9 de fev. de 2026

Psicopatia (Parte 3)

Por Gustavo Coelho 

— Vamos continuar — disse, o tom novamente controlado, quase divertido. Ele enfiou a mão no bolso do paletó e retirou duas cartas de baralho. 

Esperou que os uivos de Hebert se transformassem em um choro mais baixo e, então, se agachou na frente dele, mostrando as duas cartas. Uma era a dama de copas, a outra, um valete de paus. 

— O próximo jogo é de sorte, Hebert. O senhor deve escolher a carta certa — explicou, com um brilho nos olhos. — A única dica que lhe dou é que a carta certa depende da sua sorte. A errada... bem, a errada tem a ver com a escolha de merda que o senhor fez. 

Ele embaralhou as duas cartas nas mãos, virou-as com o desenho para baixo e as colocou no chão encharcado. 

— Escolha. A da esquerda ou a da direita? 

Hebert, com a visão turva pela dor, olhou para as duas cartas indistintas. Era uma aposta cega. 

— A... a da esquerda... — balbuciou. 

O homem pegou a carta da esquerda e a virou lentamente. Era a dama de copas. Ele não disse se a escolha fora boa ou ruim. Apenas se levantou em silêncio e caminhou de volta para a mesa no fundo da sala. Voltou de lá com um cutelo, a lâmina larga e pesada brilhando sob a luz da luminária. 

O pânico de Hebert se renovou. 

— Não... de novo não... por favor! Eu só quero ir embora! Eu faço o que você quiser! — gritou, tentando puxar os pés, mas as amarras eram firmes. 

Ao terminar a frase, o sequestrador já estava agachado novamente ao seu lado. O cutelo desceu com um golpe limpo e pesado, exatamente sobre o dedo do pé que o martelo havia esmagado. O som do metal cortando o que restava do osso foi nítido, seguido por um novo grito de agonia que superou todos os anteriores. 

Em meio ao sangue que escorria de seu pé e ao eco de seus próprios gritos, Hebert viu o sequestrador sorrir novamente. O homem se inclinou, o rosto calmo e satisfeito, e falou por cima dos gemidos de sua vítima: 

— Está vendo, Hebert? Isso é a consequência. A consequência de uma escolha errada. 

Ele então girou, mais uma vez, o botão do aparelho de choque elétrico. 

Uma nova onda de dor. A agonia do dedo amputado se fundiu com a convulsão da eletricidade, e Hebert sentiu o mundo se dissolver em um clarão branco. Seus olhos quase saltaram do rosto, e um grito que parecia vir de sua própria alma rasgou o ambiente. O corpo se contorceu de tal forma que ele mordeu a própria língua, o sangue preenchendo sua boca. Um cheiro acre de pele queimada começou a se espalhar pela sala, um testemunho da intensidade do choque. 

O sequestrador observava o monitor cardíaco, a linha verde traçando picos perigosos e erráticos. Com a mesma calma com que iniciou, ele desligou o aparelho. O corpo de Hebert amoleceu na cadeira, tremendo, ofegante. 

— Vamos fazer uma pausa — disse o homem, como se anunciasse o fim de um exercício. — Para o senhor pensar em como vai jogar da próxima vez. 

Ele abaixou sob os pés de Hebert, recolheu cuidadosamente o dedo decepado, se virou e caminhou em direção a uma porta, no canto da sala, que Hebert não havia notado antes. Ele destrancou e abriu, fechou atrás de si, sozinho ali no escuro. 

Hebert tentou respirar, a agonia ainda viva, movendo-se por todo o seu corpo. O sangue, o cheiro, o silêncio: não conseguia lidar com tudo isso... Seus olhos reviraram e, desta vez, a escuridão era boa. Ele desmaiou. 

Hebert acordou em espasmos, seu corpo inteiro lutando por algo que não viria: ar. Sua cabeça estava envolta em um saco plástico molhado e quente, selado contra seu rosto a cada inalação fracassada. O pânico imediato. Começou a se debater na cadeira. A visão escureceu nas bordas, o peito queimava. Quando estava prestes a perder a consciência, o saco foi arrancado de sua cabeça.

Ele engoliu o ar mofado da sala em uma golfada desesperada e dolorosa. Tossindo, com os olhos lacrimejando, ele viu o sequestrador parado à sua frente, segurando o saco plástico amassado. 

— Acorda, margarida — disse o homem, com um tom de escárnio. — Está na hora de se alimentar. 

— Por quê...? — sussurrou Hebert, a voz rouca. — Por que está fazendo isso? 

O sequestrador apenas deu de ombros, um gesto de indiferença que era mais cruel do que qualquer resposta. 

Hebert não havia notado, mas havia uma mesa posta em sua frente. Um prato fundo com um líquido espesso, com verduras e legumes. Uma sopa. 

— Como está impossibilitado, eu irei administrar sua alimentação. 

As coisas começaram a ficar ainda mais bizarras. Ele mexeu o conteúdo da sopa, assoprou e iniciou o procedimento como se fosse um bebê. 

— Vamos lá, Hebert. Abra a boquinha! 

Hebert sentiu que não era hora de irritá-lo com desobediência. 

Ao mastigar ele percebeu algo de diferente naquela sopa. Por mais que o aroma e o sabor não estivessem ruins, havia um pedaço de carne com osso, impossível de ser mastigado. Então, para não desagradar seu captor, ele roeu com os dentes e cuspiu o que sobrou na mesa. 

— Tá vendo, Hebert. Nem você mesmo se suporta! 

Cismado com a frase, Hebert olhou para aquele resto que cuspira. A terrível descoberta: seu dedo decepado estava entre os ingredientes da sopa. 

— VOCÊ É DOENTE? – gritou Hebert, vomitando de lado o pouco que havia engolido. 

— Deixe de ser malcriado, sr. Hebert. Acho que sei de algo que irá animá-lo. 

Então ele se virou e pegou uma barra de ferro fina que estava encostada na parede. Com um maçarico portátil, começou a aquecer o metal. A chama azul sibilou e, em instantes, o ferro começou a brilhar, passando de um cinza opaco para um laranja vivo, depois para um vermelho incandescente. O calor irradiava, e Hebert podia senti-lo em seu rosto. 

— Pronto para o próximo jogo? — perguntou o homem, aproximando a barra brilhante. O desespero tomou conta de Hebert novamente. — É simples. Cara ou coroa? 

Ele fechou a mão, escondendo a moeda. Hebert, com o pavor do ferro quente à sua frente, apostou. 

— Cara! — gritou. — Cara, por favor! 

O sequestrador parou, uma sobrancelha se erguendo atrás dos óculos. 

— Interessante... — murmurou, pensativo. — Estudos dizem que jovens mimados como o senhor costumam escolher coroa. É um símbolo de nobreza, de poder... O senhor me surpreendeu. 

Jogou a moeda para o alto com o polegar. O metal girou, cintilando sob a luz da luminária, e a pegou no ar com um tapa, colocando na parte de trás da outra mão. Lentamente, ergueu a mão para revelar o resultado. 

Veio a surpresa. 

— Deu cara! 

Uma expressão de alívio surgiu nos lábios de Hebert. Havia escapado do ferro incandescente. O sequestrador o observou, balançando a cabeça como se estivesse impressionado. 

— O senhor tem sorte. E eu sou um homem de palavra — disse ele. 

Então, para o horror absoluto de Hebert, ele se inclinou e agarrou a barra de ferro brilhante com as duas mãos. O som da carne queimando, um chiado agudo acompanhado de um cheiro forte e adocicado. O homem não gritou. Não demonstrou dor. Apenas segurou o ferro por dez longos segundos, o rosto impassível, antes de largá-lo no chão com um baque metálico. Ele ergueu as mãos para Hebert ver o resultado: a pele das palmas e dos dedos estava destruída, revelando a gordura amarelada por baixo. 

Com uma calma surpreendente, ele pegou a moeda do chão com os dedos queimados e a guardou no bolso. 

— Vamos para o próximo jogo — anunciou. 

Hebert, ainda atordoado pela cena, lembrou-se da promessa. Sua voz saiu fraca, mas insistente. 

— Você... você disse... que ia resolver um dos meus problemas. A prenda... você cumpriu. Mas e o resto? 

O sequestrador o olhou e sorriu, pedindo desculpas como se tivesse esquecido de um detalhe trivial. 

— Oh, é verdade. Peço perdão. A minha prenda me distraiu. Sabe de uma coisa? Por meu esquecimento, vou resolver dois de seus problemas, não apenas um. 

Ele caminhou até a mesa e pegou o cutelo. Hebert começou a tremer, certo de que a morte havia chegado. O homem parou à sua frente, a lâmina pesada pendendo ao lado do corpo. 

— O senhor deseja que os choques cessem? Deseja que eu o liberte daquele dispositivo? — perguntou, com genuína curiosidade. 

Com a voz trêmula, gaguejando, Hebert conseguiu dizer: 

— Sim... sim, por favor... 

— Pois bem. 

O cutelo se ergueu. O movimento foi um arco rápido e preciso. A lâmina desceu com um só golpe, cortando a carne, na base do pênis de Hebert. 

— Pronto — disse o sequestrador, observando sua obra. — A parte do seu corpo ligada ao dispositivo acabou de ser retirada. 

Por um segundo, Hebert não entendeu. Então a dor explodiu, uma agonia branca e ofuscante que superou tudo o que sentira antes. 

— MEU PAU! — gritou, a voz rasgando de pura incredulidade e horror. — VOCÊ ARRANCOU MEU PAU! 

Ainda em meio ao desespero e à angústia de Hebert, o sequestrador se moveu para trás. Com o mesmo cutelo, cortou as amarras que prendiam seus pulsos. 

— E agora, suas mãos estão livres — disse, satisfeito. — Dois problemas resolvidos. 

Ele deixou Hebert solto da cintura para cima, mas com os pés ainda atados, em uma poça crescente de seu próprio sangue.


Continua amanhã, dia 10/02.


Gustavo Coelho, natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação. É coautor de Crisântemo.

8 de fev. de 2026

Psicopatia (Parte 2)

Por Gustavo Coelho 

O homem entendeu aquilo como uma confirmação. Ele se abaixou. Com uma das mãos, segurou o dispositivo metálico e, com a outra, o guiou para uma abertura circular na base da cadeira. O prisioneiro sentiu o metal frio e lubrificado tocar sua pele, e então ser introduzido em seu ânus. Ele tentou gritar, mas saiu apenas um gemido abafado. 

Ainda abaixado, o torturador pressionou um pequeno botão no controle que segurava. Um zumbido delicado e abafado, algo como o suave som de um aríete hidráulico ganhando vida. 

O corpo do outro se contorceu violentamente contra as restrições impostas pelas amarras, a coluna se curvando na cadeira com a pressão interna que ia aumentando. Ele chorou, implorou e suplicou para que aquilo acabasse, mas o homem à sua frente apenas olhava extasiado. 

Ele começou a assobiar, pressionando o botão o tempo todo com o polegar, uma melodia suave que não tinha relação com os gritos agonizantes de sua presa. A "pera" se abria uma fração de polegada a cada segundo e Hebert tinha a sensação de estar sendo rasgado por dentro. O grito foi substituído por tremores que seu corpo não conseguia controlar. 

O sequestrador observou a reação com interesse e, então, soltou o botão. O zumbido hidráulico parou. 

— Pronto — afirmou ele, com a voz calma de quem conclui uma tarefa. — Cheguei no ponto que queria. 

Hebert ofegava, o corpo mole e dolorido. Sentia o sangue quente escorrendo, a certeza de uma ferida interna grave. O desespero deu lugar a um novo tipo de súplica: a de um homem humilhado pedindo socorro. 

— Por favor... Eu preciso de um médico... 

O sequestrador soltou uma gargalhada contida, um som baixo e divertido que pareceu ecoar por toda a sala. Ele se aproximou do rosto de Hebert, o sorriso ainda em seus lábios. 

— Não — disse ele, com simplicidade. — Nós só estamos começando os jogos. 

Ignorando as súplicas, ele guardou o controle da "pera" e pegou o outro pequeno aparelho, o da descarga elétrica. 

— Diga-me, Hebert — começou, a voz calma e professoral. — Quando me viu pela primeira vez, sentiu alguma coisa? 

Hebert, em meio à dor e ao pânico, não entendeu a pergunta. Sua mente estava focada na agonia que pulsava em seu corpo. Ele apenas gemeu, confuso. O homem suspirou, como se estivesse desapontado com a lentidão do aluno. Sem dizer mais nada, ele girou o botão do dispositivo em sua mão. 

A descarga elétrica voltou, e uma convulsão de dor aguda sacudiu o corpo de Hebert. Agora, porém, o sofrimento foi amplificado de forma inimaginável. Com a “pera”, a corrente elétrica somou-se à dor latejante e profunda que já o consumia por dentro. Sua visão escureceu. 

Quando o choque cessou, o sequestrador se aproximou novamente, o rosto a centímetros do de Hebert. 

— Eu perguntei... — repetiu, enunciando cada palavra. — Se você sentiu alguma coisa. 

Hebert entendeu. A "coisa" a que ele se referia, provavelmente, era o choque. Com o corpo ainda tremendo, ele conseguiu assentir com a cabeça, um movimento fraco e desesperado. 

O homem sorriu, satisfeito com o entendimento. 

— Esse sentimento... essa descarga... — explicou ele, didaticamente. — É algo comum em predadores. É o que usamos para domar as feras. 

Ele apontou com o queixo para a parte íntima de Hebert, que até então estava fora de seu campo de visão, obscurecida pela posição em que estava amarrado. 

Seguindo o gesto, Hebert baixou os olhos e então viu. Preso à base de seu pênis, havia um grampo de metal, semelhante a uma pinça, do qual saía um fio fino que se conectava a um dispositivo preso na lateral da cadeira. Era dali que vinha a eletricidade. A fonte de uma das dores, agora revelada, só tornava o terror mais humilhante. 

A visão do grampo metálico em sua genitália dissolveu o que restava do autocontrole de Hebert. Um grito de pânico rasgou sua garganta. 

— Tira isso! Por favor, tira isso de mim! — implorava, o corpo se debatendo inutilmente contra as amarras. 

O sequestrador sorriu, um sorriso genuinamente divertido, como se a situação fosse uma piada particular. Ele se aproximou, a calma contrastando com o desespero de Hebert. 

— Eu tiro. Tudo a seu tempo — disse ele, a voz suave. — Que tal um jogo? Para cada escolha correta que o senhor fizer, eu resolvo um desses seus... probleminhas. E, para ser justo, eu pago uma pequena prenda cada vez que eu perder. O que me diz? 

Hebert parou de se debater, ofegante. Qualquer coisa era melhor que aquela agonia sem sentido. 

— Sim, eu aceito! Qualquer coisa! — respondeu, a voz embargada. 

— Excelente. Então vamos ao primeiro jogo — disse o homem, juntando as mãos na frente do corpo. — A escolha é clássica: Verdade ou Desafio? 

Hebert não hesitou. A verdade parecia mais segura, menos física. 

— Verdade, pelo amor de Deus! 

— Certo, então. Sem problemas — o homem empurrou os óculos para cima no nariz. — A pergunta é bem simples: qual foi a coisa mais cruel que você já fez? 

Hebert hesitou. A pergunta o atingiu inesperadamente. Como ele poderia saber? Como o sequestrador saberia que ele daria a "resposta certa"? A pergunta não era sobre a verdade dele, mas sobre a verdade que o sequestrador queria ouvir. Era uma armadilha. Ele vasculhou a memória em busca de algo, qualquer coisa que pudesse satisfazer aquele monstro. Então, arriscou. 

— Uma vez... — começou, a voz trêmula. — Na faculdade. Eu... eu deixei um nerd pelado e o tranquei em um dos armários de limpeza. Deixei ele a noite inteira lá. 

O sorriso sutil desapareceu do rosto do homem. Sua expressão se fechou, tornando-se uma máscara de fria desaprovação. Sem dizer uma palavra, ele se virou e caminhou em direção ao fundo da sala escura, seus passos pesados tocando o chão molhado. Hebert o seguiu com os olhos, o coração disparado, ansioso por saber se havia dado a resposta certa. 

O homem voltou, segurando um martelo. A ferramenta era comum, de cabo de madeira e cabeça de metal, mas naquele ambiente, sob aquela luz, parecia um instrumento de execução. 

Ao ver a arma, o pânico tomou conta de Hebert novamente. 

— Não! Espera! Foi só uma brincadeira... uma piada de faculdade! — ele gritou, a voz esganiçada. — Eu não queria fazer mal a ninguém... por favor... 

O sequestrador o ignorou completamente. Ajoelhou-se ao lado do pé de Hebert, que estava preso à cadeira. Ele ergueu o martelo. 

O golpe desceu, violento e preciso, sobre o dedão do pé direito de Hebert. 

O som foi seco, uma mistura de metal contra osso e carne. A dor explodiu pela perna de Hebert como fogo líquido. Ele se balançou violentamente na cadeira, o corpo convulsionando em um espasmo de agonia. O choro, que antes era de desespero, agora era um uivo agudo e incontrolável de dor física. 

— ERRADO! — gritou ele, a voz calma substituída por um berro. — Não era a resposta correta! 

Ele caminhou de um lado para o outro, respirando fundo, como se tentasse controlar a própria raiva. Então parou e olhou para Hebert, que ainda soluçava de dor.


Continua amanhã, dia 09/02.


Gustavo Coelho, natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação. É coautor de Crisântemo.

7 de fev. de 2026

Psicopatia (Parte 1)

Por Gustavo Coelho 

Bip... bip... bip. Um ritmo constante, metálico. E o outro som: ploc... ploc..., irregular, o som de água caindo em água, ecoando em um espaço que parecia vasto e vazio. Esses eram os únicos guias no breu que o envolviam. O ar estava carregado com um cheiro de mofo, de porão esquecido, de um solo que nunca via o sol. A umidade grudava em sua pele nua, e o frio da cadeira estranha em que estava sentado subia por sua espinha. 

Ele estava preso. Sem roupas. As mãos, amarradas para trás, formigavam. Os seus pés, firmemente atados à base da cadeira. Uma venda apertava seus olhos, roubando-lhe sua orientação. Pelo eco, não havia muitos móveis, sentia apenas o chão encharcado sob a cadeira. Era um nada, um verdadeiro vácuo.

Abriu a boca para perguntar, para gritar por socorro, para implorar. Mas o som morreu em sua garganta, engolido pelo silêncio opressor do lugar. Nada além do bip de uma máquina de suporte médico e o ploc do gotejamento implacável. 

Em sua desorientação, ele de repente sentiu: não um som, mas uma sensação. Houve um estalo que percorreu seu corpo como um raio, uma onda de dor aguda que irrompeu no centro de sua coluna e disparou por cada nervo, cada músculo. Seu corpo se arqueou, os dentes se cerraram com uma força inatural. A mandíbula travou com tanta pressão que ele ouviu o trincar de um de seus dentes. 

Tão rápido quanto veio, a dor cessou. O seu corpo amoleceu, pendendo nas amarras. O choque da ausência da dor foi quase tão brutal quanto a dor em si. Então, ele chorou. Desesperado, gutural. Um choro de quem perdeu o controle, empurrado para além de qualquer limite. 

Em meio aos seus soluços, sentiu mãos em sua nuca. Não eram agressivas, mas firmes, metódicas. A venda foi desatada e puxada de seu rosto. 

A luz de uma única luminária, focada nele, o cegou. Ele piscou, os olhos ardendo, tentando se ajustar. Quando a imagem finalmente ganhou foco, ele viu a figura parada à sua frente. Não era um monstro ou um carrasco mascarado. Era um homem comum. 

Obeso, na casa dos seus quarenta e oito anos, vestia-se como se tivesse acabado de sair de um escritório. Camisa social bem passada, calça social vincada, suspensórios que esticavam sobre a barriga proeminente, uma gravata e óculos de grau de aros finos. Um senhor de meia-idade que, se passasse por ele na rua, não levantaria a menor suspeita. 

O homem à sua frente não dizia nada. Seus olhos, ampliados pelos óculos, apenas o observavam chorar, com a mesma curiosidade de um cientista analisando uma cobaia. Ele levantou a mão, para que o objeto que segurava ficasse perceptível. Ele usou o polegar para girar, cuidadosamente, um pequeno atuador no dispositivo. 

Sua dor voltou, só que desta vez não como um estalo. Uma onda crescente, uma agonia zumbia em cada veia de seu corpo, intensificando-se a cada respiração. O bip do monitor cardíaco começou a acelerar em um alarme cada vez mais agudo que rapidamente encheu a sala. Sua mandíbula se contraiu com tanta violência que ele sentiu o gosto quente e metálico de sangue. 

Até que, no auge do sofrimento, a dor cessou novamente. O silêncio e o bip frenético eram tudo o que restava. 

— Para... Por favor, para... — implorou, a voz embargada pelos soluços e pela dor. — Eu não fiz nada... Eu juro... Eu não conto pra ninguém, só me deixa ir embora... Por favor... 

O homem sorriu, não um sorriso largo, mas um pequeno curvar dos lábios, um tremor de satisfação que não chegava aos seus olhos frios. Sentia um prazer quase imperceptível, puro, que derivava de assistir à agonia do outro. 

Foi quando isso o atingiu: a certeza. Não havia motivo, e não havia crime. Ali estava um verdadeiro psicopata, alguém que o havia capturado por diversão. Seu cérebro girou, procurando uma maneira de sair, analisando as algemas, o espaço, uma fraqueza no esquema daquele homem. 

Mas o homem caminhou até um canto escuro da sala e puxou um pano que cobria uma pequena mesa. Sobre ela, um aparelho com uma tela esverdeada exibia uma linha irregular e pulsante. Ele virou a tela em sua direção. Era o monitor cardíaco. A linha que dançava na tela era o seu próprio coração em pânico. 

Entendeu que o monitor não estava ali para garantir sua sobrevivência. Estava ali como parte do jogo. Sentiu que algo terrível, e muito bem planejado, iria acontecer. 

Ele se aproximou, o sorriso satisfeito ainda pairando em seus lábios. Se aproximou em passos lentos e pesados, parando ao lado da cadeira e, com uma calma que arrepiava, perguntou com uma polidez cruel: 

— Está confortável? 

Sem se preocupar com a resposta, ele estendeu a mão e pegou um objeto metálico que estava pendurado ao lado da cadeira. Tinha o formato de uma pera, era feito de um aço escuro e estava conectado a uma espécie de mangueira hidráulica preta e flexível. Ele o segurou diante do rosto do prisioneiro, como quem apresenta uma joia rara, e começou a explicar: 

— Você conhece a Pera da Angústia? É conhecida, também, como pera de estrangulamento. Foi inventada no início do período moderno. É um dispositivo em forma de pera, dividido em segmentos. Como versão moderna, a expansão é controlada por pistões hidráulicos silenciosos, acionados remotamente. Uma vez inserido na boca ou, como gosto pessoal, em outro orifício corporal, a força hidráulica abre os segmentos de forma gradual ou súbita, causando mutilação interna. 

O prisioneiro começou a se debater na cadeira, o pânico tomando o lugar da dor que sentira até então. 

— Não... Por favor... Você pegou o cara errado! — implorou, as lágrimas e o suor se misturando em seu rosto. — Eu juro, eu não fiz nada pra você! 

Em meio às súplicas desesperadas, o torturador o interrompeu com uma pergunta simples. 

— Seu nome é Hebert, não é? 

O prisioneiro parou de se debater. O corpo inteiro congelou ao ouvir seu nome naquele lugar, vindo daquela boca. A última faísca de esperança de que aquilo fosse um engano se apagou. Ele começou a chorar de uma forma diferente agora, um choro baixo, de derrota, balançando a cabeça em um espasmo de negação e terror.


Continua amanhã, dia 08/02.


Gustavo Coelho, natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação. É coautor de Crisântemo.

5 de fev. de 2026

sacerdócio, de whisner fraga



Whisner Fraga é mineiro de Ituiutaba. Autor dos livros usufruto de demônios (Ofícios Terrestres, contos, 2022, finalista do Prêmio Jabuti), usufruto de ruínas (Ofícios Terrestres, contos, 2023), as fomes inaugurais (Sinete, contos, 2024), entre outros. Teve contos traduzidos para o inglês, árabe e alemão. É responsável pelo canal “Acontece nos livros”, no YouTube, em que fala sobre obras da literatura brasileira. 

4 de fev. de 2026

Quem é Rogers Silva na fila do pão?

A identidade literária de Rogers Silva não pode ser dissociada de sua origem no bairro Alvorada, em Uberlândia, Minas Gerais. Sua trajetória é marcada por uma transição significativa da sobrevivência econômica para o rigor da academia. Durante sua juventude, Rogers atuou como vendedor de pamonha, laranjinha (geladinho), sorvete, pastel, uma experiência que ele descreve como fundante para sua percepção da realidade urbana e das dinâmicas sociais. Esta vivência na periferia urbana de Uberlândia forneceu-lhe uma "biblioteca de vivências" que, anos mais tarde, seria transmutada em ficção.

A educação de Rogers deu-se integralmente em instituições públicas, com destaque para a Escola Estadual Lourdes de Carvalho, do Bairro Alvorada, Uberlândia/MG. Um ponto de inflexão crucial em sua jornada foi o início tardio da leitura literária. Diferente de muitos escritores que crescem cercados por livros, ele só teve seu primeiro contato profundo com a literatura aos 18 anos, impulsionado pela necessidade de preparação para o vestibular de Letras na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Esse encontro tardio com autores como Machado de Assis, Lygia Fagundes Telles e Carlos Drummond de Andrade não foi um impedimento, mas sim um catalisador de um interesse voraz que o levou a se dedicar tanto à escrita de ficção quanto à escrita de textos acadêmicos sobre literatura. 

O percurso acadêmico de Rogers Silva influenciou diretamente sua produção criativa. Entre 2013 e 2021, ele viveu um hiato na ficção para dedicar-se à escrita técnica e acadêmica, produzindo resenhas, artigos, tese, etc. Este período de silêncio criativo ficcional foi, na verdade, um momento de maturação estilística. O estudo profundo de Carlos Drummond de Andrade, tema de seu doutorado, permitiu-lhe compreender a mecânica da poesia e da prosa curta, influenciando a densidade e a precisão de seus novos textos. 

Quer conhecer um pouco mais sobre Rogers Silva, escritor e colunista d’O Bule? Acesse o Vozes do Cerrado!


28 de jan. de 2026

Três poemas de Ana Yanca

 

Na manhã tântrica  
línguas babilônicas
serpenteiam fluídas
sorvendo leite da carne
no corpo solar

Na manhã tântrica
uma dança xamânica
germina no ventre do signo

partejo fábulas corcéis labirintos

Flâmulas vibram espasmos
entorno da ânsia: o grito

Serpente dourada protege
a manjedoura do filho

 Urge e fulgura

na parede da casa
a memória urtigada dos sentidos


*

Contorcia a língua
no ventre do silêncio
para entreabrir a palavra
em ritmo de alaúde
em mantra ou mandarim

o corpo perfumado em chá branco
poros em flor vestidos de luz
delineando contornos
que a penumbra produz

do corpo solar emerge
o sopro que me anima
a vívida aurora íntima 

olho para o alto
pássaros na bruma da manhã
atravessam-me
cada gesto é frágil
e carrega o peso do mundo

há que se ter coragem para ser

*

Espero na sombra
uma palavra que
se despregue
das paredes
do poema
e me atinja
como sol
dinamitado

espero a vida ávida
da palavra-lâmina-lamparina
lacerando a carne
bifurcando a língua
e fotografe o tempo

esse agoraprolongado
daqui da sombra
vejo a fosforescência:
germina um corsário

Ana Yanca, natural de Porto Velho, atua como professora na área de linguagens. É graduada em Letras, Pós-graduada em Filosofia Contemporânea, Mestra em Estudos Literários e autora da obra Do corpo ao espaço em Hilda Hilst. Outros poemas, além das colagens digitais, estão disponíveis em meios impressos e virtuais.

27 de jan. de 2026

Poemas de Marcelo Benini do livro "Poemas do núcleo rural"


Retrato com abelha no cabelo

Escrevo o lado oposto de quem me lê
Nunca pensei ser compreendido
Senão por passarinhos e saguis
As frutas me ajudaram mais que os
Dicionários de verbos e regimes 
E as gramáticas
As palavras com as quais me importo
Ciscam
O vento que escrevo está nas folhas
Dos buritis
Só faço versos que têm sopro
No coração.


Terra sem males

Todas as palavras rudes
Formam as montanhas que foi um dia
Minas Gerais

Toda máquina renasce
No contingente ser das máquinas

Todo o embaraço humano
Ignorado pelos gatos 
Todo vazio entre átomos
Tudo que se rompeu
Fios, barragens, amores
Tratados

Restos de construções gramaticais
Anais das instituições
A promessa de vir e não vir

Vidas em corpos arrestados
Presos a esse imenso vazio
Que desmatamos
As cidades são pastos cinzas
Sem onças

Apanha-se a vida no chão
Até que haja o consenso de que todo pasto
É cinza

Fica mesmo é um mato
Um imenso
De precários rebocos.


Poemas apanhados do chão na estrada do núcleo rural 

Nasceu a flor no homem
A chuva demora
A formiga corta
O mato abafa   
A mão arranca a tentativa
De flor no homem.

****

Tudo que alcanço
É um cata-vento sem Deus
Um mundo mecânico
De pá e vento.  

****

Quem é meu pai
Quem é minha mãe
Quem são meus irmãos
Ossos que visito
Arrependimentos
Pratos sobre a pia
Quem é esse silêncio
Que assoma 
Na manhã inventariada?

****

Amor é o gosto por livros
Com prefácios equivocados.

****

De grunhidos
Faremos um mundo
E com gritos -
Neste uso
De urros -
Linguagem
Gramática
E normas
Cultas.

****

Se acabarem os passarinhos
Como farás os poemas
Terás que falar apenas das árvores
Mas as árvores secam no
Abandono dos passarinhos
Os rios sem as árvores vão embora
As flores desistem
Acabaram os passarinhos.


Lamentações do doutor Fausto

Um diabinho pousou no galho mais alto do ipê
Prometeu-me dez minutos de felicidade
E começou a cantar, cantar e cantar
Em troca de minha alma.


* Retirados de Poemas do Núcleo Rural (2022, Penalux).


Marcelo Benini é poeta e ambientalista, nascido em 1970, em Cataguases - Minas Gerais. Publicou O Capim Sobre o Coleiro (poesia/2010/edição do autor); O Homem Interdito (crônica/2012/Intermeios); Fazenda de Cacos (poesia/2014/Intermeios); Currais Concretos (poesia/2018/Intermeios); Poemas do Núcleo Rural (poesia/2022/Penalux). Em 2013 foi incluído na antologia de autores brasileiros Wir sind bereit, publicada na Alemanha. Vive em uma área rural próxima a Brasília-DF. Instagram: @marcelobeninipoemas