert. O senhor não foi escolhido ao acaso. Foi escolhido a dedo. Eu sei tudo
o que já fez, sei de seus planos. Sei até para onde iria amanhã.
Ele caminhou pela sala, as mãos para trás, como um
palestrante.
— O senhor é praticamente um modelo para a
sociedade. Um rapaz de sucesso, de família, de posses. E prego, quando se
destaca, deve ser martelado.
Ele parou e encarou Hebert, o tom agora sério e
direto:
— Então, aqui está o seu verdadeiro jogo. Sua verdadeira escolha. Se o senhor me revelar um crime que já cometeu, um que seja maior, mais cruel do que o meu de tê-lo trazido aqui, eu encerro tudo. Agora mesmo. E o deixo ir.
Hebert ergueu a cabeça, o sangue e as lágrimas se misturando em seu rosto. Ele olhou nos olhos de seu captor, a última centelha de lógica em sua mente buscando uma saída, uma forma de vencer aquele jogo impossível.
— Não tem como... — sussurrou, a voz rouca e quebrada pela dor. — Você... Você arrancou dois membros de mim... Você me torturou... Você praticamente me estuprou. Não existe crime que eu tenha cometido que possa superar isso.
Ele esperou por uma resposta, uma punição pela insolência. Em vez disso, o sequestrador jogou a cabeça para trás e começou a gargalhar. Não foi um sorriso contido, mas uma gargalhada alta, genuína e maníaca, que encheu a sala úmida.
— EXATAMENTE! — bradou ele, em meio ao riso.
Com um movimento rápido, ele retirou o revólver do bolso. O sorriso ainda estava em seu rosto, um sorriso de triunfo, de quem acaba de ouvir a piada perfeita. Ele levou o cano da arma à sua própria têmpora, exatamente como fizera antes.
— Minha vez.
Hebert nem teve tempo de processar a frase.
Um estampido ensurdecedor na sala pequena. O corpo obeso do homem tombou para o lado, caindo no chão encharcado, e o revólver escorregou de sua mão, parando a poucos metros de Hebert.
Seguiu-se um silêncio absoluto, quebrado apenas pelo som da goteira distante e do bip constante do monitor, que, incansavelmente, ainda media os batimentos de seu próprio coração.
Hebert mal acreditava em sua sorte. O silêncio, antes um presságio de mais dor, era agora a prova de que havia acabado. Ele olhou para o corpo inerte, uma massa disforme desfalecida no chão, e depois para as próprias mãos, agora livres.
Com a dor e a dificuldade do mundo pesando sobre si, ele se inclinou para a frente. Usando as mãos para se apoiar no chão úmido, arrastou o próprio corpo junto com a cadeira, centímetro por centímetro, em direção ao cutelo que repousava perto do cadáver. Cada movimento era uma nova onda de agonia vinda de seu pé e de sua virilha.
Ele finalmente alcançou a arma. A madeira do cabo estava escorregadia, mas ele a segurou com firmeza. Torcendo o corpo em uma posição desajeitada, começou a serrar as cordas que prendiam seus tornozelos. Os fios grossos cederam lentamente, um a um, até que o último se partiu.
Com um enorme esforço, apoiando-se na parede, ele se levantou. As pernas tremeram, ameaçando ceder. A dor interna, por conta da "pera", era um fogo constante. Ele cambaleou até o pequeno aparelho que o sequestrador usara, procurando um botão, uma alavanca, qualquer coisa que revertesse o mecanismo. Não havia nada. Nenhum botão de reverso.
Sem outra opção, ele ergueu o cutelo. Com golpes repetidos e desesperados, atacou a mangueira hidráulica que ligava o aparelho ao dispositivo em seu corpo. A borracha grossa resistiu, mas por fim se rompeu com um silvo baixo, liberando um óleo fino no chão.
Ele sentiu a pressão dentro de si afrouxar. Com as mãos trêmulas e o rosto crispado em uma careta de dor antecipada, ele se curvou e, com o máximo de cuidado possível, começou a retirar o objeto de metal de seu orifício anal: uma extração lenta, agonizante, cada milímetro uma nova laceração. Mas ele persistiu, até que o dispositivo caiu no chão, manchado de sangue. Livre. Ele estava finalmente livre dos aparelhos.
Continua amanhã, dia 11/02.
Gustavo
Coelho,
natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação
Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado
pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do
anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da
Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação. É
coautor de Crisântemo.




